Mostrando postagens com marcador Um teco do livro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Um teco do livro. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

PARA OS NAMORADOS


O amor tem sido o tormento dos homens e o martírio das mulheres. Dêste tormento e dêste martírio é que se tece - fios de ouro ou de prata - a glória da vida.

Ninguém houve no mundo - palhaço de picadeiro ou monge do deserto - que não se visse, um dia, enredado na trama celeste e infernal do amor.

O amor é a respiração da humanidade, a lei suprema que rege a gravitação universal dos corações na terra, como essas outras que regem no espaço, a gravitação das estrelas.

O amor é a última explicação de todos os mistérios humanos, retine e ecoa no riso de quem se alegra e geme ou sussurra na voz angustiada de quem sofre. Ele é a luz dos olhos formosos das mulheres, a côr dos lábios fortes dos homens, a sedução irresistível dos colos femininos, a dominadora energia das espáduas largas dos atletas.

Brilha no ouro claro dos cabelos louros para tentação dos morenos e forma o fundo negro das cabeças de azeviche para endoidecer as mulheres de pele diáfana e macia. Oculta-se, como um perfume, que depois se vai desprendendo, aos poucos, na palma pequenina de uma mulher, encerrada na conha forte e quente de uma destra masculina.

Flui, à semelhança de um sôpro imponderável, dos gestos elegantes e orgulhosos com que as moças se miram nos espelhos ou prendem, sob o chapéu, a mecha irrequieta do cabelo sempre a escapar. Sentem-no as mulheres na maneira larga e despreocupada com que os homens acendem ou jogam fora o cigarro já fumado, no braço viril de quem ama, na voz imperativa dos que nasceram para mandar, no exterior rude e vincado que denuncia a alma forte e destemida.

Entrevemo-lo nas menores coisas de que se entrama a existência deliciosamente fútil dos que se querem bem: aquela malva murcha e muda que nos veio dentro da carta... Não tinha uma única palavra escrita, nem sequer uma inicial... E quanta coisa adorável não nos disse! Quanta palavra boa, oculta em suas nervuras e, sobretudo, quanta esperança no verde da sua fôlha! Aquela rosada pétala de flor deixada, por esquecimento proposital, no livro, que nos mandou, no romance lido em dois dias, na ânsia de novas emoções... Pétala rosada de flor, como te pareces com o rosto amado de quem aqui te deixou! Reproduzes, na tua delicadeza, a meiguice colorida e quente dêsse rosto... Quero chegar-te a mim: sinto o calor do rosto dela! Sinto o pulsar do seu sangue em ti! Tens a mesma maciez de penugem que convida a adormecer, a sonhar! Permita-me que te beije?

Que significam essas páginas do romance, assinaladas com o dobrar das pontas, no alto? Quantas revelações neste gesto feminino! Tudo o que nos queria dizer e não disse, aí está, no assunto descrito, nas frases sublinhadas e, por vêzes, numa única palavra, num nome apenas. Quem nos dá essa fôrça desvendadora de mistérios? o amor.

O amor circula em nossas veias, lateja-nos na fronte, pulsa-nos dentro do ser e traduz, nas côres da epiderme, as impressões do coração em luta. Vive no reflexo do sol, quando estamos contentes, na voz dos pássaros, quando não nos contemos de alegria, no bimbalhar festivo dos sinos em manhã dominical, no esplendor da luz nos nossos meios-dias tropicais.

Vive na pálpebra que se abaixa de timidez, no primeiro encontro, no tremor frio das mãos que se apertam pela primeira vez, na perturbação da voz de quem se vai estrear na vida, ao dizer alto o que baixinho o coração tinha dito em tantas ocasiões de sinceridade: - Eu te amo!

O amor! A projeção de Deus nas criaturas para que a feiúra da terra tenha os encantos do céu!

Cartas Esquecidas - 1951
Frei Francisco da Simplicidade
Coleção Saraiva
207

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O RESTAURANTE DO FIM DO UNIVERSO

Volume Dois da Série
O Mochileiro das Galáxias
Douglas Adams


introdução

Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável.

Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.

capítulo 1

Resumo dos últimos capítulos:

No início, o Universo foi criado.

Isso irritou profundamente muitas pessoas e, no geral, foi encarado como uma péssima ideia.

Muitas raças acreditam que o Universo foi criado por alguma espécie de Deus, embora os jatravartids, habitantes de Viltvodle VI, acreditem que, na verdade, o Universo inteiro tenha escorrido do nariz de um ser chamado Megarresfriadon Verde.

Os jatravartids, que vivem constantemente com medo de uma era chamam de A Chegada do Grande Lenço Branco, são pequenas criaturas azuis que têm mais de cinquenta braços, sendo assim absolutamente únicos por terem sido a única raça em toda a história a inventar o desodorante em spray antes da roda.

Contudo, a teoria do Megarresfriadon Verde é pouco aceita fora de Viltvodle VI e, sendo o Universo um lugar tão extraordinariamente estranho, outras explicações vêm sendo procuradas.

Há, por exemplo, uma raça de seres pandimensionais hiperinteligentes que uma vez construiu um supercomputador gigantesco chamado Pensador Profundo para calcular de uma vez por todas a Resposta à Questão Fundamental da Vida, do Universo e Tudo Mais.

O Pensador Profundo computou e calculou durante sete milhões e meio de anos, e no final anunciou que a resposta de fato era "Quarenta e Dois". Assim, outro computador ainda maior teve que ser construído para descobrir qual era exatamente a pergunta.

