domingo, 4 de outubro de 2009

Vinicius de Moraes

Vinicius e Tom Jobim

PINTANDO OS CANECOS

Quando Vinicius morreu, em 1980, seu amigo Carlos Drummond disse que, entre os grandes poetas brasileiros, ele fora o único a "viver como poeta". Com isso, Drummond talvez quisesse dizer que o famoso consórcio com as musas - aquele a que os poetas sempre aspiram, mas a que a maioria só chega pela magia das imagens que eles mesmos criam - era o dia-a-dia de Vinicius. Na verdade, esse consórcio era seu feijão-com-arroz - Vinicius era não apenas íntimo das musas, como vivia com elas em estado quase marital. Em outras palavras: nas fantasias de Drummond, o peralta Vinicius era, entre eles, o único que se esbaldava na vida real, namorava quem quisesse e tinha acesso físico a mulheres com que os outros só podiam sonhar. Que se casava e descasava como quem trocava de gravata - peça, aliás, que ele já abolira de seu guarda-roupa havia séculos -, mandara (literalmente) a diplomacia para o espaço, bebia todas e mais algumas, e pintava os canecos em três ou quatro continentes. E ainda era tratado pelos grandes poetas internacionais - Pablo Neruda, Elizabeth Bishop, Gabriela Mistral, Giuseppe Ungaretti - como um dos seus.
Para Drummond, tantas peripécias deviam parecer ainda mais incríveis porque, durante anos, Vinicius fez tudo isto sem prejuízo de sua poesia. Ao contrário: quanto mais estróina se tornava, mais sua poesia melhorava. Quando mais jovem, nos anos 30, o católico Vinicius, atolado por inquietações místicas, produzira alguns dos poemas mais angustiados da língua; com versos longos "como um iole a oito", segundo outro amigo, Oswald de Andrade. Mas só depois de namorar muito, casar-se com a incomparável Tati (modelo de Monteiro Lobato para sua personagem Narizinho), entrar para o Itamaraty e fazer as primeiras besteiras é que sua poesia se abrira para o mundo - e foi aí, a partir da Segunda Guerra, que tivemos o Vinicius amoroso, o Vinicius do cotidiano, o Vinicius social, cada qual mais fascinante que o outro. Um Vinicius capaz de escrever, como no "Soneto da Separação": "De repente, do riso fez-se o pranto/ Silencioso e branco como a bruma/ E das bocas unidas fez-se a espuma/ E das mãos espalmadas fez-se o espanto". Ninguém ficava incólume a tais imagens, nem os críticos - as mulheres, muito menos.
Tudo que Vinicius escrevia parecia significante. Bastava-lhe destampar a caneta ou abrir a máquina de escrever para a poesia atirar-se ao seu colo - ele era o autor do "Dia da Criação", de "O Operário em Construção", do "Poema dos Olhos da Amada", da "Receita de Mulher" e de tantos outros poemas que as pessoas logo decoravam. Nenhum outro poeta brasileiro era tão querido pelas massas e admirado pelos eruditos. E todos seriam felizes para sempre se, em meados dos anos 50, ele não se tivesse passado para aquilo que, na época, muitos de seus colegas consideravam decididamente "menor": a música popular.
Bastou que, em 1958, Vinicius rimasse "peixinhos" com "beijinhos" - "Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Que os beijinhos que eu darei na sua boca" -, na letra de "Chega de Saudade" (uma de suas parcerias com Jobim), para que a primeira a estrilar - revoltada com a "pobreza" da rima - fosse sua então mulher, Lila Bôscoli. E olhe que a jovem e bela Lila, sobrinha-neta da maestrina Chiquinha Gonzaga e com vários primos no teatro, era uma mulher inteligente, moderna e aberta às novas ideias.
Pois, se Lila reagira assim, imagine o que não diriam os intelectuais de gabinete, para quem a poesia, mesmo a moderna, era algo místico, intangível, quase sagrado. O curioso é que, na intimidade, muitos desses intelectuais gostavam de sambas e choros, e eram admiradores de Pixinguinha, Noel Rosa, Ary Barroso, Orestes Barbosa, Lamartine Babo. Mas, para todos os efeitos, a Rádio Nacional era uma coisa, literatura, outra. Naqueles tempos, ousar atribuir qualidade "poética" a uma letra de samba ou de serenata era tão impensável quanto produzir um baile de Carnaval na Academia Brasileira de Letras.
Não importava que Vinicius continuasse a produzir versos de primeira linha, como "Tristeza não tem fim/ Felicidade sim" (de "A Felicidade") ou o quase hai-kai "Mulher Amada/ Destino meu/ É madrugada/ Sereno dos meus olhos já correu" (de "Lamento no Morro", ambos com Jobim). A diferença é que, agora, tais versos vinham embalados em melodias memoráveis, harmonias sofisticadas e um ritmo - um balanço, uma batida - a que era quase impossível ficar indiferente: uma variante do samba, chamada bossa nova. Talvez por isto, aqueles que censuravam Vinicius por optar pela música popular ("pelo samba", como ele dizia) acabariam tendo de render-se.

Fonte: Medeiros, José.
Oscar Niemeyer, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e sua mulher Lila Bôscoli nos bastidores da estréia de Orfeu da Conceição. Teatro Municipal na Cinelândia. Rio de Janeiro. RIO DE JANEIRO / Brasil. 1956.
A peça Orfeu da Conceição é um marco na dramaturgia brasileira. Escrita por Vinicius de Moraes e musicada por Tom Jobim, teve seu cenário produzido por Oscar Niemeyer. Estreou em 1956 e já em 1959 um diretor francês, Marcel Camus, filmou Orfeu Negro, baseado na peça do poetinha, ganhando o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro no Festival de Cannes do mesmo ano.

CULTURA/COMPORTAMENTO; SER HUMANO
Coleção 028 - JOSÉ MEDEIROS

Veja também:
O ANEL NA CAUDA