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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

DISCOGRAFIA (SELECIONADA)

Vinicius & Odette [Participação de Odette Lara]. Elenco, 1963.

Vinicius & Caymmi no Zum-Zum (com o Quarteto em Cy). [Participação de Dorival Caymmi]. Elenco, 1965.

Os Afro-Sambas. [participação de Baden Powell]. Elenco, 1966.

Vinicius: Poesia e Canção (ao vivo). Forma, 1966.

Vinicius. Elenco, 1966.

Vinicius em Portugal. Festa, 1970.

La Vita, Amico, è I'Arte dell'Encontro [participação de Toquinho, Sergio Endrigo e Giuseppe Ungaretti]. Fonit-Cetra, Itália, 1970.

Vinicius de Moraes em La Fusa [participação de Toquinho e Maria Creuza]. Odeon, 1970.

Como dizia o poeta... [participação de Marilia Medalha e Toquinho]. RGE, 1971.

Toquinho e Vinicius (grabado en Buenos Aires). RGE, 1971.

Vinicius, Bethânia e Toquinho (grabado en Buenos Aires). InterRecords, 1971.

Marilia/Vinicius - Encontro e Desencontro. RGE, 1972.

São Demais os Perigos Desta Vida. RGE, 1972.

Toquinho & Vinicius. Philips, 1974.

Vinicius / Toquinho. Philips, 1975.

O poeta e o violão [participação de Toquinho]. RGE, 1975.

Tom, Vinicius, Toquinho e Miúcha - Ao vivo no Canecão [participação de Tom Jobim, Toquinho e Miúcha]. Som Livre, 1977.

10 Anos de Toquinho e Vinicius. Philips, 1979.

Um Pouco de Ilusão [participação de Toquinho]. Ariola, 1980.

fonte: Coleção Folha 50 Anos de Bossa Nova 3 - Vinicius de Moraes

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Vinicius de Moraes

FRASES

"Detesto tudo que oprime o homem, inclusive a gravata".

"O uísque é o melhor amigo do homem. O uísque é o cachorro engarrafado".

"Dentre os instrumentos criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua".

"Nada mais lindo do que as feiurinhas da mulher amada".

"Uma axila sem cheiro pode levar o homem ao desespero".

"Quem nunca teve um pai que ronca não sabe o que é ter pai".

"A maior solidão é a do ser que não ama".

"A fé desentope as artérias. A descrença é que dá câncer".

"Nada melhor para a saúde do que um amor correspondido".

"Nunca vi uma boa amizade nascer numa leiteria".

"Oh, quem me dera não sonhar mais nunca/ Nada ter de tristezas nem saudades/ Ser apenas Moraes, sem ser Vinicius".

Copacabana

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FORA DA LEI

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vinicius de Moraes




FORA DA LEI

Uma série de fatores - políticos, de mercado e até mesmo estéticos - interrompeu o processo criativo da bossa nova por volta de 1965 e congelou-a naquele formato com que até hoje as pessoas a identificam: a música leve, sincopada, com a temática de praia/verão/garota, típica de seus primeiros tempos. Mas as pessoas se esquecem de que, pouco antes, a partir de 1963, havia um novo formato em ebulição, na esteira da parceria de Vinicius com Baden Powell, que já produzira peças fundamentais como "Berimbau", "Consolação", "Labareda" e "Canto de Ossanha", com seus acentos afro-baianos, mil possibilidades harmônicas e a promessa de uma revolucionária abertura rítmica.
Uma nova bossa nova começava a sair dali, e tinha até uma vertente instrumental, máscula e muscular, exercida nas minúsculas boates do Beco das Garrafas, em Copacabana, por músicos como os saxofonistas J. T. Meirelles, Aurino Ferreira e Paulo Moura, os trombonistas Raul de Souza e Ed Maciel, os pianistas Sergio Mendes e Tenório Jr., o próprio Baden e muitos outros. Era uma espécie de jazz de gafieira, inspirado na criatividade de um gênio do violão e na erudição de um poeta empolgado com a descoberta de novos universos. Mas essa vertente também foi sufocada, junto com o pato, o barquinho e o lobo bobo, todos subitamente postos fora da lei pelo mercado.
Uma parte dessa produção está no CD que acompanha este livreto: 12 de suas 13 faixas mostram a parceria de Vinicius com Baden, na voz de Odette Lara e do próprio Vinicius. (Nada mais justo, já que sua obra com os outros compositores está presente em quase todos os discos desta coleção.) Vinicius é aquilo que os franceses chamam de "incontornável" - quando se trata de bossa nova, impossível fugir dele.
Odette Lara, com 33 anos na gravação do disco Vinicius & Odette, era um dos milagres daquele tempo: uma das grandes belezas nacionais, excepcional atriz (acabara de brilhar em Boca de Ouro, de Nelson Pereira dos Santos) e íntima das palavras - fizera reportagens para Última Hora e seria, anos depois, colaboradora do Pasquim e autora de comoventes livros de memórias. Talvez fosse uma cantora apenas funcional, mas, fazendo par com Vinicius que inaugurava a linhagem dos compositores-cantores, ele sabia dar o recado. Neste, que foi o disco inaugural da gravadora Elenco, fundada por Aloysio de Oliveira, seu fio de voz parece às vezes vir do fundo do mar - ou do coração, como ficava melhor quando se tratava de Vinicius.

