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domingo, 8 de dezembro de 2013

ALÉM DE QUALQUER FRONTEIRA

Poucos quadrinhistas europeus fascinaram tanto os leitores como o francês Jean Giraud, que ganhou fama sob o pseudônimo Moebius

Por Mauricio Muniz


Ficção científica. Fantasia. Faroeste. Super-heróis. O ilustrador e roteirista Jean Giraud dominou praticamente todos os gêneros de quadrinhos e ainda se aventurou pelo mundo do cinema e dos livros. Falecido em março, foi um dos artistas mais completos e mais influentes que as HQs já tiveram. Obras como Blueberry, Arzach e Incal não só conquistaram uma legião de fãs, mas extrapolaram alguns limites da própria linguagem narrativa.

Nascido em um subúrbio na região leste de Paris em 8 de maio de 1938, Jean Henri Gaston Giraud passou por um trauma logo aos três anos de idade, quando seus pais se divorciaram e seguiram rumos distintos. Na ausência deles, o menino ficou sob os cuidados dos avós, que o criaram por mais de uma década. Para distrair o garoto da triste situação, o casal passou a presenteá-lo com gibis. Logo, o pequeno Jean já copiava os desenhos. Com o passar dos anos, aperfeiçoou seu traço e tornou-se um bom artista amador. Foi aí que surgiram suas primeiras HQs, geralmente relatos pessoais que, talvez por timidez ou insegurança, ele mostrava a poucas pessoas.

Segundo revelou em uma entrevista dada ao Comics Journal, em 1987, aos 14 anos Giraud já tinha planos de desenhar quadrinhos pelo resto da vida. Em 1954, aos 16 anos, matriculou-se em um curso de desenho na tradicional École Nationale Supérieure des Arts Appliqués, em Paris. Esse curso de um ano foi o único aprendizado artístico convencional que teria em sua longa, prolífera e criativa carreira.


MUNDO DOS SUPER-HERÓIS #32 - Abril de 2012 - Editora Europa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CALLAS (Maria)

Maria Callas

(Maria Kalogheropulos), cantora grega (Nova York, 2 de dezembro de 1923 - Paris, 16 de setembro de 1977). Desde o início de sua carreira no Scala de Milão, em 1950, foi a cantora mais célebre de sua época, impondo uma personalidade vocal e interpretativa que influenciou sua geração. Despediu-se do palco no Covent Garden, em 1965. Seus papéis mais famosos foram: Norma (Bellini), Violetta (La traviata, Verdi), Medéia (Cherubini), Elvira (I puritani, Bellini) e Lucia di Lammermoor (Donizetti).

Fonte: Grande Enciclopédia Larousse Cultural - Nova Cultural - 1998
págs. 1063-1064

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

RONIS (Willy)


fotógrafo francês (Paris 1910). Um olhar caloroso e melancólico, imagens simples suavemente iluminadas caracterizaram sua obra: Belleville Ménilmontant (1954), em colaboração com Pierre Mac Orlan, e Au fil du hasard (1980).

Fonte: Grande Enciclopédia Larousse Cultural - Nova Cultural - 1998
pág. 5129

domingo, 6 de novembro de 2011

Um giro pelo mundo

Elis voltou de sua primeira turnê de dois meses por Lisboa e Luanda em 1966 para lançar seu segundo álbum da fase madura. Em Elis, o disco daquele ano, já havia sinais da intérprete que viria a se tornar exuberante na próxima década, não só na técnica, emoção, timbre e afinação, mas principalmente na sabedoria em escolher repertório.

Naquele ano defendeu três músicas diferentes nos festivais da TV Record e da TV Rio, e lançou mais dois volumes do 2 na Bossa, um indo na direção da nova geração de Chico Buarque e Gilberto Gil no repertório, e outro engatando marcha a ré no tempo com um pot-pourri romântico que incluía canções de Roberto Menescal com o galã e seu ex-diretor no Beco das Garrafas, Ronaldo Bóscoli - com quem se casaria.

A artista termina 1966 com um show vibrante na boate Zum-Zum, no Rio de Janeiro, acompanhada por Baden Powell, o violão deste e composições inacreditáveis.

Como todos os novos intépretes de sua geração, em 1967 Elis seguia competindo em festivais. "O Cantador", de Dori Caymmi e Nelson Motta, foi para a finalíssima do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record e a própria Elis levou o título de Melhor Intérprete. No mesmo ano, a artista lançou com grande repercussão nacional o compacto de "Upa, Neguinho", da parceria Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, e outro compacto, com menos visibilidade, tinha "Travessia", que Milton Nascimento eternizara no mesmo ano.