Esse computador, que foi chamado de Terra, era tão grande que frequentemente era confundido com um planeta - especialmente pelos estranhos seres simiescos que perambulavam por sua superfície, completamente alheios ao fato de que eram apenas parte de um gigantesco programa de computador.

Isso é muito estranho, na verdade, pois, sem o conhecimento desse fato bastante simples e um tanto óbvio, nada do que acontecia na Terra tinha o menor sentido.

Infelizmente, porém, pouco antes do momento crítico do término do programa e apresentação do resultado, a Terra foi inesperadamente demolida pelos vogons para que fosse construída uma via expressa interestelar - ou pelo menos foi o que eles alegaram. Sendo assim, qualquer esperança de descobrir um sentido para a vida se perdeu para todo o sempre.

Ou quase.

Duas dessas estranhas criaturas simiescas sobreviveram.

Arthur Dent escapou no último minuto porque um velho amigo seu, Ford Prefect, subitamente declarou vir de um pequeno planeta próximo a Betelgeuse, e não de Gildford, como até então havia alegado. Não apenas isso, mas ele também sabia pegar carona em discos voadores.

Tricia McMillan - ou Trillian - tinha dado o fora do planeta seis meses antes com Zaphod Beeblebrox, que nessa época ainda era presidente da Galáxia.

Dois sobreviventes.

É só o que resta da maior experiência já realizada para descobrir a Questão Fundamental e a Resposta Final sobre a Vida, o Universo e Tudo mais.

Em meio à profunda escuridão do espaço, a nave espacial onde se encontram Zaphod, Ford, Trillian e Arthur se move calmamente. A menos de meio milhão de quilômetros dali, uma nave vogon se deslocava inexoravelmente em sua direção.

págs. 7-11

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DARWIN - A Origem das Espécies



CAPÍTULO I

Variação das espécies no estado doméstico

Causas da variabilidade. Efeitos do hábito. Efeitos do uso ou não-uso dos órgãos. Variação por correlação. Hereditariedade. Caracteres das variedades domésticas. Dificuldade em distinguir as variedades e as espécies. As nossas variedades domésticas derivam de uma ou muitas espécies. Pombos domésticos/suas diferenças e origem. A seleção aplicada desde há muito/seus efeitos. Seleção metódica e inconsciente. Origem desconhecida dos nossos animais domésticos. Circunstâncias favoráveis ao exercício da seleção pelo homem.

Causas da variabilidade

Quando se confrontam os indivíduos pertencentes à mesma variedade ou sub-variedade de nossas plantas há muito cultivadas e de nossos animais domésticos mais antigos, observa-se que, ordinariamente, diferem mais uns dos outros que os indivíduos pertencentes a uma espécie ou a uma variedade qualquer no estado selvagem. Ora, se meditarmos na imensa diversidade de nossas plantas cultivadas e dos animais domésticos que têm variado em todos os tempos assim que se vêem expostos a climas e tratamentos dos mais diversos, chegamos à conclusão de que esta grande variabilidade provém de que nossas produções domésticas foram criadas em condições de vida menos uniformes ou talvez, um tanto diferentes daquelas a que a espécie-mãe foi submetida no estado selvagem. Há um pouco de precisão na opinião defendida por Andrew Knight, isto é, de que a variabilidade pode ter, em parte, origem no excesso de nutrição. Parece evidente que os seres organizados devem, durante muitas gerações, ser expostos a novas condições de vida para que se produza neles alguma variação apreciável. Mas é evidente também que desde que um organismo começou a variar, continua ordinariamente a fazê-lo durante muitas gerações. Não se poderia citar exemplo algum de organismo variável que tenha cessado de se transformar no estado doméstico. As nossas plantas a longo tempo cultivadas, tal como o trigo, ainda produzem novas variações; os animais restringidos há muito ao estado doméstico estão ainda aptos a modificações ou aperfeiçoamentos muito rápidos.



Fonte: Coleção FOLHA - Livros que mudaram o mundo - 1

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Os Pilares da Terra - Volume I


Quatro semanas após a Páscoa, Aliena e Richard entraram em Winchester com um cavalo velho puxando uma carroça feita em casa, transportando um imenso saco com duzentas e quarenta peles de carneiro - o número preciso que fazia um saco-padrão.
Nesse ponto eles descobriram os impostos.
Antes sempre tinham entrado na cidade sem chamar nenhuma atenção, mas dessa vez aprenderam porque os portões da cidade eram estreitos e constantemente guarnecidos por funcionários da alfândega. Havia um pedágio de um penny para cada carroça de bens que entrasse em Winchester. Por sorte, ainda possuíam alguns pennies de sobra, e puderam pagar, pois, de outro modo, teriam sido barrados.
A maior parte das lãs tinha lhes custado entre meio penny e três quartos de penny cada. Haviam pago setenta e dois pence pelo cavalo velho, e a carroça desmantelada viera junto. A maior parte do resto do dinheiro fora gasta com comida. Mas naquela noite teriam uma libra de prata e um cavalo com carroça.

pág. 435

domingo, 21 de agosto de 2011

Os Pilares da Terra - Volume I


O priorado já devia a Tom três semanas de salário. Como um mestre construtor fazia jus a quatro pence por dia, isso significava um total de setenta e dois pence. A cada dia que se passava a dívida aumentava e se tornava mais e mais difícil para Philip pagar a Tom e mandá-lo embora. Depois de cerca de seis meses o construtor pediria ao prior que começasse a pagar-lhe. A essa altura já teria a seu crédito duas libras e meia de prata, que Philip precisaria arranjar para dispensar Tom. A dívida fazia com que se sentisse seguro.

pág. 298

sábado, 25 de junho de 2011

OS LUSÍADAS

CANTO I

1

As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando:
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

4

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre, em verso humilde, celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandiloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.