Copacabana

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Vinicius de Moraes

Vinicius e Tom

SAI A VAMP, ENTRA A GAROTA

O sucesso, de estima e de público, veio rapidamente para a dupla Tom e Vinicius. Quando João Gilberto gravou o single de "Chega de Saudade", a 10 de julho de 1958, no estúdio da Odeon na Cinelândia, estava escrito que, cedo ou tarde, alguma coisa aconteceria a partir dali. Como eles não demorariam a descobrir, havia uma geração inteira esperando por aquilo que, rapidamente, passou a chamar de "bossa nova". Turmas de rapazes e moças nos mais diversos pontos do Rio - Copacabana, Ipanema, Gávea, Tijuca, Vila Isabel - e em outras cidades começaram a se organizar em torno daquele estilo musical. Os shows nas universidades cariocas revelaram novos talentos, alguns dos quais, no show anterior, ainda estavam na platéia, batendo palmas.
A bossa nova era inspiradora em termos poéticos, literários, pictóricos, dramatúrgicos, comportamentais e, lógico. musicais. Por sua causa, as mais improváveis vocações - no Rio, em São Paulo, Salvador, Belo Horizonte - sentiram que podiam se realziar. Muito disso se deveu à presença daquele homem mais velho, quase grisalho, quase calvo, com uma incipiente barriguinha, que parecia mais moderno do que todo mundo e dava o aval à fantasia dos mais jovens. Vinicius provava também que era possível ser "multimídia", numa época em que ninguém sonhava com esta palavra - ele fazia poesia, letra de música, teatro, cinema, crônica de jornal, lutava pelo tombamento de Ouro Preto e, em pouco tempo, se assumiria também como cantor e showman. Com Tom e João Gilberto, eles formaram a Santíssima Trindade - o clichê fora logo inventado e se espalhara - da bossa nova.
O único problema em chamar João Gilberto, Tom e Vinicius de o Pai, o Filho e o Espírito Santo do movimento era definir quem era quem na famosa tríade. Mas, fosse qual fosse, até hoje as mulheres deveriam acender velas diariamente a Vinicius. Foi ele quem as libertou do papel de vamps, vilãs e traidoras da música popular brasileira - que os letristas do passado, mesmo os maiores, se esmeravam em atribuir-lhes. Nas suas letras, elas perderam o ar de mulher fatal, com o batom borrado e as olheiras de rolha queimada, típicas das antigas noites de Copacabana, e rejuvenesceram lindamente: tornaram-se a garota de Ipanema, a menina que vem e que passa, a namorada, a estrela derradeira das manhãs do Arpoador. E foi Vinicius também que deu um novo caráter afirmativo aos sentimentos cantados nas músicas. Até então, o amor parecia impossível: "Ninguém me ama, ninguém me quer", dizia seu amigo Antonio Maria, ou "Não, eu não posso lembrar que te amei", queixava-se o grande Herivelto Martins. Vinicius mudou isso para "Eu sei que vou te amar", "Bom mesmo é amar em paz/ Brigas nunca mais", "É melhor ser alegre que ser triste/ A alegria é a melhor coisa que existe" e inúmeras mais.
Sua importância para o reconhecimento da obra de Tom, Carlos Lyra, Baden Powell e Edu Lobo, para nos limitarmos à sua primeira fase, ainda não foi estabelecida como merece. Mas é de tal ordem que, quando suas primeiras parcerias com Tom começaram a ser exportadas para os Estados Unidos, o grande problema era encontrar letristas americanos que produzissem versões à altura das letras originais - e eles não existiam. Os melhores letristas da época, como Johnny Mercer, Dorothy Fields, Sammy Cahn e a dupla Alan & Marilyn Bergman não podiam fazer o trabalho, por pertencerem a sociedades diferentes. Foi preciso contentar-se com os disponíveis, dos quais o melhor era Gene Lees. Nenhum dos outros - Norman Gimbel, o lamentável Ray Gilbert e o pior de todos (como letrista), Jon Hendricks - podia sequer escovar os sapatos de Vinicius.
A bossa nova foi ainda fundamental para outra importante mudança de pele que Vinicius iria protagonizar nos anos seguintes. Em 1962, ao estrelar com Tom, João Gilberto e Os Cariocas e o célebre show O Encontro, na boate Bon Gourmet, em Copacabana, teve de enfrentar a oposição do Itamaraty, que não gostava da ideia de ver alguém dos seus quadros - afinal, Vinicius era da carrière - sentado sobre um praticável, cantando sambas e bebendo, mesmo que uísque, e dizendo gracinhas ao microfone. Vinicius só foi liberado para fazer o show se se apresentasse de terno e gravata, não bebesse em cena e não fizesse comentários que "deslustrassem a instituição". Aceitou - mas, num show seguinte, com Dorival Caymmi e o Quarteto em Cy na boate Zum-Zum, o terno já deu lugar à camisa preta, de malha, existencialista, com mangas arregaçadas, e ao copo na mão. O Itamaraty estremeceu.
Este era apenas um dos impasses entre Vinicius e o emprego no qual, pelos 20 anos anteriores, ele se esforçara para não ser promovido - para não chamar muita atenção sobre si mesmo -, o que conseguira com garbo e brilho. Não esquecer também que, com o país sob um regime de exceção desde 1964, um homem como Vinicius, com trânsito em todas as esquerdas, era uma excrescência no corpo diplomático. Bastaria um arrocho do regime para que ele fosse expelido, o que aconteceu em fins de 1968, na sequência do Ato Institucional nr. 5.
Era apenas mais um casamento de que Vinicius saía, assim como saíra de outros, mais prazerosos, com Lucinha Proença (segundo todos, sua maior paixão) e Nelita Abreu Rocha, e ainda sairia de outros três até o fim da vida, ou como trocaria de parceiros sem nunca se afastar deles.