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus


Ainda em 1967, Elis viaja para a feira musical Midem, apresentando-se em várias TVs europeias para, em 6 de março, estrear acompanhada pelo Bossa Jazz Trio no Olympia de Paris, bisando a temporada no final daquele ano. No Brasil, venceu a primeira Bienal do Samba com "Lapinha", de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, e integrou o júri internacional do III Festival Internacional da Canção da TV Globo, que deu a vitória a "Sábia", de Tom e Chico.

Em meados daquele 1968 de tantos acontecimentos, Elis foi a Londres gravar com o maestro inglês Peter Knight o disco Elis Regina in London, que só seria lançado no Brasil em 1972. Engatou registrando com o gaitista belga Toots Thielemans o LP Aquarela do Brasil, e ainda teve fôlego para lançar o brasuca Elis, Como & Porque, no qual, sobre a base moderna da combinação do piano de Antonio Adolfo e do agora guitarrista Roberto Menescal, revoluciona com coragem e talento ao dividir a faixa de abertura com um medley de "Aquarela do Brasil" e "Nega do Cabelo Duro", de Ary Barroso e da parceria de Rubens Soares e David Nasser. Isso sem falar em "O Barquinho", de Menescal e Bôscoli, navegando em águas jazzies e Baía de Guanabara.

Os sete fôlegos da Pimentinha - como o poeta Vinicius de Moraes a apelidara - ainda permitiram o show Elis com Miele & Bôscoli no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro, que viraria disco no ano seguinte, e um compacto em dueto com o Rei do Futebol, que se preparava para o triunfo canarinho de 1970. "Vexamão" e "Perdão Não Tem", ambas de autoria do craque, estão registradas em Tabelinha Pelé e Elis.

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

sábado, 29 de outubro de 2011

ALEXANDRE DUMAS



Pouco entendeu do texto, mas sentiu que estava diante de uma obra-prima. Algo de novo, ainda inexistente na França. Shakespeare o deslumbrava, mas chegara a hora de acabar com as representações das tragédias clássicas francesas. Queria ver no palco a explosão de todos os sentimentos, fazer a platéia prender a respiração ante uma complicada cena de amor ou de ódio. Faltava-lhe tão-somente um bom assunto. Haveria de encontrá-lo casualmente numa exposição de escultura em Paris, num baixo-relevo que representava o assassinato de Giovanni Monaldeschi, por ordem da rainha Cristina da Suécia.

Alexandre Dumas não sabia quem era Monaldeschi, tampouco ouvira falar na rainha, e, homem feito, foi obrigado a consultar a Biografia Universal, dicionário de personalidades históricas, para descobrir quem era Monaldeschi. Soube assim que hora o amante de Cristina da Suécia. Com ciúme dos favores dispensados pela amante a outro cavalheiro italiano, Sentinelli, Monaldeschi escreveu a Cristina uma série de cartas injuriosas, imitando a letra do rival. Descoberta a intriga, a soberana ordenou a seu novo amor que executasse Monaldeschi no pátio de Fontainbleau, presenciando o espetáculo. Munido dessas informações sumárias, escreveu o drama Cristina, que pretendia fosse representado no teatro mais famoso e exigente da época, o Comédie-Française.

Sabia das dificuldades que o esperavam. Coragem, orgulho, autoconfiança, entretanto, sempre foram os traços marcantes de seu caráter. Nada o intimidava.

Paris entrara em seus sonhos desde o dia em que chegara à sua casa certo Auguste Lafarge. Impressionaram-no a elegância do rapaz, sua loquacidade, seus versos e, sobretudo, a descrição de uma cidade de luzes e festas, onde a glória e o dinheiro pareciam fáceis.



Em Villers-Cotterêts Dumas pediu permissão à mãe para ir morar em Paris. Queria tentar o teatro. Confiando a um amigo o desejo de escrever uma peça e conquistar a fama, foi aconselhado a aprimorar sua cultura literária, ler muito, aprender vários idiomas, conhecer grandes autores estrangeiros antes de partir.

Aprendeu alemão e italiano sem muito esforço. Com a ajuda de Lafarge traduziu o romance Jacopo Ortis, de Foscolo, e leu Werther, de Goethe.

A certeza de que sua verdadeira vocação era escrever para o teatro fortaleceu-se quando um grupo de atores apareceu em Soissons, cidade próxima a Villers-Cotterêts. A representação de Hamlet, de Shakespeare, arrebatou Dumas.

Mais que a intricada análise de sentimentos e a inquietação revelada pelos personagens, encantaram-no a liberdade da construção dramática e o emprego de elementos grotescos.



Saiu do espetáculo convencido de que poderia criar algo igual ou melhor. Seu amigo Adolphe de Leuven, nobre sueco refugiado na França, frequentador habitual dos mais famosos teatros parisienses, ofereceu-se para colaborar, e ambos escreveram uma pequena peça em um ato: O Major de Strasburgo. Pouco depois Leuven voltou a Paris, onde morava, deixando o jovem ansioso por segui-lo e poder conquistar a capital.