5

Dai-me hua fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no Universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: OS LUSÍADAS
LUÍS DE CAMÕES
1572

Clássicos Abril Coleções
Vol. 19 - 2010
págs. 11 e 12

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O HOMEM QUE QUERIA SER REI E OUTRAS HISTÓRIAS

Irmão de um Príncipe e amigo de um mendigo, se ele merecesse.

A Lei, no seu texto, determina uma conduta de vida moderada, difícil de ser seguida. Fui amigo de um mendigo em circunstâncias que nos impediam de ver se um merecia o outro. Aconteceu também ser eu irmão de um Príncipe e, assim, estive próximo dos componentes da situação de um verdadeiro Rei - exército, tribunais, fisco e política, tudo incluído. Hoje, porém, receio que meu Rei esteja morto e, se quiser uma coroa, precisarei buscá-la por mim mesmo.

Tudo começou em um trem de Ajmir para Mhow. Houve um Déficit no Orçamento que me obrigou a viajar não na Segunda Classe, que tem apenas metade do conforto da Primeira Classe, mas na Intermediária, que é realmente um horror. Não há estofados na Classe Intermediária, e a população ou é Intermediária, quer dizer, eurasiana ou nativa, o que é irritante para uma longa noite de viagem; ou Vadia, que é divertida mas embriagada. Os Intermediários não frequentam o vagão-restaurante. Trazem sua comida em trouxas e panelas, compram a sobremesa nos doceiros nativos e bebem água à beira da estrada. Quando o calor aumenta, os Intermediários são retirados mortos de dentro dos vagões e, com qualquer temperatura, são tratados com o devido desprezo.

Minha Intermediária estava vazia até chegar a Nasirabad, quando entrou um cavalheiro de grandes sobrancelhas negras, em mangas de camisa, que, seguindo o costume das Intermediárias, ficou vendo o tempo passar. Era um vagabundo errante como eu, mas com gosto educado para o uísque. Contou histórias de coisas que vira e fizera nos quatro cantos do Império por onde andou, e aventuras nas quais arriscara a vida por um prato de comida.

- Se a Índia só tivesse homens como você e eu, que, como os corvos, não sabem o que vão comer no dia seguinte, esta terra não pagaria 70 milhões em impostos: seriam 700 milhões - disse.

Quanto mais eu olhava para sua boca, mais me sentia inclinado a concordar com ele.

Falamos de política, a política da Vagabundagem, que vê as coisas pelo lado avesso, em que o acabamento não é homogêneo, e falamos sobre o correio, pois meu amigo queria enviar um telegrama da próxima estação para Ajmir, o ponto de desvio da linha de Bombaim para Mhow quando se vai na direção oeste. Meu amigo não tinha dinheiro, a não ser oito anás, que queria guardar para o jantar, e eu não tinha dinheiro nenhum, devido ao problema de Orçamento já mencionado. Além disso, eu ia para um deserto onde, embora precisasse manter contato com o Ministério da Fazenda, não havia um posto telegráfico. Era impossível, portanto, ajudá-lo de alguma forma.


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: O HOMEM QUE QUERIA SER REI E OUTRAS HISTÓRIAS
RUDYARD KIPLING
1902

Clássicos Abril Coleções
Vol. 18 - 2010
págs. 9 e 10

Tradução Cristina Carvalho Boselli

domingo, 19 de junho de 2011

O FALECIDO MATTIA PASCAL

I

PREMISSA

Uma das poucas coisas, talvez a única que eu soubesse com certeza era esta: que me chamava Mattia Pascal. E me aproveitava disso. Sempre que algum dos meus amigos ou conhecidos demonstrava haver perdido o juízo a ponto de vir me pedir conselhos, eu encolhia os ombros, entrecerrava os olhos e respondia:

- Eu me chamo Mattia Pascal.

- Obrigado, meu caro. Isso já sei.

- E acha pouco?

Para dizer a verdade, eu também não achava muito. Mas naquele tempo eu ignorava o que poderia significar não saber nem ao menos isso, ou seja, não poder mais responder como antes:

- Eu me chamo Mattia Pascal.

Alguém poderá se compadecer (custa tão pouco), imaginando a dor terrível de um infeliz ao qual aconteça descobrir de repente que... sim, não, enfim: nem pai, nem mãe, nem como foi ou deixou de ser; e também poderá se indignar (custa menos ainda) contra a deterioração dos costumes, os vícios e a maldade dos tempos, que podem provocar tanto desgosto a um pobre inocente.

Pois bem, fique à vontade. Mas é meu dever alertá-lo de que não se trata propriamente disso. Certamente, eu poderia mostrar aqui, numa àrvore genealógica, a origem e a descendência da minha família e demonstrar que não apenas conheci meu pai e minha mãe, mas também todos os meus antepassados e suas ações - por um longo decurso de tempo -, nem todas, na verdade, louváveis.

E então?

Pois bem, meu caso é muito mais estranho e peculiar, tão peculiar e estranho que resolvi contá-lo.