Lucinha Proença e Vinicius

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VINICIUS DIVIDIDO

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Vinicius de Moraes

Joyce

VINICIUS DIVIDIDO

Bem provavelmente, os que ainda se lembram de ter visto Vinicius num palco, nos anos 60 ou 70, acompanhado por Toquinho ao violão e por alguma das cantoras com quem ele trabalhou por mais tempo - Marilia Medalha, Maria Bethânia, Maria Creuza, Joyce -, dirão que seu instrumento em cena era o uísque. Porque era assim que Vinicius aparecia para as platéias: sentado a uma mesa, a bordo de um copo e um microfone, contando histórias e dando o mote ou engrossando o coro para a cantora e os músicos que estavam ali para, em cerca de duas horas, interpretar 20 ou 30 de suas canções - uma fração de sua formidável obra.
Ponha formidável nisso, e talvez insuperável. Habituamo-nos de tal forma ao lado folclórico de Vinicius que, às vezes, esquecemos o que lhe centenas de melodias com suas letras. Quantas noites - em que ele poderia estar bebendo com os amigos, dedicando-se a uma conquista amorosa ou mesmo cantando sem compromisso, como sempre gostou de fazer - não foram perdidas, com ele torrando as pestanas em busca de uma ideia ou de uma rima para alguma letra? Mas o resultado é um acervo invejável: mais de 300 canções numa carreira que, como letrista, estendeu-se de por volta de 1953 (no começo, timidamente), até sua morte, 27 anos depois. O impressionante, no entanto, é a qualidade: até hoje, qual outro letrista da música popular pode se orgulhar de ter trabalhado com tantos contemporâneos ilustres?
Mais ou menos por ordem de entrada em cena, Vinicius foi parceiro de Paulo e Haroldo Tapajós, Antonio Maria, Adoniram Barbosa, Antonio Carlos Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Pixinguinha, Ary Barroso, Moacir Santos, Paulinho Nogueira, Francis Hime, Capiba, Edu Lobo, Edino Krieger, Cláudio Santoro, Paulo Soledade, Chico Buarque, Carlinhos Vergueiro, Toquinho e tantos outros. Sem falar nas parceiras "póstumas" (com os já mortos Ernesto Nazareth e Garoto), nas muitas com seus intérpretes e naquelas em que foi parceiro de si mesmo, criando as melodias para suas próprias letras - algumas delas, nada desprezíveis, como as de "Medo de Amar", "Pela Luz dos Olhos Teus", "Valsa de Eurídice", "Serenata do Adeus".
Nem tudo que Vinicius escreveu com seus parceiros emplacou, é claro. Muitas letras, mesmo contendo bons achados, se perderam na mesmice de melodias. E houve também casos em que ele, menos inspirado, contribuiu para apagar uma bela canção. Mas o saldo é esmagador a seu favor: Vinicius foi o co-autor de pelo menos 80 clássicos, entre sambas, valsas, modinhas, serestas, marchas-rancho, pontos de macumba e canções de difícil classificação rítmica, mas de explosivo impacto lírico, dramático ou humorístico - como definir, por exemplo, "A Tonga da Mironga do Kabuletê", dele com Toquinho?
Vinicius fez letras em francês, espanhol, italiano e nagô - embora a fluência, a malemolência e a picardia de suas palavras fossem de inspiração predominantemente carioca. Não era à toa que, segundo ele, "ser carioca era ter, como programa, não tê-lo". Vinicius não tinha um programa como letrista - acoplava-se ao compositor que o solicitava e se adaptava ao seu estilo: romântico, como Tom; crítico, como Carlinhos Lyra; vibrante, como Baden Powell; contagiante, como Toquinho. Mas o resultado era sempre, invariavelmente, Vinicius.