A sra. Dumas não opôs resistência ao desejo do filho. Juntou o último dinheiro que lhe restava e fez-lhe as malas.

Alexandre chegou em Paris em 1822, com apenas vinte anos de idade, pouca instrução e nenhuma experiência. Precisava arrumar um emprego. Procurou Adolphe, em busca de três ou quatro endereços de ex-companheiros de seu pai.

Nem todos o atenderam. Um até duvidou de sua identidade, mas o último, o general Foy, o recebeu, lembrando com saudade o amigo desaparecido. Perguntou-lhe o que sabia fazer. Dumas disse-lhe honestamente que não conhecia matemática, ignorava por completo o que era álgebra ou contabilidade e não fizera curso de Direito. O general prometeu chamá-lo quando soubesse de alguma possível colocação. Ao ver, porém, a bela caligrafia com que desenhou o nome da rua e o número, teve uma ideia: o rapaz poderia trabalhar como secretário do duque de Orléans, futuro rei Luís Filipe. O emprego não só lhe garantiria a subsistência em Paris como também lhe haveria de abrir caminho para o Comédie-Française.



Todos os meses um funcionário do teatro ia levar entradas para o duque de Orléans, e, numa dessas ocasiões, Dumas resolveu interpelá-lo a respeito de como poderia fazer representar sua Cristina. O funcionário lhe esclareceu ser preciso submeter o manuscrito ao julgamento de uma comissão encarregada de leitura e aguardar o resultado. Alexandre não queria esperar nada. Sempre resolvera as coisas rapidamente, como com Catarina Labay, a costureirinha do prédio vizinho. Logo que a conheceu, tornou-a sua amante e teve um filho com ela antes que completasse um ano de namoro. Esse filho também se tornaria célebre: Alexandre Dumas, autor de A Dama das Camélias. Repentinamente chefe de família, teve de mudar-se para um apartamento maior, com Catarina e o menino.

Mas continuou tramando o meio de estrear no mundo do teatro. "O senhor poderá apressar as coisas", disse-lhe o funcionário, "se conseguir a mediação do barão Taylor", inglês nascido na Bélgica, naturalizado francês, amigo de Victor Hugo, comissário real do Comédie. Como fazer para entrar em contato com tão ilustre personalidade? Alexandre conhecera acidentalmente o escritor Charles Nodier, e graças a ele a leitura da peça foi antecipada. A comissão deliciou-se com aqueles cinco atos cheios de peripécias, ainda que não muito fiéis à verdade histórica. Vencera a primeira etapa. Restava-lhe outra, mais difícil: enfrentar a senhorita Mars, atriz principal do elenco permanente do Comédie.

Lidar com as mulheres de modo geral não o preocupava. Era um prazer e uma arte, na qual Alexandre era perito. Entre um verso e outro, envolvia-se num caso amoroso, apesar dos protestos de Catarina Labay. Com a atriz não deu certo. Velha, queria parecer moça. Educada na escola clássica, não queria saber de gritos nem de choros. Abominava o crime e o sangue apresentados em cena. Positivamente, não podia aprovar o que considerava de mau gosto no drama de Dumas. Ordenou-lhe modificações; ele se recusou a fazê-las e ela abandonou o papel. Romperam relações, tornaram-se inimigos. Cristina foi para a gaveta. Dumas no entanto, já havia posto os pés no Comédie.

Precisava encontrar logo outro assunto. Achou-o mais ou menos ao acaso, ao ouvir, durante uma conversa, um fato que ocorrerá no reinado de Henrique III. Marcado pela influência do escocês Walter Scott, que escrevia romances históricos após cuidadosas pesquisas, Dumas leu mais dois livros sobre o assassinato da bela duquesa de Guise por seu marido Henri ao ser surpreendida em adultério. Com mais alguns dados sobre a época, a sua fértil imaginação fez nascer uma peça cheia de colorido, de ambientação histórica, de emoção, que, se não chega a ser uma obra-prima, tem o mérito de haver iniciado o teatro romântico na França: Henrique III e Sua Corte, levada à cena pela primeira vez, no Comédie-Française, em 11 de fevereiro de 1829.



Além do sucesso, Alexandre Dumas levou, da estreia, o coração da jovem atriz Virgínia Bourbier e a alegria de ver presentes no espetáculo o duque de Orléans e toda a sua comitiva. Os direitos de imprimir Henrique III foram vendidos por uma soma assombrosa. Diante do êxito, retirou da gaveta Cristina, reescreveu-a, mudou-lhe o título (Estocolmo, Fontainebleau, Roma) e a fez representar. O triunfo foi absoluto.

Paris encontrava-se em plena ebulição cultural e política, em virtude das novas ideias que o Romantismo trouxera para todos os campos do conhecimento humano.