Fui, durante dois anos, não sei se mais um caçador de ratos ou um guardador de livros na biblioteca que certo monsenhor Boccamazza, ao morrer em 1803, decidiu deixar para o nosso município. É evidente que este monsenhor devia conhecer pouco o caráter e os hábitos de seus concidadãos; ou talvez cultivasse a esperança de que seu legado pudesse, com o tempo e o conforto que representava, estimular em seus espíritos o amor pelo estudo. Até o momento, e sou testemunha disso, não estimulou: e afirmo isso em louvor dos meus concidadãos. Aliás, o município mostrou-se tão pouco agradecido a Boccamazza que nem ao menos quis erigir-lhe um busto que fosse, e deixou os livros amontoados durante muitos e muitos anos num depósito grande e úmido, de onde os tirou mais tarde - imaginem em que estado - para guardá-los na igrejinha fora da mão de Santa Maria Liberal, que não sei por qual motivo havia sido desconsagrada. Deixou-os sob guarda, sem o menor critério, a título de benefício e recompensa, de algum vadio bem recomendado, que por duas liras ao dia, olhando para eles ou mesmo sem os olhar, aguentava durante algumas horas o cheiro de mofo e coisa velha.


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: O FALECIDO MATTIA PASCAL
LUIGI PIRANDELLO
1904

Clássicos Abril Coleções
Vol. 17 - 2010
págs. 9 e 10

Tradução Rômulo Antonio Giovelli e Francisco Degani

Notas Francisco Degani

sexta-feira, 17 de junho de 2011

GRANDES ESPERANÇAS

CAPÍTULO 1

O sobrenome da família do meu pai era Pirrip, e o meu nome de batismo, Philip, mas o máximo que minha língua infantil conseguia articular era Pip. Assim, passei a chamar-me Pip, e passaram a chamar-me Pip.

Declaro Pirrip como nome de família de meu pai de acordo com a autoridade do seu túmulo, e a de minha irmã, sra. Joe Gargery, que se casou com o ferreiro. Como eu jamais viria meu pai ou minha mãe, e jamais vira qualquer imagem dos dois (pois viveram em dias bem anteriores aos da fotografia), minhas primeiras fantasias, a respeito de como teriam sido eles, derivavam-se irracionalmente de seus túmulos. O formato das letras no túmulo de meu pai dava-me uma ideia estranha de que fora ele um homem honesto, robusto, moreno, de cabelos negros encaracolados. Dos caracteres e do estilo da inscrição lapidar "E Também Georgiana, Esposa do Acima Referido", tirei a conclusão infantil de que minha mãe era sardenta e enfermiça. Às cinco pedrinhas losangulares, de uns cinquenta centímetros cada, organizadas em fila ao lado do túmulo dos dois, consagradas à memória de meus cinco irmãozinhos - que tão cedo desistiram de tentar a vida, esta luta universal - devo a crença, que cultivava com reverência religiosa, de que os cinco haviam nascido de costas, com as mãos nos bolsos das calças, e jamais as haviam tirado dali neste estado de existência.

O nosso ficava na região do brejo, às margens do rio, numa faixa - a partir do ponto onde o rio fazia a curva - a trinta quilômetros do mar. Minha primeira impressão, mais vívida, mais ampla, sobre a identidade das coisas, eu a senti, em uma gélida e memorável tarde que rumava ao anoitecer. Descobri, com certeza, na ocasião, que este lugar desolado, recoberto de urtiga, era o cemitério da igreja; e que Philip Pirrip, defunto desta paróquia, e também Georgiana, esposa do acima referido, estavam mortos e enterrados; e que Alexander, Bartholomew, Abraham, Tobias e Roger, filhos infantes dos acima mencionados, estavam também mortos e enterrados; e que o mato chapado, escuro, para lá do cemitério, entrecortado por diques, aterros e cancelas, a servir de pasto para o gado esparso, era o brejo; e que aquela linha plúmbea, baixia, era o rio; e que aquele esconderijo selvagem, distante, de onde corria o vento, era o mar; e que aquele montinho de tremores a se amendrontar de tudo aquilo, começando a chorar, era Pip.

- Não faça barulho! - uma voz horrível gritou, e um homem se levantou entre os túmulos, ao lado do átrio da igreja. - Não se mova, diabinho, ou lhe corto a garganta!


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: GRANDES ESPERANÇAS
CHARLES DICKENS
1861
Clássicos Abril Coleções
Vol. 33 - 2010
págs. 8 e 9

Tradução José Eduardo Ribeiro Moretzsohn

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS

capítulo 1

A casa ficava numa pequena colina bem nos limites de uma vila, isolada. Dela se tinha uma ampla vista das fazendas do oeste da Inglaterra. Não era, de modo algum, uma casa excepcional - tinha cerca de 30 anos, era achatada, quadrada, feita de tijolos, com quatro janelas na frente, cujo tamanho e proporções pareciam ter sido calculados mais ou menos exatamente para desagradar a vista.

A única pessoa para quem a casa tinha algo de especial era Arthur Dent, e assim mesmo só porque ele morava nela. Já morava há uns três anos, desde que resolvera sair de Londres porque a cidade o deixava nervoso e irritado. Também tinha cerca de 30 anos; era alto, moreno e quase nunca estava em paz consigo mesmo. O que mais o preocupava era o fato de que as pessoas viviam lhe perguntando por que ele parecia estar tão preocupado. Trabalhava na estação de rádio local, e sempre dizia aos amigos que era um trabalho bem mais interessante do que eles imaginavam. E era, mesmo - a maioria de seus amigos trabalhava em publicidade.

Na noite de quarta-feira tinha caído uma chuva forte, e a estrada estava enlameada e molhada, mas na manhã de quinta um sol intenso e quente brilhou sobre a casa de Arthur Dent pelo que seria a última vez.

Arthur ainda não havia conseguido enfiar na cabeça que o conselho municipal queria derrubá-la e contruir um desvio no lugar dela.

Às oito horas da manhã de quinta-feira, Arthur não estava se sentindo muito bem. Acordou com os olhos turvos, levantou-se, andou pelo quarto sem enxergar direito, abriu uma janela, viu um trator, encontrou os chinelos e foi até o banheiro.