Aos que o criticaram por "trocar a poesia pela música popular", pode-se contrapor que, na verdade (e, até hoje, poucos sabem disto), pode ter sido o contrário: aos 18 anos, Vinicius teve sua primeira música lançada em disco um ano antes de ver seu primeiro poema sair em livro. Surpreso? Pois foi o que aconteceu. "Loura ou Morena", um simpático e inocente fox-trot de sua autoria, em parceria com os irmãos Tapajós ("Se por acaso o amor me agarrar/ Quero uma loura para namorar/ Corpo bem feito, magro e perfeito/ E o azul do céu no olhar..."), saiu num 78 rpm da Columbia em julho de 1932, interpretada por Paulo e Haroldo, tendo no lado B outra composição da trinca: o fox-blue "Doce Ilusão". E seu primeiro livro de poemas, O Caminho para a Distância, só sairia, publicado pela Schmidt, em 1933.
E, mesmo assim, com restrições. Ao mesmo tempo em que divagava e filosofava com uma plêiade de jovens intelectuais, de alto refino e sofisticação, comandada por Octavio de Faria, Vinicius pertencia a uma outra turma, esta da pesada, de rapazes do Catete, para quem a ideia de elevação espiritual consistia em jogar sinuca, meter-se em brigas ou, no Carnaval, bolinar as baianas e odaliscas nas ruas, cheirar lança-perfume no ombro uns dos outros e sair urrando pela cidade, de Botafogo à Gávea. Certa vez, um deles, chamado Paulão, cruzou com Vinicius no bonde e fulminou-o com a suspeita:
"É verdade que você está escrevendo... poesia?" (E, ao falar poesia, mal conseguia disfarçar o nojo.)
No fundo, queria saber se Vinicius tinha se convertido ao homossexualismo, para ele condição obrigatória de ser poeta. Vinicius fingiu espanto:
"Euuuuuuuuuuuu?".
O que Paulão não diria se soubesse que seu amigo de farras levava vida dupla e, na sua identidade secreta de jovem bardo, escrevia coisas como "Almas que povoai o caminho da luz/ Que, longas, passeais nas noites lindas/ Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz/ O que buscais, almas irmãs da minha?". (São versos do poema "Místico", de O Caminho para a Distância.)
Com ou sem Paulão, estava escrito que, numa primeira instância, a poesia venceria e abortaria no ovo a carreira musical de Vinicius - porque ele próprio, refletindo o espírito da época, também considerava "menor" a música popular. Daí que, pelos 20 anos seguintes, Vinicius dedicou-se à poesia - seus amigos passaram a ser Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Murilo Mendes e até o jovem João Cabral de Mello Neto - e estancou sua veia para a música. No entanto, nada o impedia de praticá-la como amador, pelo prazer de tocar violão (cujos rudimentos aprendeu) e cantar com os amigos. E foi assim que, sempre que o Itamaraty o estacionava no Rio, nos anos 40 e 50, Vinicius nunca deixou de cometer deliciosos duetos com Tonia Carrero ou Elsie Lessa, em saraus na casa de Anibal Machado ou de Carlos Leão. Outro amigo, o jornalista Lucio Rangel, era um ser eminentemente musical e, a seu lado, Vinicius convivia também com potências do samba, como Ismael Silva, Ciro Monteiro e Bororó, este o autor dos irresistíveis "Curare" e "Da Cor do Pecado".
Naturalmente, nada disso se compararia ao turbilhão musical em que sua vida se transformou quando ele e Tom Jobim se juntaram, em 1956, para compor as canções para sua peça Orfeu da Conceição e, poucos meses depois, o país inteiro parecia estar cantando "Se Todos Fossem Iguais a Você".


