terça-feira, 1 de setembro de 2009

COLEÇÃO FOLHA
GRANDES ESCRITORES BRASILEIROS

14

NELSON RODRIGUES

Vestido
de Noiva

(1943)

2008

Titular dos direitos de edição: NOVA FRONTEIRA S.A.

Converteu-se em clichê afirmar que Nelson Rodrigues é o Shakespeare brasileiro. A frase tem um sentido óbvio: Nelson Rodrigues ocupa no teatro brasileiro a centralidade do bardo no teatro inglês.
Mas existe um sentido menos óbvio: tal como Shakespeare, o teatro de Nelson Rodrigues procura expressar a complexidade e as contradições da natureza humana. Nunca somos o que julgamos ser. Nunca somos o que os outros acreditam que somos.
Vestido de Noiva (1943), escrito por um dramaturgo qualquer, seria fácil de resumir: Alaíde, caprichosa e leviana, rouba o namorado de sua irmã; casa com ele; mas, certo dia, é atropelada e morre. Desce o pano sobre este folhetim moralista?
Para um dramaturgo qualquer, sem dúvida. Mas Nelson Rodrigues não é um dramaturgo qualquer. O atropelamento de Alaíde é o princípio do fim do princípio -e, no momento em que os médicos a procuram salvar no hospital e a cidade noticia a gravidade do seu caso, abrem-se na mente de Alaíde dois planos. Um plano de alucinação e um plano de memória que nos apresentam Alaíde como ela realmente é: os seus desejos mais reprimidos, desdobrados no fascínio por Clessi (uma prostituta) e na vontade subterrânea de matar Pedro (o marido); a forma velhaca como atraiçoou sua irmã Lucia; e a projeção futura de que Pedro e Lúcia acabarão juntos em matrimônio sepulcral.
Nelson Rodrigues definia-se como um anjo pornográfico que espreita pelo buraco da fechadura. Vestido de Noiva, título irônico ao evocar uma pureza interdita, é a visão através da fechadura: um mundo sem salvação onde aquilo que escondemos é mais real do que a própria realidade.


JOÃO PEREIRA COUTINHO
Colunista da Folha
(85 págs.)