Pasta na escova de dentes - assim. Escovar.

Espelho móvel - virado para o teto. Arthur ajustou-o. Por um momento, o espelho refletiu um segundo trator pela janela do banheiro. Arthur reajustou-o, e o espelho passou a refletir o rosto barbado de Arthur Dent. Ele fez a barba, lavou o rosto, enxugou-o e foi até a cozinha em busca de alguma coisa agradável para pôr na boca.

Chaleira, tomada, geladeira, leite, café. Bocejo.


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS
DOUGLAS ADAMS
1979

SEXTANTE - 2004
págs. 17 a 18

Tradução Paulo Fernando Henriques Britto e Carlos Irineu da Costa

domingo, 5 de junho de 2011

Hamlet

ATO I

CENA I

ELSINORE. A PLATAFORMA DO CASTELO.
(Francisco, de guarda, em seu posto. Entra Bernardo.)

BERNARDO

Quem está lá?

FRANCISCO

Responde tu; pra trás e diz quem és.

BERNARDO

Viva o rei!

FRANCISCO

É Bernardo?

BERNARDO

É ele mesmo.

FRANCISCO

Chegas exatamente em tua hora.

BERNARDO

Acaba de soar a meia-noite.
Vai tu pra casa; vai dormir, Francisco.

FRANCISCO

Muito obrigado, porque assim me rendes;
'Stá frio e o coração trago oprimido.

BERNARDO

Foi calma a guarda?

FRANCISCO

Não se ouviu um rato.

BERNARDO

Muito bem. Boa-noite. Se encontrares
O Horácio e o Marcelo, companheiros
Desta noite, eu te peço que os apresses.

FRANCISCO

Creio que os ouço. Em guarda! Quem vem lá?

(Entram Horácio e Marcelo.)

HORÁCIO

Amigos do país.

MARCELO

Fiéis ao rei.

FRANCISCO

Boa-noite.

MARCELO

Até breve, bom soldado.
Quem veio te render?

FRANCISCO

Bernardo fica.
Que tenhas boa noite.
(Sai.)

MARCELO

Olá! Bernardo!

BERNARDO

Quê? Horácio está aqui?

HORÁCIO

Um pouco dele.

BERNARDO

Sejas bem-vindo, Horácio; e tu, Marcelo.

MARCELO

Aquela aparição veio esta noite?

BERNARDO

Eu nada vi.


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: HAMLET | REI LEAR | MACBETH
Clássicos Abril Coleções - 2010
págs. 33 a 34

Tradução Barbara Heliodora

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha

CAPÍTULO XXVII

QUE TRATA DA NOVA E AGRADÁVEL AVENTURA QUE
AO CURA E AO BARBEIRO SUCEDEU NA MESMA SERRA

Felicíssimos e venturosos foram os tempos em que se lançou ao mundo o audacíssimo cavaleiro D. Quixote da Mancha, pois, por haver tido tão honrosa determinação como foi o querer ressuscitar e fazer voltar ao mundo a já perdida e quase morta ordem da andante cavalaria, gozamos agora, nesta nossa idade, necessitada de alegres entretenimentos, não só da doçura de sua verdadeira história, mas dos contos e episódios dela, que em parte não são menos agradáveis e artificiosos e verdadeiros que a mesma história; a qual, prosseguindo seu rastelado, torcido e enfusado fio, conta que, assim que o cura começou a preparar-se para consolar Cardênio, o impediu uma voz que lhe chegou aos ouvidos, a qual, com tristes acentos, dizia assim:

- Ai, meu Deus! Será possível que já encontrei lugar que possa servir de escondida sepultura à carga pesada deste corpo, que tão contra a minha vontade sustento? Sim, será, se a solidão que prometem estas serras não me mente. Ai, desditosa, e quão mais agradável companhia farão estas escarpas e brenhas à minha intenção, pois me darão ocasião a que com queixas comunique minha desgraça ao céu, que não a nenhum ser humano, pois não há nenhum na terra de quem se possa esperar conselho nas dúvidas, alívio nas queixas nem remédio nos males!


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: O ENGENHOSO FIDALGO D. QUIXOTE DA MANCHA - VOLUME II
Clássicos Abril Coleções - 2010
págs. 17 a 18

Tradução Carlos Nougué e José Luis Sánchez

domingo, 29 de maio de 2011

O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha

CAPÍTULO I

QUE TRATA DA CONDIÇÃO E EXERCÍCIO DO FAMOSO
E VALENTE FIDALGO D. QUIXOTE DA MANCHA

Num vilarejo da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito tempo vivia um fidalgo dos de lança em lanceiro, adarga antiga, rocim magro e cão corredor. Uma olha com algo mais de vaca que de carneiro, salpicão na maioria das noites, duelos y quebrantos aos sábados, lentilhas às sextas, algum pombinho como prato especial aos domingos consumiam três quartos de sua renda. O restante dela, acabavam-no saio de velarte, calças de veludo para os dias santos, com seus patunfos do mesmo pano, e nos dias de semana se honrava com sua burelina da mais fina. Tinha em casa uma ama que passava dos quarenta, e uma sobrinha que ainda não chegara aos vinte, e um criado de campo e casa que tanto selava o rocim como empunhava a podadeira. Beirava a idade de nosso fidalgo pelos cinquenta anos. Era de compleição rija, seco de carnes, chupado de rosto, grande madrugador e amigo da caça. Dizem alguns que tinha o sobrenome de "Quijada", ou "Quesada", que quanto a isso há alguma diferença entre os autores que sobre este caso escrevem, ainda que por conjecturas verossímeis se deixe entender que se chamava "Quijana". Mas isto pouco importa para o nosso conto: basta que em sua narração não nos afastemos um ponto da verdade.