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RECEITA DE VINICIUS

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Vinicius de Moraes

Vinicius e Tom Jobim

RECEITA DE VINICIUS

A poesia é quase sempre um diálogo entre a solidão de quem escreve e a solidão de quem lê. Mas a música popular é gregária e coletiva por natureza: exige parceiros, acompanhantes, platéias. Além disso, toca no rádio, alimenta vitrolas, inspira beijos em festas e seu efeito é muito mais imediato e maciço. Em 1958, Vinicius, que nunca se filiara a um movimento poético, já estava de braço dado com seus novos parceiros - o violinista e cantor João Gilberto e o compositor, maestro e arranjador Tom Jobim -, numa aventura lírico-musical que parecia estar se transformando num movimento: a bossa nova.
A bossa nova vinha inaugurar um novo estilo de fazer música, de construir a letra, de tocar o violão, de cantar samba e até de ouvir. Como João Gilberto não era de falar falar muito (nem precisava) e Tom ainda não rompera com a timidez que o engolfava, só restava a Vinicius tornar-se o porta-voz ou ideólogo dessa nova linguagem, em artigos e entrevistas. O que parecia apenas natural: ele era o mais velho, o mais intelectualizado e, além disso, o único que podia ostentar um sólido currículo construído antes da bossa nova. Mas foi esta que, para o bem ou para o mal, tornou-se muito mais conhecido e o fez, da noite para o dia, um nome nacional.
Na esteira de Vinicius vieram milhares de jovens que, na impossibilidade de ser poetas ou letristas como ele, só podiam tentar imitar o seu estilo de vida. Mas não era fácil. Ser com o Vinicius significava exercer plenamente a independência, ser corajoso e ter medo, entrar e sair de paixões imortais, aventurar-se por todas as formas de criação, abraçar causas perdidas, preferir a alvorada ao crepúsculo, trabalhar muito e, se possível, vagabundear ainda mais. Nas horas vagas, era preciso sobreviver a um desastre de avião (como aconteceu a ele em 1945), sequestrar a namorada e fugir com ela para Paris (o que Vinicius fez com Nelita Abreu Rocha em 1963), beijar a mão de Greta Garbo, esnobar a casa de Goethe em Frankfurt e ser amigo de Jayme Ovalle, Carmen Miranda e Orson Welles. Tudo isso era ser Vinicius - quem se habilitava?
Na verdade, isso era ser apenas uma parte de Vinicius. O Vinicius completo era inimitável e irreproduzível. E sua saga, que ainda está para ser contada em peça, livro, disco, vídeo, painel, perfomance e megashow, não caberia nem num baile das sete artes.


