quinta-feira, 17 de setembro de 2009

COLEÇÃO FOLHA
GRANDES ESCRITORES BRASILEIROS

3

JORGE AMADO

Tocaia Grande
A FACE OBSCURA

(1988)

2008

Titular dos direitos de edição: NOVA FRONTEIRA S.A.

Era inevitável que Jorge Amado escreveria, na maturidade literária a que chegou, no início dos anos 80 do século passado, um livro como Tocaia Grande. Até certo ponto seria a síntese e não o resumo de sua obra. Já havia escrito Terras do sem fim e São Jorge de Ilhéus, nos quais a personagem principal eram comunidades, embora formadas por intérpretes que ocupavam o primeiro plano da narrativa. Mais tarde, o autor nos daria as grandes protagonistas, Gabriela, Dona Flor e Tieta, em torno das quais movimentaria o seu universo social.
Tocaia Grande era uma terra de ninguém, sua face obscura é o imenso painel de misérias humanas, barro e sangue, pólvora e facão, o tradicional embate de coronéis e jagunços, traições e fidelidades, e mais um turco e uma artista russa, dois frades que tentam salvar a alma daqueles infiéis - tudo narrado com a suculenta prosa de um dos maiores narradores da literatura universal.
Assim como José Lins do Rego que, em Fogo morto, visitou todo o seu ciclo da cana-de-açúcar, em Tocaia Grande Jorge Amado percorre os "punti luminosi" de sua obra anterior, a saga dos cacaueiros, das prostitutas, da violência, da vingança e do distancimento de qualquer mandamento legal.
Não temos o panfleto social de seus primeiros livros, a divisão entre bons e maus, a falsa consciência de que um dia todos poderão ser irmãos. A face obscura de Tocaia Grande é a própria face obscura da sociedade humana, desprezada pela historiografia oficial, comprometida em exaltar hipotéticos feitos de hipotéticos heróis.


CARLOS HEITOR CONY
Colunista da Folha
(553 págs.)