É, pois, de saber que o sobredito fidalgo, nos momentos em que estava ocioso - que eram os mais do ano -, se entregava a ler novelas de cavalaria, com tanto afinco e gosto, que se esqueceu quase de todo o exercício da caça e ainda a administração de sua fazenda; e chegou a tanto sua curiosidade e desatino nisso, que vendeu muitas fanegas de terra de plantio para comprar novelas de cavalaria que ler, e, assim levou para casa todas quantas podia haver delas; e, de todas, nenhumas lhe pareciam tão boas como as que compôs o famoso Feliciano de Silva, porque a clareza de sua prosa e aquelas intricadas frases suas lhe pareciam um primor, e mais ainda quando lia aqueles galanteios e cartas de desafio, onde em muitas partes achava escrito: "A razão da sem-razão que à minha razão se faz, de tal maneira minha razão debilita, que com razão me queixo de vossa formosura". E também quando lia: "Os altos céus que de vossa divindade divinamente com as estrelas vos fortificam e vos fazem merecedora do merecimento que merece vossa grandeza...".


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: O ENGENHOSO FIDALGO D. QUIXOTE DA MANCHA - VOLUME I
Clássicos Abril Coleções - 2010
págs. 51 a 53

Tradução Carlos Nougué e José Luis Sánchez

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os Sofrimentos do Jovem Werther

4 de maio de 1771

Sinto-me feliz por ter partido! O coração do homem, meu caro amigo, é um mistério indecifrável! Deixá-lo, uma pessoa a quem tanto estimo e de quem era inseparável, e mesmo assim estar feliz! Sei que me perdoa. Porém todas as minhas outras relações não teriam sido escolhidas aleatoriamente pelo destino para torturar um coração como o meu? Pobre Leonore! E, no entanto, não tive culpa. Que poderia eu fazer se, enquanto me distraía com a graça sedutora de sua irmã, uma paixão desabrochava em seu peito? E, contudo, estarei completamente livre de censura? Não alimentei os sentimentos dela? Não me diverti com sua ingenuidade natural, que tão frequentemente nos fazia rir, mesmo quando não tinha a menor graça? Não...? Oh! Mas o que é o homem, sempre a lamentar-me de si mesmo? Quero corrigir-me, caro amigo, e prometo que o farei; não quero mais, como tenho feito até agora, remoer os males que o destino nos reserva; quero gozar o presente e considerar o passado apenas passado. Sem dúvida, você tem razão, meu bom amigo: neste mundo haveria menos sofrimento se os homens (só Deus sabe por que eles são assim!) não se ocupassem, com tanta imaginação, em fazer voltar a lembrança das dores passadas, em vez de suportar um presente tolerável.

Por favor, diga à minha mãe que não descuidarei de seus negócios e que lhe mandarei alguma notícia. Conversei com minha tia e não encontrei nela a mulher perversa de que se falava lá em casa. É vivaz, impetuosa, mas de bom coração. Expus-lhe as queixas de mamãe quanto a essa parte da herança que ela conserva em seu poder; ela, então, apresentou-me suas razões, seus motivos e as condições em que se comprometia a entregar tudo, e até mais do que pedíamos. Em resumo, hoje não posso escrever-lhe mais nada sobre esse assunto: diga à mamãe que tudo correrá bem. Pude verificar uma vez, meu caro amigo, nesta questão sem importância, que os mal-entendidos e a negligência causam no mundo muito mais equívocos do que a astúcia e a crueldade. Essas duas, pelo menos, são bem mais raras.

A propósito, sinto-me muito bem aqui. A solidão é para minha alma um bálsamo precioso neste paraíso terrestre, e esta primavera me aquece o coração em todo o seu ardor, esse meu coração que frequentemente estremece de frio. Cada árvore, cada arbusto é um ramalhete de flores, e eu gostaria de me transformar em uma abelha para esvoaçar nesta atmosfera perfumada e dela tirar todo alimento.

A cidade, em si, é desagradável, mas, nos arredores, a natureza é incrivelmente bela. Foi o que conduziu o falecido conde M... a construir seu jardim em uma das colinas que se cruzam com encantadora diversidade, formando vales belíssimos. O jardim é modesto, e logo ao entrar percebe-se que não foi projetado por um sábio jardineiro, mas sim por um homem sensível, que o fazia para seu próprio prazer. Já derramei muitas lágrimas em memória do falecido, no pequeno pavilhão em ruínas que era o seu lugar predileto, e agora é também o meu. Não tardarei a ser dono do jardim; cheguei há poucos dias e o jardineiro já me está inteiramente devotado: não se arrependerá por isso.



Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Clássicos Abril Coleções - 2010
págs. 13 e 14

Tradução Leonardo César Lack

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Divina Comédia - Inferno


CANTO I


No meio do caminho desta vida
desencontrei-me numa selva escura
que do rumo direito vi perdida.

Ah, quanto o descrevê-la é empresa dura,
esta selvagem, acre e forte
e que o pavor no pensamento apura!

Tal amargor, só há maior na morte.
Mas quanto ao Bem que ali eu encontrei,
outras coisas direi de minha sorte.

Não posso relembrar bem como entrei,
tão sonolento estava, àquele ponto
em que a via veraz abandonei.

