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quinta-feira, 15 de março de 2012

C


NO MEIO da terra afastarei
as esmeraldas para divisar-te
e tu estarás copiando as espigas
com tua pluma de água mensageira.

Que mundo! Que profundo perrexil!
Que nave navegando na doçura!
E tu talvez e eu talvez topázio!
Já divisão não haverá nos sinos.

Já não haverá senão todo o ar liberto,
as maçãs transportadas pelo vento,
o suculento livro na ramagem,

e ali onde respiram os cravos
fundaremos um traje que resista
de um beijo vitorioso a eternidade.
ƸӜƷ


Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

imagem: True Art Gallery
Artist: Karol Bak

quarta-feira, 14 de março de 2012

XCIX


OUTROS DIAS VIRÃO, será entendido
o silêncio de plantas e planetas
e quantas coisas puras passarão!
Terão cheiro de lua os violinos!

O pão será talvez como tu és:
terá tua voz, tua condição de trigo,
e falarão outras coisas com tua voz:
os cavalos perdidos do outono.

Ainda que não seja como está disposto
o amor encherá grandes barricas
como o antigo mel dos pastores,

e tu no pó de meu coração
(onde haverá imensos armazéns)
irás e voltarás entre melancias.


Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

imagem: True Art Gallery
Artist: Roberto Proietti

terça-feira, 13 de março de 2012

XCVIII


E ESTA PALAVRA, este papel escrito
pelas mil mãos de uma só mão,
não fica em ti, não serve para sonhos,
cai à terra: ali permanece.

Não importa que a luz ou a louvação
se derramem e saim da taça
se foram um tenaz tremor do vinho
se tingiu tua boca de amaranto.

Não quer mais a sílaba tardia,
o que traz e retraz o arrecife
de minhas lembranças, a irritada espuma,

não quer mais senão escrever teu nome.
E ainda que o cale meu sombrio amor
mais tarde o dirá a primavera.


Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

imagem: True Art Gallery
Artist: Karol Bak

segunda-feira, 12 de março de 2012

XCVII


HÁ que voar neste tempo, aonde?
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não alçaram os pés do passageiro.

Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.

Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não servem a terra aos errantes,
já cruzaram a noite as raízes,

e tu aparecerás em outra estrela
determinadamente transitória
por fim em papoula convertida.


Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

imagem: True Art Gallery
Artist: Tina Spratt

domingo, 11 de março de 2012

XCVI


PENSO, esta época em que tu me amaste
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.

Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.

Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros*.

E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.


Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

imagem: True Art Gallery
Artist: Duffy Sheridan

sábado, 10 de março de 2012

XCV


OS QUE se amaram como nós? Busquemos
as antigas cinzas do coração queimado
e ali que tombem um por um nossos beijos
até que ressuscite a flor desabitada.

Amemos o amor que consumiu seu fruto
e desceu à terra com rosto e poderio:
tu e eu somos a luz que continua,
sua inquebrantável espiga delicada.

Ao amor sepultado por tanto tempo frio,
por neve e primavera, por esqucimento e outono,
acerquemos a luz de uma nova maçã.

do frescor aberto por uma nova ferida,
como o amor antigo que caminha em silêncio
por uma eternidade de bocas enterradas.


Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

imagem: True Art Gallery
Artist: Gianni Bellini

sexta-feira, 9 de março de 2012

XCIV


SE MORRO sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.

Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.

É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.

É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.


Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

quinta-feira, 8 de março de 2012

XCIII


SE ALGUMA VEZ teu peito se detém,
se algo deixa de andar ardendo por tuas veias,
se tua voz em tua boca se vai sem ser palavra,
se tuas mãos se esquecem de voar e dormem,

Matilde, amor, deixa teus lábios entreabertos
porque esse último beijo deve durar comigo,
deve ficar imóvel para sempre em tua boca
para que assim também me acompanhe em minha morte.

Morrerei beijando tua boca fria,
abraçando o cacho perdido de teu corpo,
e buscando a luz de teus olhos fechados.

E assim quando a terra receber nosso abraço
iremos confundidos numa única morte
a viver para sempre de um beijo a eternidade.


Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

08 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Mulheres

Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversário ou um novo casamento.

Pablo Neruda

quarta-feira, 7 de março de 2012

XCII


AMOR MEU, se morro e tu não morres,
amor meu, se morres e não morro,
não demos à dor mais território:
não há extensão como a que vivemos.

Pó no trigo, areia nas areias,
o tempo, a água errante, o vento vago
nos transportou como grão navegante.
Podemos não nos encontrar no tempo.

Esta campina em que nos achamos,
oh pequeno infinito! devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,

e assim como não teve nascimento
morte não tem, é como um longo rio,
só muda de terras e de lábios.



Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011


dois meses...

terça-feira, 6 de março de 2012

XCI


A IDADE nos cobre como a garoa,
interminável e árido é o tempo,
uma pluma de sal toca teu rosto,
uma goteira corroeu minha roupa:

o tempo não distingue entre minhas mãos
ou um vôo de laranjas nas tuas:
fere com neve ou enxadão a vida:
a vida tua que é a vida minha.

A vida minha que te dei se enche
de anos, como o volume de um cacho.
Regressarão as uvas à terra.

E ainda lá embaixo o tempo segue sendo,
esperando, chovendo sobre o pó,
ávido de apagar até a ausência.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

segunda-feira, 5 de março de 2012

XC


PENSEI morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti deixava:
tua boca eram meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por meus beijos.

Nesse instante terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos teus olhos.

Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
mas quando a morte vem tocar a porta

há teu olhar apenas para tanto vazio,
só tua claridade para não seguir sendo,
só teu amor para fechar a sombra.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

domingo, 4 de março de 2012

LXXXIX


QUANDO eu morrer quero tuas mãos em meus olhos:
quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim seu viço:
sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que cheires o amor do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.

Quero que o que amo continues vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teu pêlo,
para que assim conheçam a razão de meu canto.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

sábado, 3 de março de 2012

LXXXVIII


O MÊS de março volta com sua luz escondida
e deslizam peixes imensos pelo céu,
vago vapor terrestre progride sigiloso,
uma por uma caem ao silêncio as coisas.

Por sorte nesta crise de atmosfera errante
reuniste as vidas do mar com as do fogo,
o movimento cinza da nave de inverno,
a forma que o amor imprimiu à guitarra.

Oh amor, rosa molhada por sereias e espumas,
fogo que dança e sobe a invisível escada
e desperta no túnel da insônia ao sangue

para que se consumam as ondas no céu,
esqueça o mar seus bens e leões
e caia o mundo dentro das redes escuras.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

sexta-feira, 2 de março de 2012

LXXXVII


AS TRÊS AVES do mar, três raios, três tesouras,
cruzaram pelo céu frio para Antofagasta,
por isso ficou o ar tremuloso,
tudo tremeu como bandeira ferida.

Solidão, dá-me o sinal de tua incessante origem,
o apenas caminho dos pássaros cruéis,
e a palpitação que sem dúvida precede
o mel, a música, o mar, o nascimento.

(Solidão sustentada por um constante rosto
como uma grave flor sem cessar estendida
até abarcar a pura multidão do céu.)

Voavam asas frias do mar, do Arquipélago,
para a areia do Noroeste do Chile.
E a noite fechou seu celeste ferrolho.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

quinta-feira, 1 de março de 2012

LXXXVI


OH CRUZ DO SUL, oh trevo de fósforo fragrante,
com quatro beijos hoje penetrou tua formosura
e atravessou a sombra e meu chapéu:
a lua ia redonda pelo frio.

Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
de escarcha azul, serenidade do céu,
espelho, apareceste e completou-se a noite
com tuas quatro adegas trêmulas de vinho.

Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
cruz verde, perrexil da sombra radiante,
vaga-lume à unidade do céu condenado,

descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

LXXXV


DO MAR para as ruas corre a vaga névoa
como o bafo de um boi enterrado no frio,
e longas línguas de água se acumulam cobrindo
o mês que a nossas vidas prometeu ser celeste.

Adiantado outono, favo silvante de folhas,
quando sobre os povoados palpita teu estandarte
cantam mulheres loucas despedindo os rios,
os cavalos relincham para a Patagônia.

Há uma trepadeira vespertina em teu rosto
que cresce silenciosa pelo amor transportada
até as ferraduras crepitantes do céu.

Me inclino sobre o fogo de teu corpo noturno
e não apenas teus seios amo mas o outono
que esparge pela névoa seu sangue ultramarino.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

LXXXIV


UMA VEZ MAIS, amor, a rede do dia extingue
trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e à noite entregamos o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e a terra.

Só a lua no meio de sua página pura
sustém as colunas do estuário do céu,
a habitação adota a lentidão do ouro
e vão e vão tuas mãos preparando a noite.

Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,

até que só sejamos um só espaço escuro,
uma taça em que a cinza celeste tomba,
uma gota no pulso de um lento e longo rio.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

LXXXIII


É BOM, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.

Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.

Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos

algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011

domingo, 26 de fevereiro de 2012

LXXXII


AMOR MEU, ao fechar esta porta noturna
te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:
fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,
estende-te em meu sangue como num amplo rio.

Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo
no saco de cada dia do passado,
adeus a cada raio de relógio ou laranja,
saúde, oh sombra, intermitente companheira!

Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,
uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,
somos o matrimônio da noite no sangue.

Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
mas é teu coração o que reparte
em meu peito os dons da aurora.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011