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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Um giro no mundo - II

Grávida de sete meses de João Marcelo Bôscoli, hoje presidente da gravadora Trama, Elis entoou corajosamente na temporada do Canecão de 1970 as cartas musicais do exílio "Não Tenha Medo", de Caetano Veloso, e "Fechado pra Balanço", de Gilberto Gil, feitas exclusivamente para ela, antes opositora do Tropicalismo, agora solidária, como quase todos, aos baianos brutalmente deportados. As músicas foram incluídas no LP ...Em Pleno Verão, ao lado de "These Are The Songs", do novato Tim Maia, com quem ela cantava um dueto sugerido pelo produtor musical e jornalista Nelson Motta.

Na ocasião, Nelsinho fora convocado por André Midani, o onipresente presidente da Phillips, para produzir o disco e dirigir Elis em seu ímpeto de modernização de repertório e estética, emperrando de certa forma pela comunhão profissional e matrimonial com Ronaldo Bôscoli. Ainda que destituído do cargo quase vitalício, Bôscoli aprovara a ideia, afinal, o futuro produtor de sua mulher era, além de respeitado no meio musical, seu afilhado de casamento.

Já o casamento de Ronaldo com Elis assemelhava-se àquela altura mais a um duelo. Os dois aparentavam estar casados "contra" e não "com" o outro. As cenas de ciúmes eram públicas, como o lendário balde de gelo derramado na boate Flag por Elis sobre a intempestiva e portentosa Maysa - cantora constante da enorme lista de ex-namoradas de Bôscoli -, fato que provava a distante noção de perigo que tinha a Pimentinha.

Mesmo com a diminuição da área de atrito, o afastamento do conservador Ronaldo da produção musical não atenuara em nada o relacionamento inflamável de um casal que tinha uma diferença de 17 anos entre si.

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus


Afinados no mesmo desejo renovador dos vinte e poucos anos que ambos tinham, Nelson e Elis se deram bem demais em um relacionamento de trabalho completamente oposto ao pugilismo profissional com o marido dela. Nelson conta em seu livro Noites tropicais que, em um dos encontros para escolha de repertório, ele levara à casa da cantora a compositora Joyce, o namorado desta e mais uma convidada ilustre chamada mescalina - uma droga que, segundo o doidão pós-graduado Tim Maia, era uma espécie de LSD "orgânica".

Abandonados pelo casal visitante ao amanhecer, encobertos pela comunhão lisérgica e pela cumplicidade aconchegante de uma manta, rolou o beijo que detonaria um romance clandestinamente tórrido e que iria misturar alegria e culpa na mesma perigosa proporção. Com o affair ainda a pleno vapor naquele quase um ano de constante convivência nos estúdios e fora deles, em uma triste manhã de outubro em que Nelsinho já estava separado da mulher, Elis ligaria do hospital onde o marido estava internado por conta de uma crise depressiva. Na ligação, a amante, que estava na frente do marido, responsabilizou-o por todos os "boatos absurdos" sobre um suposto caso entre os dois. Logo depois Elis encerrou definitiva e abruptamente a ligação e todo e qualquer contato com Nelsinho. Estranhamente, Elis, que sempre na estética escolhera a liberdade da revolução, no amor acabara optando ali por permanecer na clausura do conservadorismo.

O compacto duplo lançado em 1970 com o petardo "Madalena", letra de Ronaldo Monteiro de Souza para melodia de Ivan Lins, que estourara no Brasil, plantava uma longa parceria entre a cantora e o compositor, parceria essa que se estenderia à telinha de TV, para onde Elis voltaria comandando com Ivan o programa Som Livre Exportação, e também na Globo estrearia o programa mensal Elis Especial, dirigido pelos renitentes Miele & Bôscoli.

Em 1971 sairia pela Phillips o disco Ela com o sucesso "Madalena" e "Black is Beautiful", um blues ousado dos irmãos Valle, bem afeito ao ideário hippie antirracista e miscigenado. Naquele ano, o arranjador, pianista e futuro marido, César Camargo Mariano, formaria com outros quatro músicos a base de seu show É Elis, ainda dirigido pela dupla Luiz Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli, de quem finalmente se separaria em 1972. É Elis traria novos compositores à cena, como Raimundo Fagner, João Bosco e Sueli Costa, firmando a vocação da cantora - que se tornaria tradicional - de revelar novos ou resgatar esquecidos valores da MPB.

