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sábado, 29 de outubro de 2011

ALEXANDRE DUMAS



Pouco entendeu do texto, mas sentiu que estava diante de uma obra-prima. Algo de novo, ainda inexistente na França. Shakespeare o deslumbrava, mas chegara a hora de acabar com as representações das tragédias clássicas francesas. Queria ver no palco a explosão de todos os sentimentos, fazer a platéia prender a respiração ante uma complicada cena de amor ou de ódio. Faltava-lhe tão-somente um bom assunto. Haveria de encontrá-lo casualmente numa exposição de escultura em Paris, num baixo-relevo que representava o assassinato de Giovanni Monaldeschi, por ordem da rainha Cristina da Suécia.

Alexandre Dumas não sabia quem era Monaldeschi, tampouco ouvira falar na rainha, e, homem feito, foi obrigado a consultar a Biografia Universal, dicionário de personalidades históricas, para descobrir quem era Monaldeschi. Soube assim que hora o amante de Cristina da Suécia. Com ciúme dos favores dispensados pela amante a outro cavalheiro italiano, Sentinelli, Monaldeschi escreveu a Cristina uma série de cartas injuriosas, imitando a letra do rival. Descoberta a intriga, a soberana ordenou a seu novo amor que executasse Monaldeschi no pátio de Fontainbleau, presenciando o espetáculo. Munido dessas informações sumárias, escreveu o drama Cristina, que pretendia fosse representado no teatro mais famoso e exigente da época, o Comédie-Française.

Sabia das dificuldades que o esperavam. Coragem, orgulho, autoconfiança, entretanto, sempre foram os traços marcantes de seu caráter. Nada o intimidava.

Paris entrara em seus sonhos desde o dia em que chegara à sua casa certo Auguste Lafarge. Impressionaram-no a elegância do rapaz, sua loquacidade, seus versos e, sobretudo, a descrição de uma cidade de luzes e festas, onde a glória e o dinheiro pareciam fáceis.



Em Villers-Cotterêts Dumas pediu permissão à mãe para ir morar em Paris. Queria tentar o teatro. Confiando a um amigo o desejo de escrever uma peça e conquistar a fama, foi aconselhado a aprimorar sua cultura literária, ler muito, aprender vários idiomas, conhecer grandes autores estrangeiros antes de partir.

Aprendeu alemão e italiano sem muito esforço. Com a ajuda de Lafarge traduziu o romance Jacopo Ortis, de Foscolo, e leu Werther, de Goethe.

A certeza de que sua verdadeira vocação era escrever para o teatro fortaleceu-se quando um grupo de atores apareceu em Soissons, cidade próxima a Villers-Cotterêts. A representação de Hamlet, de Shakespeare, arrebatou Dumas.

Mais que a intricada análise de sentimentos e a inquietação revelada pelos personagens, encantaram-no a liberdade da construção dramática e o emprego de elementos grotescos.



Saiu do espetáculo convencido de que poderia criar algo igual ou melhor. Seu amigo Adolphe de Leuven, nobre sueco refugiado na França, frequentador habitual dos mais famosos teatros parisienses, ofereceu-se para colaborar, e ambos escreveram uma pequena peça em um ato: O Major de Strasburgo. Pouco depois Leuven voltou a Paris, onde morava, deixando o jovem ansioso por segui-lo e poder conquistar a capital.

A sra. Dumas não opôs resistência ao desejo do filho. Juntou o último dinheiro que lhe restava e fez-lhe as malas.

Alexandre chegou em Paris em 1822, com apenas vinte anos de idade, pouca instrução e nenhuma experiência. Precisava arrumar um emprego. Procurou Adolphe, em busca de três ou quatro endereços de ex-companheiros de seu pai.

Nem todos o atenderam. Um até duvidou de sua identidade, mas o último, o general Foy, o recebeu, lembrando com saudade o amigo desaparecido. Perguntou-lhe o que sabia fazer. Dumas disse-lhe honestamente que não conhecia matemática, ignorava por completo o que era álgebra ou contabilidade e não fizera curso de Direito. O general prometeu chamá-lo quando soubesse de alguma possível colocação. Ao ver, porém, a bela caligrafia com que desenhou o nome da rua e o número, teve uma ideia: o rapaz poderia trabalhar como secretário do duque de Orléans, futuro rei Luís Filipe. O emprego não só lhe garantiria a subsistência em Paris como também lhe haveria de abrir caminho para o Comédie-Française.



