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domingo, 9 de março de 2014

JMS DESMASCARADO II


A primeira tentativa de JMS com He-Man rendeu ótimos frutos - um trabalho regular na série.

"Os produtores me ligaram e disseram que queriam fazer uma reunião comigo", conta JMS. "Então, perguntaram se eu queria fazer parte da equipe. Foi uma boa oportunidade, aprendi bastante coisa quanto à redação de diálogos."

No final dos anos 80, Straczynski havia construído uma reputação como roteirista de sucesso de desenhos, trabalhando em projetos como He-Man, She-Ha e Os Caça-Fantasmas. Dali, migrou para seriados live-action, como Assassinato por Escrito, Jake and the Fatman e Walker: Texas Ranger.

Em 1994, JMS lançou seu épico de ficção científica aclamado pela critica Babylon 5. Com o sucesso imediato da série, se viu trabalhando 20 horas por dia e escrevendo praticamente todos os episódios.

"Aquilo quase me matou", se recorda, alongando seu corpo de mais de 1,80m. "Além de roteirizar, eu era o único produtor e estava encarregado de escalar o elenco, editar, cuidar da pós-produção, da maquiagem, dos figurinos... Escrevia até as três, quatro da manhã, dormia umas duas ou três horas e encarava o dia. E morria nos finais de semana."

Contudo, por mais exausto que estivesse, ele não podia parar de pensar em histórias em quadrinhos. Ele havia escrito edições de Teen Titans Spotlight, The Twilight Zone e Star Trek aqui e ali, mas sentia sua paixão infantil chamando-o.

Quando Babylon 5 terminou, em 1999, Straczynski começou a sondar as editoras de HQs e foi conversar com Marc Silvestri, dono da Top Cow Productions, que integrava a Image.

Rising Stars 3-A
Comic Book by Top Cow
Dec 1999

Depois de ler os primeiros roteiros de Rising Stars (N.E.: recém-publicado no Brasil pela Mythos, com o título Estrelas Ascendentes) e adorar o conceito, a editora ofereceu a JMS seu próprio selo, o Joe's Comics, em 2000.

Embora fazer negócios com a Top Cow fosse bom, o autor já tinha destino certo: estava prestes a se mudar para a "Casa de Ideias".

Por Mike Cotton

 Wizard Brasil #22 - Julho de 2005 - Panini Comics

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

JIM SHOOTER - O POLÊMICO

Epic Illustrated 7-A
Comic Book by Epic
Aug 1981

Considerado uma fera dos quadrinhos, o controverso Jim Shooter foi o manda-chuva durante o mais tumultuado e (revolucionário) período da história da Marvel

Por Mike Cotton

Entrincheirado atrás de uma larga mesa em sua sala, no prédio da Marvel, em Nova York, a altas horas de uma noite de sexta-feira de 1986, o então editor-chefe Jim Shooter se perguntava: "O que mais posso fazer para transformar a 'Casa das Ideias' na mais poderosa entidade da indústria de quadrinhos?" Ocupando o cargo na maior parte dos anos 80, ele revolucionou o mercado ao contratar os principais talentos, ao dar sinal verde para que a companhia realizasse crossovers com outras editoras, ao lançar o selo Epic e, o mais importante de tudo, ao ajudar a salvar a empresa do que muitos consideravam a falência certa.

Mas Shooter não transformou a Marvel numa omelete de milhões de dólares sem quebrar alguns valiosos ovos. Ele manteve discussões acaloradas com os criadores a respeito das histórias, com os colegas sobre o método de edição que praticava e teve contínuas batalhas com a diretoria da empresa sobre pagamento de royalties.

Embora alguns acham que a visão de Shooter de converter a Marvel na segunda Disney fosse insustentável, ele jamais desistiu da ideia - seu sonho não era apenas aumentar as vendas, mas oferecer quadrinhos mais bem escritos e desenhados.