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

domingo, 6 de novembro de 2011

Um giro pelo mundo

Elis voltou de sua primeira turnê de dois meses por Lisboa e Luanda em 1966 para lançar seu segundo álbum da fase madura. Em Elis, o disco daquele ano, já havia sinais da intérprete que viria a se tornar exuberante na próxima década, não só na técnica, emoção, timbre e afinação, mas principalmente na sabedoria em escolher repertório.

Naquele ano defendeu três músicas diferentes nos festivais da TV Record e da TV Rio, e lançou mais dois volumes do 2 na Bossa, um indo na direção da nova geração de Chico Buarque e Gilberto Gil no repertório, e outro engatando marcha a ré no tempo com um pot-pourri romântico que incluía canções de Roberto Menescal com o galã e seu ex-diretor no Beco das Garrafas, Ronaldo Bóscoli - com quem se casaria.

A artista termina 1966 com um show vibrante na boate Zum-Zum, no Rio de Janeiro, acompanhada por Baden Powell, o violão deste e composições inacreditáveis.

Como todos os novos intépretes de sua geração, em 1967 Elis seguia competindo em festivais. "O Cantador", de Dori Caymmi e Nelson Motta, foi para a finalíssima do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record e a própria Elis levou o título de Melhor Intérprete. No mesmo ano, a artista lançou com grande repercussão nacional o compacto de "Upa, Neguinho", da parceria Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, e outro compacto, com menos visibilidade, tinha "Travessia", que Milton Nascimento eternizara no mesmo ano.

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus


Ainda em 1967, Elis viaja para a feira musical Midem, apresentando-se em várias TVs europeias para, em 6 de março, estrear acompanhada pelo Bossa Jazz Trio no Olympia de Paris, bisando a temporada no final daquele ano. No Brasil, venceu a primeira Bienal do Samba com "Lapinha", de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, e integrou o júri internacional do III Festival Internacional da Canção da TV Globo, que deu a vitória a "Sábia", de Tom e Chico.

Em meados daquele 1968 de tantos acontecimentos, Elis foi a Londres gravar com o maestro inglês Peter Knight o disco Elis Regina in London, que só seria lançado no Brasil em 1972. Engatou registrando com o gaitista belga Toots Thielemans o LP Aquarela do Brasil, e ainda teve fôlego para lançar o brasuca Elis, Como & Porque, no qual, sobre a base moderna da combinação do piano de Antonio Adolfo e do agora guitarrista Roberto Menescal, revoluciona com coragem e talento ao dividir a faixa de abertura com um medley de "Aquarela do Brasil" e "Nega do Cabelo Duro", de Ary Barroso e da parceria de Rubens Soares e David Nasser. Isso sem falar em "O Barquinho", de Menescal e Bôscoli, navegando em águas jazzies e Baía de Guanabara.

Os sete fôlegos da Pimentinha - como o poeta Vinicius de Moraes a apelidara - ainda permitiram o show Elis com Miele & Bôscoli no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro, que viraria disco no ano seguinte, e um compacto em dueto com o Rei do Futebol, que se preparava para o triunfo canarinho de 1970. "Vexamão" e "Perdão Não Tem", ambas de autoria do craque, estão registradas em Tabelinha Pelé e Elis.

