segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Vinicius de Moraes

Vinicius e Tom Jobim

RECEITA DE VINICIUS

A poesia é quase sempre um diálogo entre a solidão de quem escreve e a solidão de quem lê. Mas a música popular é gregária e coletiva por natureza: exige parceiros, acompanhantes, platéias. Além disso, toca no rádio, alimenta vitrolas, inspira beijos em festas e seu efeito é muito mais imediato e maciço. Em 1958, Vinicius, que nunca se filiara a um movimento poético, já estava de braço dado com seus novos parceiros - o violinista e cantor João Gilberto e o compositor, maestro e arranjador Tom Jobim -, numa aventura lírico-musical que parecia estar se transformando num movimento: a bossa nova.
A bossa nova vinha inaugurar um novo estilo de fazer música, de construir a letra, de tocar o violão, de cantar samba e até de ouvir. Como João Gilberto não era de falar falar muito (nem precisava) e Tom ainda não rompera com a timidez que o engolfava, só restava a Vinicius tornar-se o porta-voz ou ideólogo dessa nova linguagem, em artigos e entrevistas. O que parecia apenas natural: ele era o mais velho, o mais intelectualizado e, além disso, o único que podia ostentar um sólido currículo construído antes da bossa nova. Mas foi esta que, para o bem ou para o mal, tornou-se muito mais conhecido e o fez, da noite para o dia, um nome nacional.
Na esteira de Vinicius vieram milhares de jovens que, na impossibilidade de ser poetas ou letristas como ele, só podiam tentar imitar o seu estilo de vida. Mas não era fácil. Ser com o Vinicius significava exercer plenamente a independência, ser corajoso e ter medo, entrar e sair de paixões imortais, aventurar-se por todas as formas de criação, abraçar causas perdidas, preferir a alvorada ao crepúsculo, trabalhar muito e, se possível, vagabundear ainda mais. Nas horas vagas, era preciso sobreviver a um desastre de avião (como aconteceu a ele em 1945), sequestrar a namorada e fugir com ela para Paris (o que Vinicius fez com Nelita Abreu Rocha em 1963), beijar a mão de Greta Garbo, esnobar a casa de Goethe em Frankfurt e ser amigo de Jayme Ovalle, Carmen Miranda e Orson Welles. Tudo isso era ser Vinicius - quem se habilitava?
Na verdade, isso era ser apenas uma parte de Vinicius. O Vinicius completo era inimitável e irreproduzível. E sua saga, que ainda está para ser contada em peça, livro, disco, vídeo, painel, perfomance e megashow, não caberia nem num baile das sete artes.


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