Ele ainda era o mesmo líder destemido que havia escrito um memorando interno dois anos antes com o seguinte teor: "Comecem a fazer bons gibis. Sei que essa diretriz reflete um rompimento substancial com a política anterior da empresa, mas, por favor, procurem obedecê-la."

Shooter não tinha tempo para perder tentando ser educado com os funcionários. Sua missão era pensar em novas maneiras de melhorar a Marvel e mantê-la à frente de sua rival, a DC Comics.

"A paixão e o comprometimento são dois elementos de uma personalidade e, quanto maior a personalidade, mais intensas são as faíscas liberadas", diz Chris Claremont, que alterou o final de sua história clássica A Saga da Fênix Negra, na revista Uncanny X-Men, a pedido de Shooter.

"As pessoas podem dizer qualquer coisa a respeito de Jim, mas não se pode esquecer que quando era editor-chefe as vendas cresceram exponencialmente e foram produzidos alguns dos melhores trabalhos dos últimos 40 anos. Ele forçava as pessoas a darem o melhor de si."

Na verdade, Shooter não poderia ter agido muito diferente. Em seus cinco anos à frente da editora, concordou em produzir o crossover da Liga da Justiça e dos Vingadores, se comunicou com os fãs de uma maneira que ninguém fazia desde que Stan Lee ocupou a cadeira de editor-chefe, e forjou algumas das mais revolucionárias histórias da Marvel, incluindo a fase de Frank Miller no Demolidor, a passagem de John Byrne pelo título dos heróis mutantes e pelo Quarteto Fantástico e a clássica fase do Thor de Walt Simonson.

Ele conseguiu fazer praticamente tudo o que pretendia com a Marvel - e isso, mais tarde, acabou lhe custando o emprego.

Wizard Brasil - Ano 2 - Número 15 - Dezembro de 2004

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

JMS DESMASCARADO

Antes de catapultar o Homem-Aranha ao topo, J. Michael Straczynski levava uma vida quase miserável, com profanação de corpos e uma violência que quase o matou

Por Mike Cotton

Um por um, seu pai rasgou cada exemplar de Superman. Cada exemplar de X-Men. Cada exemplar de Fantastic Four e Amazing Spider-Man (respectivamente, as revistas originais do Quarteto Fantástico e do Homem-Aranha). Enquanto o então adolescente Joseph Michael Straczynski assistia horrorizado, as únicas coisas que possuía e com que realmente se importava eram destruídas...

O senhor Straczynski começou com X-Men 1 e prosseguiu, rasgando cada gibi até que não restasse mais nada para seu filho a não ser uma pilha de quadrinhos, capas e páginas de anúncios que mais pareciam confete a revistas.

Partidário de uma educação rígida, que colocava o desempenho escolar acima de tudo, o pai via as notas de seu filho caindo drasticamente e culpava os quadrinhos pelos quais o rapaz era obcecado. A pregação do dr. Fredric Wertham contra os quadrinhos no livro Seduction of the Innocent (A Sedução do Inocente), de 1954, ainda estigmatizava as HQs como lixo infantil.

O jovem Straczynski passou anos colecionando seus títulos prediletos, de Superman e Batman à séries completas de edições originais da Marvel como Amazing Spider-Man, Incredible Hulk e Fantastic Four. À beira das lágrimas, o garoto que um dia iria revigorar a franquia vacilante do Homem-Aranha só podia olhar sem fazer nada enquanto os objetos de sua inocente adoração eram literalmente despedaçados à sua frente.

A experiência teria traumatizado outros jovens impressionáveis, mas só fez com que Straczynski se dedicasse ainda mais ao sonho de se tornar escritor. Ver sua coleção de quadrinhos destruída foi apenas o primeiro de uma longa série de obstáculos que ele teve de enfrentar para se tornar um dos mais prolíficos e respeitados criadores tanto nas HQs quanto na televisão.