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Elis vira estrela

A hora da estrela do Sul chegaria em 1965. O ex-namorado Solano Ribeiro emplaca na TV Excelsior a ideia de um festival nos moldes do que era produzido em San Remo, mas, ao contrário do original italiano, sem pressão das multinacionais da música. A Rhodia, empresa que costumava dialogar com o mercado por meio de eventos que misturavam música e moda, aceitou patrocinar o Festival Nacional de Música Popular Brasileira, Festival da MPB para a imprensa. Essa seria uma das explicações para a sigla que viria identificar o estilo híbrido daquela geração nascente de artistas "pós-Bossa-Nova".
Por conta da diversidade e riqueza estilística dos meninos, que chegavam com heranças não só recentes, como a da sofisticação da Bossa Nova, mas também distantes, como a da era da Rádio Nacional, além de contemporâneas, como a do samba, marchas, ritmos nordestinos, toadas interioranas, e até um pouco mais à frente, com o rock e suas guitarras elétricas, a MPB até hoje é um gênero miscigenado, que não esteve e nem está ligado especificamente a qualquer ritmo. A MPB é tudo, mas, atenção: nem tudo é MPB.
A colisão de Elis com "Arrastão" seria uma espécie de big-bang do estilo, explodindo partículas de vida pelo universo da música em criação. Depois de um banho de imagem produzido pelo coreógrafo Lennie Dale, sagra-se vencedora do I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelcior com a música de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Sua imagem vibrante, já de cabelos cortados, girando os braços como um helicóptero no explosivo refrão da canção, arrebatou o Brasil em minutos.

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus


Da noite para o dia Elis se transformara em celebridade. A única coisa transitória surgida naquela noite foi mesmo o apelido gaiato de Hélice Regina para a estreante, que ainda voaria muito mais alto nos céus brasileiros . No momento zero de sua trajetória artística, Elis Regina já chegava trazendo a revolução: sua perfomance, combinada à melodia do novato Edu e à letra do poeta veterano, é considerada o tiro de misericórdia na já agonizante estética da Bossa Nova.
Dois dias depois da noite histórica, ela estrearia em São Paulo o show Elis, Jair e Jongo Trio, lançado ao vivo pela Phillips com o nome "marqueteiro" de 2 na Bossa. O disco foi um fenômeno de vendas e descolou para ela e Jair Rodrigues o programa O Fino da Bossa na TV Record, além de mais dois volumes para o projeto. Ainda no mesmo ano da explosão, Elis lançaria seu primeiro trabalho solo na nova gravadora, o disco Samba Eu Canto Assim, com um repertório politizado, que inseria nomes da ala esquerda do pensamento musical brasileiro, como Ruy Guerra, Carlos Lyra e Nelson Lins e Barros do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE.
Servindo de contraste, o diretor Manoel Carlos produziria um disco ao vivo refinadíssimo: O Fino do Fino sintetizava o melhor do encontro de Elis com o Zimbo Trio de Amilton Godoy (piano), Luiz Chaves (baixo) e Rubens Barsotti (bateria), ocorrido no Teatro da Rua da Consolação, dentro da TV Record e de sua programação especial dirigida pelo futuro novelista global.


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A menina do Beco

Em 1963, o cronista Sérgio Porto, dono do irreverente pseudônimo de Stalislaw Ponte Preta, escrevera em Autorretrato do artista quando não tão jovem que era um "boêmio que adora ficar em casa". Valendo-se desse lado notívago, ao saber que a vizinhança da rua Rodoldo Dantas, em Copacabana, atirava garrafas para afugentar boêmios e protestar contra o barulho que fazia certo reduto musical bossa-novista durante a madrugada, ele não titubeou: deu ao local o nome Beco das Garrafas.
Pegou. Em 1964, já na curva estética descendente da Bossa Nova, Elis Regina desembargava para assinar com a Phillips e com a TV Rio, e seria pelas mãos do bateirista-lenda Dom Um Romão, fera que nos deixou em 2005 tendo manejado as baquetas do seminal Copa Trio e do platinado Brasil 66, de Sergio Mendes, em seus melhores momentos. E assim a gauchinha entraria na fechada roda carioca do tal Beco das Garrafas.
Ma Griffe, Baccara, Little Club e Bottle's Bar: excetuando da lista um específico "inferninho" especializado em atividades menos elevadas que a música, eram basicamente esses os lugares que compunham o Beco. No (mini) backstage daquela cena atuava uma dupla criativa de boêmios chamada Miele & Bôscoli. O segundo nome da grife, Ronaldo Bôscoli, era o multitalentoso parceiro de Roberto Menescal em grandes clássicos da Bossa Nova, como "Barquinho". Ronaldo e Luís Carlos Miele faziam ali hora extra depois do expediente em uma agência de publicidade, inventando espetáculos musicais que pudessem ser encarados até em um banheiro de quitinete da babilônica Copacabana. Os pocket-shows, formato inventado pela dupla por necessidade, tinham de caber em micro-orçamentos de produção. Compensavam com criatividade: até canudos de cartolina eram usados para direcionar a luz sobre os artistas em cena. Valia tudo, desde que não se abrisse mão da elegância e do bom gosto característicos do gênero do amor, do sorriso e da flor.
O primeiro show de Elis no Beco, Bossa Três, não seria ainda dirigido pela dupla, mas pelo jornalista Renato Sérgio, tendo a participação do padrinho local, Dom Um Romão, e de Íris Lettiere, que, naquele espetáculo, em vez de partidas e chegadas de voos com as quais estamos habituados a ouvir sua voz hoje no aeroporto Santos Dumont, do Rio, leria poemas. A garota gaúcha chamou atenção da cena carioca, que mesmo já tendo sido destronada havia quatro anos do posto de capital da república pela biônica Brasília, ainda ditava moda, comportamento e tendências para o resto do Brasil.