Todos os meses um funcionário do teatro ia levar entradas para o duque de Orléans, e, numa dessas ocasiões, Dumas resolveu interpelá-lo a respeito de como poderia fazer representar sua Cristina. O funcionário lhe esclareceu ser preciso submeter o manuscrito ao julgamento de uma comissão encarregada de leitura e aguardar o resultado. Alexandre não queria esperar nada. Sempre resolvera as coisas rapidamente, como com Catarina Labay, a costureirinha do prédio vizinho. Logo que a conheceu, tornou-a sua amante e teve um filho com ela antes que completasse um ano de namoro. Esse filho também se tornaria célebre: Alexandre Dumas, autor de A Dama das Camélias. Repentinamente chefe de família, teve de mudar-se para um apartamento maior, com Catarina e o menino.

Mas continuou tramando o meio de estrear no mundo do teatro. "O senhor poderá apressar as coisas", disse-lhe o funcionário, "se conseguir a mediação do barão Taylor", inglês nascido na Bélgica, naturalizado francês, amigo de Victor Hugo, comissário real do Comédie. Como fazer para entrar em contato com tão ilustre personalidade? Alexandre conhecera acidentalmente o escritor Charles Nodier, e graças a ele a leitura da peça foi antecipada. A comissão deliciou-se com aqueles cinco atos cheios de peripécias, ainda que não muito fiéis à verdade histórica. Vencera a primeira etapa. Restava-lhe outra, mais difícil: enfrentar a senhorita Mars, atriz principal do elenco permanente do Comédie.

Lidar com as mulheres de modo geral não o preocupava. Era um prazer e uma arte, na qual Alexandre era perito. Entre um verso e outro, envolvia-se num caso amoroso, apesar dos protestos de Catarina Labay. Com a atriz não deu certo. Velha, queria parecer moça. Educada na escola clássica, não queria saber de gritos nem de choros. Abominava o crime e o sangue apresentados em cena. Positivamente, não podia aprovar o que considerava de mau gosto no drama de Dumas. Ordenou-lhe modificações; ele se recusou a fazê-las e ela abandonou o papel. Romperam relações, tornaram-se inimigos. Cristina foi para a gaveta. Dumas no entanto, já havia posto os pés no Comédie.

Precisava encontrar logo outro assunto. Achou-o mais ou menos ao acaso, ao ouvir, durante uma conversa, um fato que ocorrerá no reinado de Henrique III. Marcado pela influência do escocês Walter Scott, que escrevia romances históricos após cuidadosas pesquisas, Dumas leu mais dois livros sobre o assassinato da bela duquesa de Guise por seu marido Henri ao ser surpreendida em adultério. Com mais alguns dados sobre a época, a sua fértil imaginação fez nascer uma peça cheia de colorido, de ambientação histórica, de emoção, que, se não chega a ser uma obra-prima, tem o mérito de haver iniciado o teatro romântico na França: Henrique III e Sua Corte, levada à cena pela primeira vez, no Comédie-Française, em 11 de fevereiro de 1829.



Além do sucesso, Alexandre Dumas levou, da estreia, o coração da jovem atriz Virgínia Bourbier e a alegria de ver presentes no espetáculo o duque de Orléans e toda a sua comitiva. Os direitos de imprimir Henrique III foram vendidos por uma soma assombrosa. Diante do êxito, retirou da gaveta Cristina, reescreveu-a, mudou-lhe o título (Estocolmo, Fontainebleau, Roma) e a fez representar. O triunfo foi absoluto.

Paris encontrava-se em plena ebulição cultural e política, em virtude das novas ideias que o Romantismo trouxera para todos os campos do conhecimento humano.

sábado, 21 de maio de 2011

Sete décadas agitadas

No ano da Revolução Russa, 1917, e um ano antes do término da Primeira Guerra Mundial, nasce Antônio Carlos Callado. Época em que o capitalismo se fortalece e, ao mesmo tempo, o mundo testemunha a primeira proposta concreta de uma sociedade comunista.


Fonte: Literatura Comentada - Antônio Callado
Nova Cultural - 1988
pág. 9

domingo, 15 de maio de 2011

Dostoiévski

O AUTOR

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski - Fiéda, como lhe chamavam - nasceu, em 30 de outubro de 1821, em Moscou. Seu pai era médico no Hospital Marínski para os Pobres, no subúrbio da cidade, e a família, e a família morava em um apartamento cujas janelas davam para o pátio do hospital. Conta-se que seu pai vinha de uma nobre família rural lituana; no entanto, o próprio escritor chegou a dizer que não pertencia à pequena nobreza rural, como anota o crítico Joseph Frank em As sementes da revolta, que é o primeiro dos cinco volumes da biografia sobre o autor russo. Era uma maneira de se diferenciar de seu grande rival literário, Tolstói. Para Dostoiévski, o autor de Anna Kariênina descreveu a vida "tranquila, estável e imutável das famílias dos grandes proprietários dos estratos superiores de Moscou".
Algumas biografias do escritor costumam retratar a vida familiar dos Dostoiévski como infernnal, principalmente por causa da figura austera do pai. Frank coloca em dúvida essa versão, que foi, de certa maneira, divulgada pelo ensaio "Dostoiévski e o parricídio", de Sigmund Freud, um estudo clássico e muito conhecido sobre o autor de Crime e castigo. Segundo o biógrafo, o psicanalista pode ter forçado a mão ao relacionar esse clima à epilepsia, que acompanhou o autor russo desde a juventude, e aos "supostos impulsos parricidas de Dostoiévski": "O artigo de Freud contém algumas observações argutas e penetrantes sobre a personalidade de Dostoiévski, masoquista e dominada pelo sentimento de culpa, mas o caso clínico que ele construiu numa tentativa de explicá-lo em termos psicanalíticos é pura ficção", anota Joseph Frank.

Fonte:
Crime e Castigo - Volume I
Fiódor Dostoiévski
págs. 378 e 379

Clássicos Abril Coleções

terça-feira, 10 de maio de 2011

Sob o reinado de Isabel

Quem é Jacinto Benavente? É, antes de tudo, um homem que viveu muito, pois só morreu em 1954; mas nasceu em 1866, sob o reinado de uma mulher, Isabel II, filha de Fernando VII - aliás na véspera do exílio -, numa capital ainda sacudida das perturbações suscitadas pelo General Prim e envenenada por uma epidemia de cólera. Era o tempo em que, em Paris, Napoleão III prosseguia, entre festas e bailes, numa política de expedientes e de riscos que o levaria ao desastre de 1870. Tudo isso terá certo ar antiquado, que não é sem encanto, mas explica, ao mesmo tempo, que Benavente tivesse ocasião, desde aquela data longínqua, de ver e de assimilar muitas coisas! E não é isto o essencial para um teatrólogo?


Seu pai nascido em Múrcia, em 1818, era médico e cirurgião, muito amado pelas crianças, seus mais numerosos clientes. Pouco se sabe de sua mãe, Venancia Martínez; mas de seus dois irmãos mais velhos, Mariano e Avelino, sabe-se que o primeiro deveria ser advogado e o segundo médico, tal como o pai.

Costuma-se procurar na infância das personagens notórias determinados elementos que se possam interpretar como sinais precursores de seu destino. Cada um apreciará a seu modo o que nos relata um dos seus mais fiéis e mais recentes biógrafos, Federico Carlos Sainz de Robles: o pequeno Jacinto Benavente foi batizado na antiga paróquia de São Sebastião, onde se acham inumados diversos autores dramáticos, o mais célebre dos quais é Lope de Vega. Suas mais remotas lembranças, contou ele próprio, ligam-se à morte do General Prim e à de um certo poeta Bécquer - atacado de tuberculose - por volta de 1870. Lembranças antes trágicas para um futuro autor cômico.

Fonte: "PEQUENA HISTÓRIA"
DA ATRIBUIÇÃO DO PRÊMIO NOBEL A JACINTO BENAVENTE - 1922
Editora Opera Mundi - Rio de Janeiro - 1971
pág. 26

domingo, 4 de julho de 2010

Fiódor DOSTOIÉVSKI

O AUTOR


É sempre vertigiosa a leitura dos romances de Dostoiévski. Um crítico dizia que em sua ficção havia algo tanto do romance policial como também do romance de aventura. Esse crítico, um dos mais argutos que já passou pelo Brasil, chamava-se Otto Maria Carpeaux. A definição que ele fazia para Os irmãos Karamázov vale perfeitamente bem para este também clássico Crime e castigo: "Se todos os romances do russo parecem romances policiais, são de um investigador das almas que nos revela, além dos crimes perpetrados, os crimes virtuais que dormem em nós outros como possibilidades. E enquanto se trata de romances de aventuras, são as aventuras espirituais, das quais a última seria a própria redenção do gênero humano".
"Investigador das almas" e "aventuras espirituais": duas expressões que dizem muito sobre o universo ficcional que o escritor russo criou com grande genialidade nos meados do século XIX. Poucos autores foram tão fundo nessa investigação e conseguiram retirar do poço da alma humana tantas desventuras como o fez Dostoiévski. É de se lamentar, por exemplo, o destino do protagonista de Crime e castigo, esse Raskólnikov, um pobre diabo perambulando pelas ruas decadentes de São Petersburgo, com "o povo se comprimindo entre os andaimes, montes de cal, tijolos espalhados pelos cantos e, dominando tudo, o mau cheiro característico, tão familiar aos habitantes de São Petersburgo, que não dispõem de meio para veranear".
Dostoiévski conhecia bem a cidade - como também a alma cindida do homem moderno. Ele tinha todas as ruas esquadrinhadas em sua mente, conhecia cada beco, cada travessa, cada ponte sobre o Niéva desde a adolescência. Depois de ter passado a infância entre Moscou e a casa da família na região rural de Darovóie, o menino - impulsionado pelo pai, o doutor Mikhail Andrévich Dostoiévski - seguiu com seu irmão mais velho, Mikhail, para São Petersburgo, onde viveria grande parte de sua vida adulta.

Fonte:
Crime e Castigo - Volume I
Fiódor Dostoiévski
págs. 377 e 378

Clássicos Abril Coleções

quinta-feira, 19 de março de 2009

Nikolai Gógol

Nikolai Vassílievitch Gógol nasceu em Sorotchinsy, Ucrânia, a 19 de março de 1809, e morreu em Moscou, a 21 de fevereiro de 1852. De família patriarcal de cossacos, viveu até os doze anos na pequena propriedade paterna de Vasilievka – e a Ucrânia, com seu folclore, seria sua primeira fonte de inspiração. Aos 16 anos perdeu o pai. A influência da personalidade da mãe, mulher muito religiosa, não o abandonaria jamais. Em dezembro de 1821, mudou-se para São Petersburgo, com a intenção de conquistar a glória literária. Mas seu romântico Hans Kuechelgarten, que publicou em 1829 sob o pseudônimo de V. Aulov, foi mal acolhido pelos críticos. Lamentando o fracasso, tentou exercer um cargo público, deixando-o pouco depois. São dessa época os contos ucranianos que publicou em Noites na Fazenda de Dikanka (1831/32). Conheceu o escritor Aleksandr S. Pushkin, que deveria influenciá-lo e dar-lhe os temas de O Inspetor Geral e de Almas Mortas. Nomeado professor de História da Idade Média na Universidade de São Petersburgo, continuou a carreira literária. Uma nova coleção de novelas, Os Arabescos (1835), era composta por O Retrato, A perspectiva Névski e Diário de um Louco. Neste último aparece o problema crucial de toda a obra de Gógol: o mal, o diabo em sua verdadeira natureza humilhante e invejosa, que aniquila o homem e o enlouquece. Outras novelas foram unidas na coletânea Mirgorod (1835), de inspiração ucraniana. Entre estas, a mais importante é Taras Bulba. Contando a gloriosa luta dos ucranianos contra os poloneses, Taras Bulba surpreendeu a todos pela força de seu otimismo um tanto heróico e nacionalista. O humor amargo e sarcástico de Gógol já se manifestara na novela O Nariz (1833) e iria se apresentar totalmente livre em o O Inspetor Geral (1836), violenta sátira aos funcionários russos das províncias. A apresentação da peça provocou a indignação da platéia de burocratas e burgueses. Desgostoso, o escritor partiu para o estrangeiro: Alemanha, Suíça, França e Itália. Em 1841 publicou a novela O Capote, que exerceu enorme influência na literatura russa e inaugurou o Realismo nesse país. Em 1842, publicou Almas Mortas, romance no qual trabalhou durante mais de quinze anos. A partir de 1842 viveu com andarilho, deprimido por grave crise religiosa. Em 1852 queimou o segundo volume de Almas Mortas e se abandonou à morte por inanição.

sábado, 14 de março de 2009

Castro Alves

Hoje (dia 14), comemoramos o Dia Nacional da Poesia. Vamos falar da vida de um grande poeta brasileiro: Castro Alves. Antônio Frederico de Castro Alves nasceu no dia 14 de março de 1847, na fazenda Cabaceiras, próximo ao município de Curralinho, na Bahia. Era filho de Antônio José Alves e Clélia Brasília da Silva Castro. Entre 1852 e 1853, a família muda-se para São Félix. Castro Alves aprende as primeiras letras e passa a frequentar a escola. Em 1854, ocorre uma nova mudança, desta vez para Salvador. Em 1859, morre sua mãe Clélia.
Castro Alves recita as suas primeiras poesias em 1861, no ginásio. Seu pai casa-se novamente em 1862. Nesse mesmo ano, Castro Alves publica em jornal a poesia “Destruição de Jerusalém”. Em seguida, parte para Recife. No ano seguinte, publica “A canção do africano”, seus primeiros versos abolicionistas. Em 1865, começa a preparar “Os escravos”. Um ano depois, funda uma sociedade abolicionista com Rui Barbosa e outros. Torna-se amante da atriz Eugênia Câmara e entusiasma-se pelo teatro. Em 1868, viaja para o Rio de Janeiro, onde recita o seu “Gonzaga” a José de Alencar. Rompe com Eugênia. Fere o pé ao disparar a própria arma acidentalmente numa caçada. No ano seguinte, tem o pé amputado. O seu único livro publicado em vida foi Espumas flutuantes, em 1870. No dia 6 de julho de 1871, vem a falecer em Salvador, de tuberculose pulmonar.