Em sua juventude, JMS (uma sigla que os fãs carinhosamente adotaram para se referir ao autor) estava constantemente se mudando de um lugar para outro dos Estados Unidos, acompanhando seus pais à procura de trabalho. Raramente passou mais de um ano numa mesma escola, e a história de sua família - marcada pelo alcoolismo e por potenciais não concretizados - fazia crer que ele não seria nada mais que um vagabundo.

Durante um passeio de carro num certo domingo, seus pais resolveram fazer uma parada num pequeno cemitério para visitar o túmulo de seu avô. Nada havia preparado Straczynski para o que viu naquele dia.

Seu avô jazia em um túmulo modesto sem nenhuma inscrição. Um simples mastro de aço e uma placa de bronze com um número gravado eram as únicas marcas que o distinguiam. Essa foi uma lembrança que assombrou JMS tão profundamente, que ele decidiu, naquele instante, que deixaria uma marca no mundo, não importa quanto custasse.

Infelizmente, sua família não via futuro na carreira de escritor de seu filho. "Escritores não saem de Paterson, Nova Jersey", recorda-se de ter escutado na infância Straczynski, hoje com 51 anos. "Isso é uma coisa que só as pessoas em torres de marfim fazem."

Durante anos, a família de Straczynski lhe perguntava: "O que você escreveu até hoje?" A resposta era tão simples quanto seu amor pela palavra escrita: "Ainda não estou pronto."

Então, certa noite, quando estava sozinho, ele teve uma inspiração e escreveu uma história curta completa nas seis horas seguintes. Logo, ele estava colaborando com o jornal do colégio, depois para o da faculdade. Os colegas o chamavam de "Joe Diário", numa alusão ao jornal de San Diego The Daily Aztec (O Asteca Diário), por causa dos artigos diários de Straczynski.

Embora fosse muito prolífico, um professor insistia em dizer que JMS não tinha chance na carreira. "Ao final do semestre, ele falou: 'Você não tem o temperamento para ser um escritor profissional', recorda-se. "'Vá fazer outra coisa'".

Durante anos, quando vendia uma história ou uma peça minha era produzida, eu lhe enviei as resenhas dos jornais. Daí, alguém me disse que ele faleceu. Então, fui até o cemitério, enrolei uma das matérias num graveto e enterrei na terra sobre seu coração e fui embora. E jamais me arrependi disso."

Embora JMS tenha violado um túmulo, quase não conseguiu evitar a própria morte em 1978. Certa vez enquanto caminhava pelas ruas de San Diego tarde da noite, o aspirante a escritor foi atacado por um bando de trombadinhas e espancado sem piedade.

"Vi quatro sujeitos atravessando a rua na minha direção e não dei muita bola", relembra. "O cara que vinha na frente me empurrou e me derrubou no chão. Então, eles me espancaram por uns 10 ou 15 minutos. Tive várias lacerações. Minha orelha foi rasgada pela metade e quebrei alguns ossos. No hospital, me perguntavam: 'Qual é a sua religião?', o que, sem dúvida, é um mau sinal,"

Enquanto estava no pronto-socorro se restabelecendo do corte na orelha direita (que até hoje não tem um pedaço), Straczynski teve uma epifania.

"Resolvi que não ia morrer", relembra o autor. "Eu tinha muitas histórias para contar. Estava com tanta raiva, que acabei me recuperando."

Foi aí que ele decidiu formalmente seguir a carreira de escritor profissional e logo começou a apresentar ideias para publicações de San Diego. Chegou a se encontrar com a equipe da revista People, mas depois de uma árdua reunião às 10 horas da manhã para discutir suas propostas, foi embora.

"Eu disse para mim mesmo: 'O que vou fazer?'", ri. "Pensei: 'Gosto é de desenhos animados. Preciso encarar seriamente a ideia de escrever pra televisão'. Como adorava o desenho do He-Man, fiz um roteiro e mandei pra emissora. Não tinha nenhum agente, nenhuma representação, nada."

Wizard Brasil #22 - Julho de 2005 - Panini Comics