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus


No mesmo ano, foi justamente no Rio de Janeiro que Elis acabou por arrumar um namorado paulistano. Solano Ribeiro, produtor musical da TV Excelsior, viera à Cidade Maravilhosa garimpar atrações para um evento, quando, do encontro com a cantora que já causava frisson, nasceu uma aproximação mais íntima. Solano teria seu nome marcado para sempre na história da MPB justamente por ser o idealizador dos festivais que, a partir de 1965, tomaram conta da audiência televisiva, tornando-se mania nacional.
Antes disso, Elis seria finalmente dirigida por Miele & Bôscoli no Beco das Garrafas. O primeiro contato de Ronaldo e Luís Carlos com Elis foi auditivo. De passagem por uma loja de discos, ouviram uma voz que impressionava tanto pela qualidade quanto pela total ausência dela no repertório. Conferiram na capa a dona da voz, e chegaram à conclusão que dali poderia surgir algo, mas a balconista informou que a menina morava no Sul, então os dois esqueceram o caso.
Tempos depois, a dupla é capturada pela energia transbordante de sua perfomance no show de estreia do Beco, e rapidamente toma conta da situação. No entanto, logo descobriram que não iria ser fácil "domar" a fera. A moça não gostava do horário desconfortável dos ensaios, que começavam por volta das 23h30, por conta dos compromissos diurnos de seus diretores. Depois da estreia, já com o estouro de uma temporada superlotada, era a vez de Elis eventualmente faltar às apresentações das sextas-feiras ou sábados, segundo relatos de Bôscoli, para fazer shows que o pai marcara clandestinamente. Logo Elis seria seduzida por São Paulo, deixando o Rio para se hospedar provisoriamente no sofá do empresário Marcos Lázaro na capital paulista, enquanto sua família voltava para Porto Alegre.