Depois, ao pé de uma colina, pronto
surgida onde findava o vale aberto
que o medo ao coração trouxe em confronto,

olhei-a no alto e vi seus ombros, perto,
vestidos já dos raios, luz completa,
do planeta que aponta o rumo certo.


Fonte da imagem: IGGNÁCIA

Fonte: A DIVINA COMÉDIA
INFERNO

Clássicos Abril Coleções - 2010
pág. 47

Tradução Jorge Wanderley

Organização e edição Márcia Cavendish Wanderley
Prefácio e preparação de originais Marco Lucchesi

terça-feira, 24 de maio de 2011

O Retrato de Dorian Gray


I


O ateliê estava repleto do odor substancioso das rosas, e quando a brisa de verão agitou-se por entre as árvores do jardim, entrou, pela porta aberta, o aroma acentuado do lilás, ou o perfume mais delicado do pilriteiro rosáceo.

No canto do divã de alforjes persas, em que se deitava e fumava, como de hábito, inúmeros cigarros, lorde Henry Wotton captava apenas o reflexo das flores mel-doces e mel-cores do laburno, cujos galhos trêmulos mal pareciam capazes de suportar o peso de belezas tão flamejantes; e, de vez em quando, as sombras fantásticas dos pássaros em revoada atravessaram, adejantes, as cortinas de tussor, compridas, estendidas à frente da imensa janela, e produziam uma espécie de efeito japonês, momentâneo, que o fazia pensar nos rostos de jade, pálidos, daqueles pintores de Tóquio que, por meio de uma arte necessariamente imóvel, procuram transmitir a sensação da fugacidade e do movimento. O murmúrio birrento das abelhas, que ombreavam caminho pela grama por cortar ou que, numa insistência monótona, circundavam as guampas douradas da madressilva das boticas, parecia fazer com que a imobilidade se tornasse mais opressiva. O ronco surdo de Londres era a nota bordão de um órgão distante.

No centro da sala, encaixado num cavalete armado, o retrato de corpo inteiro de um jovem de extraordinária beleza pessoal; à frente do cavalete, a certa distância, sentado, o artista em pessoa, Basil Hallward, cujo desaparecimento repentino, alguns anos atrás, causara, na ocasião, entre o público, tamanho rebuliço e dera origem a tantas conjecturas estranhas.

O pintor contemplava aquela forma bonita e graciosa que, com sua arte, espelhara com tamanha habilidade; um sorriso de prazer tomava-lhe o rosto e parecia querer ficar. De repente, porém, levantando-se, cerrou os olhos, e com os dedos foi cobrir as pálpebras, com a tentar aprisionar, dentro do cérebro, um sonho curioso, de que temia acordar.

Lorde Henry falou, lânguido:

- Seu melhor trabalho, Basil, a melhor coisa que você já fez. Você não deve deixar de mandá-lo a Grosvenor ano que vem. A Academia é grande demais e muito vulgar. Em todas as vezes que fui lá, ou havia muita gente, e eu não conseguia ver os quadros, o que era horrível, ou então havia muitos quadros, e eu não consegui ver as pessoas, o que era pior. O Grosvenor é, de fato, o local ideal.

- Não estou pensando em mandá-lo a lugar algum.

Basil Hallward jogou a cabeça para trás, daquele jeito estranho que fazia rir seus amigos em Oxford.

- É... não vou mandá-lo a lugar nenhum!

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: O RETRATO DE DORIAN GRAY
Clássicos Abril Coleções - 2010
págs. 13 e 14

Tradução José Eduardo Ribeiro Moretzsohn

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Madame Bovary


PRIMEIRA PARTE

I


Estávamos na sala de estudo quando o Diretor entrou, seguido de um novato vestido à paisana e de um servente carregando uma grande carteira. Os que dormiam acordaram e todos nos levantamos como se tivéssemos sido surpreendidos durante o trabalho.

O Diretor fez sinal para que nos sentássemos; depois, voltando-se para o inspetor de alunos:

- Senhor Roger - disse-lhe a meia-voz -, eis um aluno que lhe recomendo, vai para o quinto ano(1). Se seu trabalho e sua conduta forem meritórios, passará para a classe dos maiores, como exige a sua idade.

Imóvel num canto, atrás da porta, de modo que mal o percebíamos, o novato era um rapaz do campo, de uns quinze anos, e mais alto do que qualquer um de nós. Tinha os cabelos cortados rentes à testa, como um chantre de aldeia, e um ar sensato e muito embaraçado. Embora não tivesse os ombros largos, seu paletó de lã verde com botões pretos devia incomodá-lo nas cavas e deixava perceber, pela abertura dos canhões, pulsos vermelhos acostumados a andar nus. Suas pernas, com meias azuis, saíam de uma calça amarelada, muito repuxada pelos suspensórios. Calçava sapatos grossos, mal engraxados, guarnecidos de pregos.

Começamos a recitar as lições. Ele as ouviu atentamente, como se ouvisse um sermão, não ousando nem mesmo cruzar as coxas ou apoiar-se no cotovelo e, às duas horas, quando o sino tocou, o inspetor de alunos foi obrigado a adverti-lo para que se colocasse em fila conosco.

Tínhamos o hábito, ao entrar na sala de aula, de atirar ao chão nossos bonés para termos em seguida as mãos livres, era preciso, já na soleira da porta, lançá-los embaixo do banco, fazendo-os bater na parede, levantando muita poeira; era aquele o estilo.