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PINTANDO OS CANECOS

domingo, 4 de outubro de 2009

Vinicius de Moraes

Vinicius e Tom Jobim

PINTANDO OS CANECOS

Quando Vinicius morreu, em 1980, seu amigo Carlos Drummond disse que, entre os grandes poetas brasileiros, ele fora o único a "viver como poeta". Com isso, Drummond talvez quisesse dizer que o famoso consórcio com as musas - aquele a que os poetas sempre aspiram, mas a que a maioria só chega pela magia das imagens que eles mesmos criam - era o dia-a-dia de Vinicius. Na verdade, esse consórcio era seu feijão-com-arroz - Vinicius era não apenas íntimo das musas, como vivia com elas em estado quase marital. Em outras palavras: nas fantasias de Drummond, o peralta Vinicius era, entre eles, o único que se esbaldava na vida real, namorava quem quisesse e tinha acesso físico a mulheres com que os outros só podiam sonhar. Que se casava e descasava como quem trocava de gravata - peça, aliás, que ele já abolira de seu guarda-roupa havia séculos -, mandara (literalmente) a diplomacia para o espaço, bebia todas e mais algumas, e pintava os canecos em três ou quatro continentes. E ainda era tratado pelos grandes poetas internacionais - Pablo Neruda, Elizabeth Bishop, Gabriela Mistral, Giuseppe Ungaretti - como um dos seus.
Para Drummond, tantas peripécias deviam parecer ainda mais incríveis porque, durante anos, Vinicius fez tudo isto sem prejuízo de sua poesia. Ao contrário: quanto mais estróina se tornava, mais sua poesia melhorava. Quando mais jovem, nos anos 30, o católico Vinicius, atolado por inquietações místicas, produzira alguns dos poemas mais angustiados da língua; com versos longos "como um iole a oito", segundo outro amigo, Oswald de Andrade. Mas só depois de namorar muito, casar-se com a incomparável Tati (modelo de Monteiro Lobato para sua personagem Narizinho), entrar para o Itamaraty e fazer as primeiras besteiras é que sua poesia se abrira para o mundo - e foi aí, a partir da Segunda Guerra, que tivemos o Vinicius amoroso, o Vinicius do cotidiano, o Vinicius social, cada qual mais fascinante que o outro. Um Vinicius capaz de escrever, como no "Soneto da Separação": "De repente, do riso fez-se o pranto/ Silencioso e branco como a bruma/ E das bocas unidas fez-se a espuma/ E das mãos espalmadas fez-se o espanto". Ninguém ficava incólume a tais imagens, nem os críticos - as mulheres, muito menos.
Tudo que Vinicius escrevia parecia significante. Bastava-lhe destampar a caneta ou abrir a máquina de escrever para a poesia atirar-se ao seu colo - ele era o autor do "Dia da Criação", de "O Operário em Construção", do "Poema dos Olhos da Amada", da "Receita de Mulher" e de tantos outros poemas que as pessoas logo decoravam. Nenhum outro poeta brasileiro era tão querido pelas massas e admirado pelos eruditos. E todos seriam felizes para sempre se, em meados dos anos 50, ele não se tivesse passado para aquilo que, na época, muitos de seus colegas consideravam decididamente "menor": a música popular.
Bastou que, em 1958, Vinicius rimasse "peixinhos" com "beijinhos" - "Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Que os beijinhos que eu darei na sua boca" -, na letra de "Chega de Saudade" (uma de suas parcerias com Jobim), para que a primeira a estrilar - revoltada com a "pobreza" da rima - fosse sua então mulher, Lila Bôscoli. E olhe que a jovem e bela Lila, sobrinha-neta da maestrina Chiquinha Gonzaga e com vários primos no teatro, era uma mulher inteligente, moderna e aberta às novas ideias.
Pois, se Lila reagira assim, imagine o que não diriam os intelectuais de gabinete, para quem a poesia, mesmo a moderna, era algo místico, intangível, quase sagrado. O curioso é que, na intimidade, muitos desses intelectuais gostavam de sambas e choros, e eram admiradores de Pixinguinha, Noel Rosa, Ary Barroso, Orestes Barbosa, Lamartine Babo. Mas, para todos os efeitos, a Rádio Nacional era uma coisa, literatura, outra. Naqueles tempos, ousar atribuir qualidade "poética" a uma letra de samba ou de serenata era tão impensável quanto produzir um baile de Carnaval na Academia Brasileira de Letras.
Não importava que Vinicius continuasse a produzir versos de primeira linha, como "Tristeza não tem fim/ Felicidade sim" (de "A Felicidade") ou o quase hai-kai "Mulher Amada/ Destino meu/ É madrugada/ Sereno dos meus olhos já correu" (de "Lamento no Morro", ambos com Jobim). A diferença é que, agora, tais versos vinham embalados em melodias memoráveis, harmonias sofisticadas e um ritmo - um balanço, uma batida - a que era quase impossível ficar indiferente: uma variante do samba, chamada bossa nova. Talvez por isto, aqueles que censuravam Vinicius por optar pela música popular ("pelo samba", como ele dizia) acabariam tendo de render-se.