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

domingo, 23 de janeiro de 2011

O golpe e a sorte

Em 1964, a artista transfere-se de vez para o Rio de Janeiro. Esteticamente, Elis faria nesse período um curioso inverso ao de Roberto Carlos: o cantor, que começava imitando João Gilberto, influenciado pela eminência parda Carlos Imperial, acabara por se entregar à sua vocação pop-romântica, tornando-se Rei da Jovem Guarda. Elis, antes intérprete de roquinhos e baladas adolescentes, detonaria sua ruptura estética na direção que a tornaria uma representante do melhor e mais autêntico que a música brasileira produziria nas próximas décadas.
O Brasil de 1964 era uma panela de pressão política que explodiria sua bomba reacionária no exato dia em que Elis e seu pai colocaram os pés em terras cariocas, em 31 de março de 1964. Durante o trajeto de Porto Alegre até o Rio de Janeiro, uma carta que deveria ser de recomendação do Partido Trabalhista Brasileiro para que seu Romeu arranjasse um emprego no governo João Goulart perdeu seu efeito benéfico e transformava-se, assim, em praticamente uma confissão subversiva incriminadora, que colocava toda a responsabilidade de sustentar a família, agora em duas cidades, nas costas da jovem Elis.
O golpe militar era um desfecho trágico para uma crise política que se arrastava no país desde a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O vice, João Goulart, assumira a presidência em um clima político adverso, instaurando um governo de perfil populista que abria espaço para a manifestação estudantil, de organizações populares e de sindicatos, irritando empresários, Igreja, banqueiros, militares, a classe média e, principalmente, os ianques. No auge da Guerra Fria e da ascensão do socialismo moreno em Cuba, todos receavam que o Brasil curvasse para a esquerda sua trajetória ideológica.
Sem apoio parlamentar, no dia 13 de março de 1964, Jango busca respaldo popular, fazendo um comício histórico na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, no qual defende reformas de base que prometiam mudanças radicais na estrutura econômica, educacional e agrária do país. Seis dias depois, a primeira resposta conservadora veio por meio da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, reunindo milhares nas ruas do centro de São Paulo, enquanto a insegurança se espalhava velozmente pela sociedade brasileira como um todo.
Em nome da manutenção da "ordem social e das instituições", no dia 31 de março de 1964 - enquanto Elis Regina e o pai desfaziam as malas no apertado apartamento alugado da rua Figueiredo Magalhães, no coração de Copacabana -, tropas do Exército ganhavam as ruas, tomando o poder através de um truculento golpe militar.
Era cada um por si e não havia tempo a perder. Elis foi então pessoalmente cobrar de Armando Pittigliani a promessa de contratá-la para a emergente Phillips/Phonogram pré-emepebista. O grande caçador de talentos, como era de seu feitio, honrou a promessa e, para felicidade da nação musical brasileira, finalmente a carreira de Elis começava a entrar nos trilhos.
Dois meses depois, recomendada por Paulo Gracindo, a artista assina contrato com a TV Rio para apresentar-se no programa Noite de Gala ao lado de outros nomes insurgentes, como Jorge Ben (depois Ben Jor) e Wilson Simonal.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A estrela do Sul

Pouco depois das três da tarde de um sábado em 17 de março de 1945 nascia, sob o signo de Peixes, uma nova estrela na constelação do Cruzeiro do Sul do país: Elis Regina Carvalho Costa.
O Hospital da Beneficência Portuguesa de Porto Alegre foi o palco de onde Ercy Carvalho Costa, filha de imigrantes portugueses donos de uma mercearia, e Romeu Costa, chefe do almoxarifado da Companhia Sulbrasileira de Vidros, presenciaram a chegada de seu primeiro rebento: uma linda gauchinha que nascera portadora de diplopia, ou visão dupla, um problema que atinge menos de 5% da população infantil pré-escolar. Caracteriza-se por um desvio ocular conhecido popularmente como estrabismo. Os óculos que a pequenina Elis teria de usar a partir dos 4 anos não a impediram, porém, de enxergar o futuro que iria obstinadamente construir.
O nome Elis fora inspirado em xará, amiga de D. Ercy; Regina era imposição dos cartórios, que, na época, não permitiam o registro de nomes aplicáveis a ambos os sexos sem um complemento que evidenciasse o gênero do bebê.
A família Costa residia em uma casa simples do bairro de Navegantes, em Porto Alegre, onde a menina passaria boa parte de sua infância ouvindo a programação musical da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. No domingo, ao meio-dia, havia o programa Quando os Ponteiros se Encontram, do cantor Francisco Alves, o Chico Viola, de quem seu Romeu era fã. A garota também escutava a Rádio Belgrano, de Buenos Aires, em que Carlos Gardel era figurinha fácil na programação portenha, outra preferência do pai. Seu Romeu, por sua vez, justificava a afinidade musical com seus próprios dotes artísticos, que haviam proporcionado a ele na juventude um honroso segundo lugar em um programa de calouros. Esses dotes insurgiram vez por outra na exibição de seu talento de dançarino amador sob a proteção do ambiente doméstico. Pois foi em um almoço de família na casa da avó materna, Ana, como sempre musical, ruidoso e animado, que a mãe de D. Ercy deu a sugestão: ¨por que não levar Elis ao Clube do Guri?". A menina a essa altura já cantava as canções "Adiós" e "Pampa Mia" sem errar a pronúncia, a letra ou a melodia - um prodígio para seus 7 anos de idade.



