terça-feira, 27 de outubro de 2009

Vinicius de Moraes

Joyce

VINICIUS DIVIDIDO

Bem provavelmente, os que ainda se lembram de ter visto Vinicius num palco, nos anos 60 ou 70, acompanhado por Toquinho ao violão e por alguma das cantoras com quem ele trabalhou por mais tempo - Marilia Medalha, Maria Bethânia, Maria Creuza, Joyce -, dirão que seu instrumento em cena era o uísque. Porque era assim que Vinicius aparecia para as platéias: sentado a uma mesa, a bordo de um copo e um microfone, contando histórias e dando o mote ou engrossando o coro para a cantora e os músicos que estavam ali para, em cerca de duas horas, interpretar 20 ou 30 de suas canções - uma fração de sua formidável obra.
Ponha formidável nisso, e talvez insuperável. Habituamo-nos de tal forma ao lado folclórico de Vinicius que, às vezes, esquecemos o que lhe centenas de melodias com suas letras. Quantas noites - em que ele poderia estar bebendo com os amigos, dedicando-se a uma conquista amorosa ou mesmo cantando sem compromisso, como sempre gostou de fazer - não foram perdidas, com ele torrando as pestanas em busca de uma ideia ou de uma rima para alguma letra? Mas o resultado é um acervo invejável: mais de 300 canções numa carreira que, como letrista, estendeu-se de por volta de 1953 (no começo, timidamente), até sua morte, 27 anos depois. O impressionante, no entanto, é a qualidade: até hoje, qual outro letrista da música popular pode se orgulhar de ter trabalhado com tantos contemporâneos ilustres?
Mais ou menos por ordem de entrada em cena, Vinicius foi parceiro de Paulo e Haroldo Tapajós, Antonio Maria, Adoniram Barbosa, Antonio Carlos Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Pixinguinha, Ary Barroso, Moacir Santos, Paulinho Nogueira, Francis Hime, Capiba, Edu Lobo, Edino Krieger, Cláudio Santoro, Paulo Soledade, Chico Buarque, Carlinhos Vergueiro, Toquinho e tantos outros. Sem falar nas parceiras "póstumas" (com os já mortos Ernesto Nazareth e Garoto), nas muitas com seus intérpretes e naquelas em que foi parceiro de si mesmo, criando as melodias para suas próprias letras - algumas delas, nada desprezíveis, como as de "Medo de Amar", "Pela Luz dos Olhos Teus", "Valsa de Eurídice", "Serenata do Adeus".
Nem tudo que Vinicius escreveu com seus parceiros emplacou, é claro. Muitas letras, mesmo contendo bons achados, se perderam na mesmice de melodias. E houve também casos em que ele, menos inspirado, contribuiu para apagar uma bela canção. Mas o saldo é esmagador a seu favor: Vinicius foi o co-autor de pelo menos 80 clássicos, entre sambas, valsas, modinhas, serestas, marchas-rancho, pontos de macumba e canções de difícil classificação rítmica, mas de explosivo impacto lírico, dramático ou humorístico - como definir, por exemplo, "A Tonga da Mironga do Kabuletê", dele com Toquinho?
Vinicius fez letras em francês, espanhol, italiano e nagô - embora a fluência, a malemolência e a picardia de suas palavras fossem de inspiração predominantemente carioca. Não era à toa que, segundo ele, "ser carioca era ter, como programa, não tê-lo". Vinicius não tinha um programa como letrista - acoplava-se ao compositor que o solicitava e se adaptava ao seu estilo: romântico, como Tom; crítico, como Carlinhos Lyra; vibrante, como Baden Powell; contagiante, como Toquinho. Mas o resultado era sempre, invariavelmente, Vinicius.
Aos que o criticaram por "trocar a poesia pela música popular", pode-se contrapor que, na verdade (e, até hoje, poucos sabem disto), pode ter sido o contrário: aos 18 anos, Vinicius teve sua primeira música lançada em disco um ano antes de ver seu primeiro poema sair em livro. Surpreso? Pois foi o que aconteceu. "Loura ou Morena", um simpático e inocente fox-trot de sua autoria, em parceria com os irmãos Tapajós ("Se por acaso o amor me agarrar/ Quero uma loura para namorar/ Corpo bem feito, magro e perfeito/ E o azul do céu no olhar..."), saiu num 78 rpm da Columbia em julho de 1932, interpretada por Paulo e Haroldo, tendo no lado B outra composição da trinca: o fox-blue "Doce Ilusão". E seu primeiro livro de poemas, O Caminho para a Distância, só sairia, publicado pela Schmidt, em 1933.
E, mesmo assim, com restrições. Ao mesmo tempo em que divagava e filosofava com uma plêiade de jovens intelectuais, de alto refino e sofisticação, comandada por Octavio de Faria, Vinicius pertencia a uma outra turma, esta da pesada, de rapazes do Catete, para quem a ideia de elevação espiritual consistia em jogar sinuca, meter-se em brigas ou, no Carnaval, bolinar as baianas e odaliscas nas ruas, cheirar lança-perfume no ombro uns dos outros e sair urrando pela cidade, de Botafogo à Gávea. Certa vez, um deles, chamado Paulão, cruzou com Vinicius no bonde e fulminou-o com a suspeita:
"É verdade que você está escrevendo... poesia?" (E, ao falar poesia, mal conseguia disfarçar o nojo.)
No fundo, queria saber se Vinicius tinha se convertido ao homossexualismo, para ele condição obrigatória de ser poeta. Vinicius fingiu espanto:
"Euuuuuuuuuuuu?".
O que Paulão não diria se soubesse que seu amigo de farras levava vida dupla e, na sua identidade secreta de jovem bardo, escrevia coisas como "Almas que povoai o caminho da luz/ Que, longas, passeais nas noites lindas/ Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz/ O que buscais, almas irmãs da minha?". (São versos do poema "Místico", de O Caminho para a Distância.)
Com ou sem Paulão, estava escrito que, numa primeira instância, a poesia venceria e abortaria no ovo a carreira musical de Vinicius - porque ele próprio, refletindo o espírito da época, também considerava "menor" a música popular. Daí que, pelos 20 anos seguintes, Vinicius dedicou-se à poesia - seus amigos passaram a ser Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Murilo Mendes e até o jovem João Cabral de Mello Neto - e estancou sua veia para a música. No entanto, nada o impedia de praticá-la como amador, pelo prazer de tocar violão (cujos rudimentos aprendeu) e cantar com os amigos. E foi assim que, sempre que o Itamaraty o estacionava no Rio, nos anos 40 e 50, Vinicius nunca deixou de cometer deliciosos duetos com Tonia Carrero ou Elsie Lessa, em saraus na casa de Anibal Machado ou de Carlos Leão. Outro amigo, o jornalista Lucio Rangel, era um ser eminentemente musical e, a seu lado, Vinicius convivia também com potências do samba, como Ismael Silva, Ciro Monteiro e Bororó, este o autor dos irresistíveis "Curare" e "Da Cor do Pecado".
Naturalmente, nada disso se compararia ao turbilhão musical em que sua vida se transformou quando ele e Tom Jobim se juntaram, em 1956, para compor as canções para sua peça Orfeu da Conceição e, poucos meses depois, o país inteiro parecia estar cantando "Se Todos Fossem Iguais a Você".


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