Fonte: Medeiros, José.
Oscar Niemeyer, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e sua mulher Lila Bôscoli nos bastidores da estréia de Orfeu da Conceição. Teatro Municipal na Cinelândia. Rio de Janeiro. RIO DE JANEIRO / Brasil. 1956.
A peça Orfeu da Conceição é um marco na dramaturgia brasileira. Escrita por Vinicius de Moraes e musicada por Tom Jobim, teve seu cenário produzido por Oscar Niemeyer. Estreou em 1956 e já em 1959 um diretor francês, Marcel Camus, filmou Orfeu Negro, baseado na peça do poetinha, ganhando o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro no Festival de Cannes do mesmo ano.

CULTURA/COMPORTAMENTO; SER HUMANO
Coleção 028 - JOSÉ MEDEIROS

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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Vinicius de Moraes


Nome:
Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes

Nascimento: Rio de Janeiro (RJ), 19 de outubro de 1913

Morte: Rio de Janeiro (RJ), 9 de julho de 1980

Instrumentos: voz, poesia e uísque

Epíteto: Poetinha

O ANEL NA CAUDA

Muito antes de ficar famoso como o letrista de "Garota de Ipanema" (com Tom Jobim), "Minha Namorada" (com Carlos Lyra), "Berimbau" (com Baden Powell), "Arrastão" (com Edu Lobo) ou "Tarde em Itapoã" (com Toquinho), o nome de Vinicius de Moraes já dizia alguma coisa a milhares de brasileiros. Em meados dos anos 50, ele era associado a uma improvável combinação de poesia, uísque e mulher. Ou seja, sabia-se que Vinicius era um poeta e, no caso, ironicamente romântico - não fora ele que escrevera, a respeito do amor, "Não seja imortal, posto que é chama/ Mas que infinito enquanto dure"?
Não se comentava sobre se era casado ou solteiro. Mas, numa época em que a imprensa não se atrevia a expor a vida pessoal de ninguém e chamava todo mundo de Sr., as fotos nas revistas às vezes o mostravam numa boate, vestido a rigor, cercado de garrafas (mesmo que de água mineral) e ao lado de uma mulher bonita. Havia ao seu redor um halo de boemia e prazer que não se via em torno de, por exemplo, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, os dois grandes poetas "modernos" brasileiros, que só apareciam em fotos nos suplementos literários e, mesmo assim, de cara amarrada. Mas podia ser também porque, como diplomata (os mais informados sabiam que Vinicius era do Itamaraty e tinha sido cônsul em Los Angeles), ele fosse obrigado a levar uma vida mundana que, no fundo, talvez desprezasse.
Mal desconfiavam esses admiradores que o poeta estava apenas começando a perder a pele - e que o anel na cauda, que já se adivinhava, seria apenas o primeiro. Da bossa nova em diante, a partir de 1958, o Vinicius que surgiria de seus primeiros sucessos com Antonio Carlos Jobim - "Se Todos Fossem Iguais a Você", "Chega de Saudade", "A Felicidade", "Brigas Nunca Mais", "Eu Sei Que Vou Te Amar" - faria mais do que popularizá-lo entre as grandes massas. Iria torná-lo também um modelo para toda uma legião de rapazes e moças com aspirações artísticas.
Vinicius era um carioca de 1913. Em 1958, portanto, estava com 45 anos, idade em que seus companheiros de geração já estavam se convertendo ao pijama, ao reumatismo e à aposentadoria. Ele, não. Na crista de uma música também nova, nascia um novo Vinicius, para mostrar que a alternativa à criação não era a morte - mas a própria vida.
E que os anéis na cauda seriam muitos, cada qual simbolizando uma pele que ele iria deixar para trás.