O Clube do Guri era um programa infantil dominical comandado por Ary Rego na Farroupilha, rádio porto-alegrense. E para lá foi D. Ercy com a menina a tiracolo, dois domingos seguidos, até conseguir a suada apresentação da filha. Mas o primeiro contato com a mídia foi traumático para a tímida Elis, acostumada a exibir seu talento apenas no aconchego familiar. Intimidada pela plateia e assustada com o ambiente estranho, não conseguiu articular sequer um vocábulo, que dirá cantar. Então lá se foi D. Ercy, levando de volta para casa, além da filha, uma grande frustação.
Elis era uma aluna excelente desde os primeiros anos de escola, em uma combinação de boas notas e dotes artísticos dificilmente vista na história dos grandes gênios da música brasileira. Foi nessa época, em 1952, que se mudou com a família - aumentada com a chegada do irmão Rogério, cinco anos mais novo - para um conjunto residencial de funcionários da indústria no norte da cidade. Era um apartamento térreo que tinha um espaçoso quintal, localizado em uma vizinhança verde, com direito a figueira e campo de futebol bem em frente.
Nessa época a empresa em que seu Romeu trabalhava repentinamente faliu, e o patriarca passou a peregrinar pelas atividades de representante comercial, dono de açougue, dono de açougue e feirante, todas sem sucesso, o que o fez mergulhar numa instrospecção e um pessimismo que o afastariam dos filhos.
Enquanto isso, aos 9 anos, Elis aprofundava seu mergulho musical nas lições de piano com uma vizinha do conjunto residencial chamada Waleska. Sentindo-se mais segura, pediu à mãe uma nova chance no Clube do Guri. Dessa vez não teve erro, a menina arrebentou. Dos 11 aos quase 14 anos, seria presença dominical do dial farroupilha. Já nessa época, um precoce perfeccionismo aumentava a insegurança de entrar em cena, mas, uma vez ali, tirava os óculos, fechava os olhos, sorria e se entregava à música praticamente em transe.
Em 1959, quando João Gilberto já era febre nacional entre os sofisticados jovens cariocas e paulistanos, o Clube do Guri tornara-se pequeno para o crescimento artístico da cantora, e ela, ainda na provinciana Porto Alegre, assinava com o Programa Maurício Sobrinho, na Rádio Gaúcha, por 50 cruzeiros por mês. Antes, portanto, de 1968 inverter os polos da moral e dos bons costumes mundiais, configurava-se o constrangimento: uma menina de 14 anos sustentar a casa, ganhando com a vida "marginal" de artista mais que o próprio pai.


Talvez por isso, cursando o ginásio no tradicional instituto de Educação Flores Cunha, a professora de francês a tenha chamado "mau elemento", fazendo com que D. Ercy subisse nas tamancas para forçar a transferência da professora. Assim Elis terminaria em paz o ginasial. De uma condição, porém, a família não abria mão: se quisesse continuar cantando, suas notas deveriam permanecer altas. O futuro profissional de Elis, que todos esperavam - incluindo ela própria -, seria o magistério, e não o palco, algo visto apenas como hobby. No meio do curso clássico, porém, um esgotamento nervoso surgiu e a adolescente entrou em colapso. Os deuses da música forçavam passagem.
Aos 15 anos, em 1961, a debutante na vida e na carreira fonográfica ia ao Rio de Janeiro pela primeira vez, já com a devida autorização materna, para, de salto alto e unhas pintadas, gravar seu primeiro disco. Era um compacto com as faixas "Dá Sorte" e "Sonhando", antecipando parte do LP Viva a Brotolândia, pela Continental, produzido por Nazareno de Brito. Uma das canções tinha a assinatura do compositor e agitador cultural Carlos Imperial, que se frustaria ao tentar criar, a partir da cantorinha gaúcha, uma nova Celly Campello. Ainda assim Elis seria coroada Rainha do Disco Clube.
Já de volta à capital gaúcha, Elis lançaria, em 1962, seu segundo LP pela Continental, Poema. Aos 17 anos, amadurecia como crooner do conjunto local Flamboyant. No ano seguinte, iria para a gravadora CBS registrar dois LPs: Ellis Regina (isso mesmo, com dois "Ls") e O Bem do Amor, ambos sem projeção nacional e ainda radicalmente opostos ao repertório que a transformaria em uma das maiores porta-vozes da MPB.