Porém, ou porque não tivesse notado a manobra ou porque não tivesse ousado submeter-se a ela, o novato mantinha ainda o boné sobre os joelhos quando a prece já terminara. Era uma daquelas peças compósitas, onde se encontram elementos da barretina de pele, da chapska(2), do chapéu redondo, do boné de lontra ou do gorro de algodão; uma dessas pobres coisas, enfim, cuja feiura muda tem profundidades de expressão como o rosto de um imbecil. Ovoide e cheio de barbatanas, começava por três rolos circulares; depois alternavam-se, separados por uma faixa vermelha, losangos de veludo e de pele de coelho; vinha em seguida uma espécie de saco que acabava em um polígono cartonado, coberto por um bordado em sutache complicado, e de onde pendia, como uma borda na extremidade de um longo cordão fino demais, um pequeno manípulo de fios de ouro. Era novo; a pala brilhava.

(1) Corresponde, no Brasil, ao antigo segundo ano ginasial.
(2) Chapéu militar de origem polonesa, usado pelos lanceiros franceses no século XIX.

Fonte da imagem: IGGNÁCIA

Fonte: MADAME BOVARY
Clássicos Abril Coleções - 2010
págs. 13 e 14

Tradução e notas Fúlvia M. L. Moretto

Crime e Castigo


QUARTA PARTE

I


"Será possível que seja o sonho que continua?", pensou ainda Raskólnikov, examinando o inesperado visitante com ar atento e desconfiado. "Svidrigáilov! Que absurdo!"

- Impossível - disse afinal em voz alta, em sua estupefação. O estranho não pareceu surpreendido com a exclamação.

- Vim à sua casa por duas razões: primeiro, desejava conhecê-lo, pois muito tenho ouvido falar a seus respeito e nos termos mais lisonjeiros. Em segundo lugar, espero que não me recusará talvez o seu concurso num projeto que interessa sua irmã Avdótia Románovna. Sozinho e sem recomendações, eu não seria talvez recebido por ela, agora que está prevenida contra mim, ao passo que, com seu auxílio, é claro, espero...

- Engana-se - interrompeu Raskólnikov.

- Essas senhoras não estão aqui apenas desde ontem? Permita-me indagar-lhe.

Raskólnikov não respondeu.

- Desde ontem, eu o sei. Eu mesmo só estou aqui desde anteontem. Pois bem, eis o que vou dizer-lhe sobre isso, Rodión Románovitch. Julgo supérfluo justificar-me, mas permita-me perguntar-lhe: que há em tudo isto de particularmente criminoso de minha parte, se quiserem, bem entendido, apreciar as coisas naturalmente sem preconceitos? - Raskólnikov continuava a examiná-lo em silêncio. - Dir-me-á, o senhor, não é? que persegui em minha casa uma indefesa moça, insultando-a com propostas vergonhosas. (Vê o senhor que eu próprio vou ao ao encontro da acusação.) Mas considere somente que sou homem et nibil humanum..., em suma que sou suscetível de sofrer um arrebatamento, de apaixonar-me (coisa que não depende de nossa vontade) e dessa forma tudo se explica de maneira mais natural. Toda a questão é esta: sou um monstro ou uma vítima? Admitamos que seja uma vítima, pois, afinal de contas, quando eu propunha, ao objeto de meu desejo, que fugisse comigo para a América ou a Suíça, nutria talvez o sentimento mais respeitoso para com ela e eu precisava apenas garantir nossa felicidade comum. A razão é escrava da paixão. Era principalmente a mim mesmo que me arriscava a prejudicar...

- Não se trata disso, absolutamente - replicou Raskólnikov com desgosto. - Tenha razão ou não, o senhor é totalmente odioso, e nós nada queremos de comum com o senhor: ponha-se lá fora, ande!

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: CRIME E CASTIGO - VOLUME II
Clássicos Abril Coleções - 2010
págs. 11 e 12

Tradução Rosário Fusco

domingo, 22 de maio de 2011

A Gata Borralheira

Era uma vez uma menina muito meiga, tão meiga, que não havia quem não gostasse dela. Chamava-se Estelinha. Seus pais, humildes lavradores, a adoravam.
A fada da bondade protegia a menina, de tal sorte, que tudo quanto se podia imaginar de bom nela havia em abundância.
Tôda a vizinhança a conhecia e estimava. Em todo lugar estava ela para ajudar, e todos a queriam perto de si.
- Estelinha, no próximo domingo, você vai passear lá em casa, não vai?
Estelinha foi, assim, crescendo naquele lar modesto, onde primavam a ordem, o asseio, o sossêgo. Construída à beira de um bosque, a sua casinha branca era cercada de exuberante vegetação, a cuja sombra ela se sentia feliz.

O pai lavrava os campos que, abençoados pela mão de Deus, ofereciam-lhe abundantes colheitas. A mãe, extremamente caprichosa, dividia as suas atenções entre a filha querida e uma horta ao fundo do quintal, onde medrava curiosa planta...


Fonte: Coleção Clássicos da Juventude
Bôlsa Brasileira do Livro
págs. 9 e 10

terça-feira, 17 de maio de 2011

1984

1

ERA UM DIA FRIO E ENSOLARADO DE ABRIL, E OS RELÓGIOS
batiam treze horas. Winston Smith, o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero.


O saguão cheirava a repolho cozido e a capacho de trapos. Na parede do fundo fora pregado um cartaz colorido, grande demais para exibição interna. Representava apenas uma cara enorme, de mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, com espesso bigode preto e traços rústicos mas atraentes. Winston encaminhou-se para a escada. Inútil experimentar o elevador. Raramente funcionava, mesmo no tempo das vacas gordas, e agora a eletricidade era desligada durante o dia. Fazia parte da campanha de economia, preparatória da Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada acima do tornozelo direito, subiu devagar, descansando várias vezes no caminho. Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda parte. O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda.