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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

SHAKESPEARE |

Obra vasta

POR RICARDO LÍSIAS

As peças de Shakespeare costumam ser divididas em três partes: primeiro, os dramas históricos; depois, as bem-sucedidas comédias; por fim, seus famosos dramas, com os quais alcançou a fama entre o público e o reconhecimento da crítica. De fato, as peças históricas de Shakespeare nunca agradaram muito ao público. Além de serem longas, exigem um bom conhecimento do contexto do período, o que acaba restringindo o alcance da trama. Suas comédias, no entanto, tornaram-se famosas, tendo inspirado boas montagens cinematográficas, caso de A megera domada.


Mas é no drama que o gênio de Shakespeare se revela. Mesmo um texto mais simples e econômico em recursos, caso de Romeu e Julieta, tornou-se um sucesso estrondoso, entrando para o imaginário popular. Quantos não são, ainda, os trechos de Hamlet que viriam a se tornar expressões comuns em diversas línguas? Entre eles, e de passagem, é possível citar "há algo de podre no reino da Dinamarca"; "inconstância, seu nome é mulher" e o "o resto é silêncio". A própria língua inglesa moderna teria sido formatada em suas peças, que também forneceram para o léxico britânico milhares de palavras novas. Para a psicologia, ainda, as tragédias de Shakespeare ofereceram enorme campo de interpretações e análises. Por fim, é impossível deixar de notar o eco de Shakespeare em praticamente tudo que se refira à literatura de primeira qualidade, ainda que em universos profundamente distantes: O som e a fúria, o melhor romance de William Faulkner, por exemplo, ecoa diretamente um trecho de Macbeth, Jan Kott, em volume que analisa tais desdobramentos, Shakespeare nosso contemporâneo, encontra menção até em textos de Joseph Conrad.

Entre as tragédias shakespearianas mais importantes, destacam-se O rei Lear, Macbeth e, sobretudo, Hamlet. Na primeira, um rei, pretendendo evitar um desentendimento entre as filhas herdeiras, divide o reino, mas acaba decepcionado com uma das filhas, que não lhe demonstrara gratidão. O conflito, como sempre em Shakespeare, toma uma proporção crescente, e as outras duas filhas acabam se voltando contra o pai. Depois da conspiração de alguns nobres, o velho rei foge e vai ao encontro da filha com quem, antes, havia brigado. As duas irmãs que tinham conspirado contra o monarca acabam envolvidas em uma disputa e morrem. A peça termina com a morte do monarca e da filha que o acolhera e o reino acaba desestruturado.


Macbeth, por sua vez, se passa no reino da Escócia. Voltando de um combate, dois nobres cruzam com feiticeiras que preveem o futuro: um deles seria coroado rei, justamente Macbeth. Tomado pela previsão, ela mata o monarca e atribui a culpa aos príncipes herdeiros, o que acaba levando-o ao trono. Seu reinado, porém, é dominado por crises e perseguições sanguinárias que terminam com o assassinato de Macbeth, depois de uma campanha militar de seus inimigos, e a condução de uma nova linhagem ao trono.


O enredo de Hamlet é conhecido. Certa noite, o espectro do rei recentemente falecido aparece para denunciar que na verdade fora assassinato pelo irmão que, ato contínuo, casou-se com a rainha, mãe de Hamlet, e tornou-se rei. O fantasma pede vingança e o príncipe, atormentado com a visão, tenta descobrir a verdade enquanto vive um princípio de romance com a filha de um dos súditos da Coroa. A peça se desenvolve entre a astúcia do jovem Hamlet, que se passa por perturbado para se aproximar da verdade, e o desenrolar de um amor impossível. Confirmadas as denúncias, Hamlet vinga o pai, mas causa um mar de sangue que, como as outras peças, acaba desestruturando uma dinastia nobre e conduzindo outra ao poder.

Versão brasileira

No Brasil, como não poderia ser diferente, o teatro de Shakespeare ecoou com força. A peça Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias, um marco do nosso teatro romântico, é visivelmente inspirada em Otelo. O teatro de José de Alencar também aproveitou muito das peças de Shakespeare. O próprio Machado de Assis chegou a citar inúmeras vezes o autor de Romeu e Julieta. No século XX, a febre shakespeariana cresce ainda mais com a publicação de muitas traduções, algumas delas realizadas por especialistas na obra, caso do trabalho de Bárbara Heliodora, que tanto trouxe para o português várias peças como publicou estudos importantes. A propósito, as traduções de Shakespeare tornaram-se, elas mesmas, motivo de discussão: enquanto o trabalho de Heliodora, por exemplo, teria uma dicção elevada, as traduções de Millôr Fernandes, outro que se debruçou com brilho sobre as peças de Shakespeare, estariam mais perto da linguagem popular forjada pelo dramaturgo. Como se pode ver, o vigor de Shakespeare continua enorme quase quatrocentos anos depois da sua morte.

Cadernos Entre Livros - Número 1 - Literatura Inglesa.
págs. 17-20

Imagens: Todos os direitos reservados a Liana Olindina Rosado Ventura (Flickr).

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Shakespeare

SHAKESPEARE |


Biografia enigmática


POR RICARDO LÍSIAS

Mesmo o sucesso não fez com que Shakespeare deixasse muitos rastros de sua vida. Se somarmos isso ao fato de que, do mesmo jeito, ele não se preocupava com suas peças, teremos armado o terreno para as sempre proficuas conspirações: até poucos anos estava na moda a listagem de evidências, sempre assombrosamente patéticas, que procuravam comprovar que o cidadão William Shakespeare nunca existiu ou que, se alguém tiver de fato vivido na Inglaterra com esse nome, seria apenas o autor de uma coleção de belos sonetos. Entre os nomes mais cotados para serem William Shakespeare estavam os de Marlowe e, com alguma vantagem, o do filósofo Francis Bacon. Por dois motivos, hoje nenhuma dessas teorias é levada a sério: primeiro, são poucos, mas há documentos que de fato comprovam a autoria das peças; por fim, argumento ligado ao anterior, os críticos notam uma enormidade de similitudes entre os textos, o que coloca em primeiro plano o grupo de peças que simplesmente se enfeixam no conjunto produzido por uma pessoa.


Shakespeare morre em 1616 já coberto de glória. A essa altura, conhecido em toda a Europa, ninguém contestava seu lugar como o dramaturgo mais importante do momento. O sucesso de suas peças, porém, vinha exclusivamente do palco, já que uma edição impressa saiu apenas anos depois de sua morte. A razão é simples: Shakespeare acreditava em um teatro para ser representado. Suas peças, embora não tenham sido concebidas para serem lidas, se tornaram um dos pontos altos da literatura universal, o que é outro sinal do seu gênio.

De fato, em vida Shakespeare publicou apenas uma coleção de sonetos. Rigorosamente construídos, seus poemas refletem os ideais clássicos, criando variações sutis com temas como o amor e a passagem do tempo. Seus sonetos acompanham a melhor produção do período, o que demonstra que, mesmo não tendo frequentado os centros de erudição da época, Shakespeare educou-se com o que havia de mais importante.


O dramturgo escreveu ao longo da vida, 39 peças, uma produção invejável. Se considerarmos que entre elas estão ao menos dez obras-primas, não resta nenhuma dúvida de que William Shakespeare é mesmo (e no mínimo) o maior dramaturgo de todos os tempos.



Cadernos Entre Livros - Número 1
págs. 16-17

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Shakespeare

SHAKESPEARE |


O fundador de tradições


POR RICARDO LÍSIAS

Coroada rainha da Inglaterra em 1558, Elizabeth I imediatamente determinou que as artes tivessem lugar central em seu reino. Culta e interessada em línguas estrangeiras, a monarca de apenas 25 anos percebeu que o teatro, além de oferecer um entretenimento de primeira grandeza, servia também para distrair e agradar a população. Assim, incentivou a criação de companhias que pudessem atuar tanto para uma platéia culta e nobre quanto para o povo em geral. Além disso, apoiou a carreira de ator e ajudou a construção de teatros. Ao menos dois grandes e importantes complexos dramatúrgicos foram erguidos durante o seu reinado: o Theatre surgiu em 1576 e O Globo, cuja lista de sócios contava com o nome de William Shakespeare (1564-1616), apareceu em 1599.



Ambos os teatros tiveram vida curta: o de Shakespeare acabou vítima de um incêndio e precisou ser reconstruído. No entanto, a dramaturgia parece ter de fato feito um casamento feliz com a língua inglesa. Mesmo depois da morte da rainha Elisabeth I, em 1603, seu sucessor, Jaime I, continuou apoiando os palcos - até porque àquela altura já estava bem claro que o teatro era excelente maneira de intervir na política.

O período elisabetano (que se estende até algumas décadas depois da morte da rainha) é conturbado no plano político. A ilha britânica vê crescer o movimento puritano e toma força certo republicano que iria culminar com a revolta liderada por Cromwell. Culturalmente, porém, o período é um dos mais animados. É provável que apenas a agitação do final do século XIX em diante se equipare àqueles anos.



Além de Shakespeare, autores como Francis Bacon, John Donne e Milton produziram textos hoje clássicos no âmbito da literatura e do pensamento ocidental. Shakespeare está no centro. Ele é considerado por críticos da estatura de Harold Bloom o responsável por nada menos que a formatação do homem moderno. Trocando em miúdos, o jeito como o ser humano se enxerga seria devido a peças como Hamlet, Macbeth e, entre tantas outras, O rei Lear.




Não existe cidade no mundo com um teatro que não tenha representado uma das peças de Shakespeare. Estima-se, mesmo, que a partir do século passado não houve um segundo sequer sem que, em algum lugar do mundo, um ator não estivesse representando uma peça de Shakespeare.

Muito pouco se conhece de sua vida. Indícios apontam que ele nasceu em algum dia do final de abril de 1564, em Stratford-upon-Avon, então uma cidadezinha sem importância da Inglaterra, hoje convertida em centro de peregrinação. Com 23 anos e a vontade de se inserir em um meio mais agitado, o dramaturgo vai para Londres e logo se enturma em uma das companhias reais, fazendo sucesso primeiro como ator e, pouco depois, como autor de peças que emocionam o público. No início da última década do século XVI, sua primeira peça, Henrique VI, um drama histórico em três partes, estreia e daí em diante ele vai, ano a ano, tornando-se uma lenda viva nos palcos ingleses.

Shakespeare começa a incomodar alguns dramaturgos de sucesso, que se irritam com a ascensão de um homem vindo do interior, sem educação formal. Até ali, a maior parte dos dramaturgos vinha de boa família e antes de escrever suas peças passava por temporadas em centros de excelência como Oxford e Cambridge. A propósito, um dos primeiros documentos que citam Shakespeare é a carta de um desses teatrólogos eruditos que reclamava do sucesso do "agitador" interiorano.

domingo, 13 de março de 2011

período elisabetano

SHAKESPEARE | GEOFFREY CHAUCER | FRANCIS BACON | JOHN DONNE | JOHN MILTON


Um reinado de esplendor


POR FÁBIO DE SOUZA ANDRADE

Em 1558 Elizabeth I foi coroada rainha da Inglaterra, inaugurando um período que até hoje é considerado um dos pontos áureos da história inglesa, tanto na política quanto nas artes. Foi nesse período que um jovem interiorano começou a fazer sucesso com suas peças em Londres. Seu nome era William Shakespeare, e ao longo de sua vida escreveu mais de 39 peças que lançaram as bases para toda a literatura de língua inglesa produzida ao longo dos cinco séculos seguintes.
Apesar de não ter sido ele quem deu estatuto literário ao inglês moderno que hoje conhecemos - a realização é atribuída a Geoffrey Chaucer, ainda no século XIV -, Shakespeare fundou a tradição literária que viria a orientar boa parte de toda a literatura ocidental até os dias de hoje.
As letras do período não foram férteis apenas no teatro. Em campos tão distantes quanto a poesia e a filosofia, o gênio inglês também brilhou na virada do século XVI para o XVII. Enquanto Francis Bacon lançava as bases do método empírico nas ciências, John Donne desenvolvia a versão inglesa da poesia barroca.
Após o esplendor elisabetano, a Inglaterra entra em um período de fortes convulsões políticas e sociais que culmina na criação do governo republicano de Oliver Cromwell em 1649, que teve como um de seus porta-vozes John Milton, autor do maior poema épico de língua inglesa de todos os tempos: O paraíso perdido, uma narração do incrível ataque de Satã às forças divinas.


domingo, 31 de maio de 2009

Os princípios de

"perfeita respeitabilidade" que regeram os anos vitorianos sucedendo os românticos não impediram que, ao lado da força das caricaturas de Dickens, a fantasia de excêntricos como Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Dodgson (1832-1898), subvertesse a lógica e falasse direto às crianças em Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho. Às portas do século XX, o novo sopro do drama com Oscar Wilde, William B. Yeats e Bernard Shaw anunciava a revolução moderna, em que a saturação de todos os estilos em James Joyce, a confusão entre as vozes interiores e a observação do mundo exterior no estilo indireto livre de Virginia Woolf, a poesia de fragmentos de T.S. Eliot e a escrita voluntariamente empobrecida de Samuel Beckett são, cada um deles, novos mundos em pequena escala.
Encerrados os anos heróicos do modernismo, agitada pela realidade pós-colonialista, renovada pelo encontro de culturas (e nomes que soam estrangeiros, como Hanif Kureishi, Salman Rushdie ou Kazuo Ishiguro), a literatura inglesa continua longe de aceitar passiva o espaço estreito de um três por quatro.

Através do espelho

sábado, 30 de maio de 2009

Na poesia,

a reação ao primado da razão sustentada pelos neoclássicos, necessidade imperiosa de equilibrá-la organicamente ao sentimento, eclodiu na mitologia pessoal, profética e selvagem de William Blake (1757-1827), pronto a promover O matrimônio do céu e do inferno. Na sua esteira, os românticos, a começar por William Wordsworth (1770-1850) e Samuel T. Coleridge (1772-1834), buscarão casar o impulso construtivo, consciente, e a força do inconsciente a partir de uma aproximação da natureza, plataforma que alça o artista ao reino das ideias e à qual ele retorna, dele impregnado. "A poesia é emoção recolhida na tranquilidade", escreveu Wordsworth, afirmação que Coleridge e sua imaginação exaltada corrigiram com elementos de grandiosidade incomum, sobrenatural e sublime, matéria de sua reflexão teórica na Biografia literária e dos versos de A Balada do velho marinheiro. Exaltação que está, também por trás da lenda de Lorde Byron, cuja biografia agitada e atitudes românticas (morreu combatendo os turcos na Grécia) não impediram a reaproximação dos neoclássicos.


William Blake

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Janela do romance

Ao lado de outro mito, o Gulliver, do satirista irlandês Jonathan Swift (1667-1745), das narrativas epistolares de Samuel Richardson (1689-1761), destinados a público predominantemente feminino, do ânimo quase picaresco das "epopéias cômicas em prosa" e da escrita digressiva, irônica experimental de Laurence Sterne (1713-1768), Robinson Crusoé, de Daniel Defoe (1660-1731), também ele jornalista, reformador social, transformou-se num mito desse individualismo realizador a que o novo realismo formal passava a dar tratamento artístico sério, mesmo quando jocoso. Através da janela do romance e o sob olhar arguto de uma mulher, Jane Austen (1775-1817), a vida privada das elites inglesas, atravessando colinas verdejantes entre maquinações matrimoniais e conversação amena na superfície, preservou-se num retrato irônico e sensível. Foi romance a arma de Charles Dickens, escritor de feroz capacidade descritiva e inventiva, hesitante entre o fascínio vitoriano pela ordem, contenção da violência, e a propensão pessoal em humanizar as figuras marginais (Oliver Twist, Grandes esperanças), ridicularizando o tempo e as instituições (a indústria, em Tempos difíceis, a justiça, em Little Dorrit) com ímpeto satírico que tinha muito de violento.


Robinson Crusoé

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Maturidade elisabetana

Passando pelos “mistérios”, “milagres” e “moralidades”, formas medievais do teatro, o drama inglês encaminhou-se para a maturidade elisabetana, passando por imitadores de modelos latinos (Sêneca e Plauto), introdutores do verso branco que só alcançaria seu esplendor com Cristopher Marlowe (1564-1593) e William Shakespeare (1564-1616). Marlowe, grande nome antes de Shakespeare, é o dramaturgo que expressa o espírito da época, das aspirações de Doutor Fausto aos bastidores maquiavélicos da escalada política de Tamerlão. Foi contemporâneo da construção dos teatros londrinos (A Rosa, O Cisne, O Globo), edifícios à volta de um pátio central que acolhiam público democraticamente heterogêneo, dando margem à criação de companhias estáveis de atores.

A variedade e novidade de seu mundo moral e mental, a mescla estilística que aproxima alto e baixo, trágico e cômico, grotesco e sublime, o gênio nos longos desdobramentos metafóricos, o gosto e habilidade no trocadilho, os personagens que ganham o estatuto de arquétipos atemporais, sem perder o substrato realista, complexo e individual, fazem de Shakespeare ápice e condensação de uma literatura. Jogam na sombra talentos próximos como o de Ben Johnson (1574-1637) e suas comédias de tipos fixos, encarnação arrematada de uma única qualidade (avareza, covardia, ira), como Volpone e O alquimista.

Também amargaram longo ostracismo os poetas conhecidos pejorativamente como “metafísicos”, os barrocos ingleses. Formavam um grupo encabeçado por John Donne (1572-1631), dono de um estilo engenhoso e refinado, correspondente na lírica à riqueza dramática do autor de Hamlet. A sintaxe retorcida pelo exercício do wit (capacidade de verbalizar analogias insuspeitas em fórmulas breves e desconcertantes) e o concentrado encadeamento de metáforas foram redescobertos para a modernidade pelas mãos de T.S. Eliot. De outro teor é a poesia que aspira à grandeza épica de John Milton (1608-1674), engajado defensor do puritanismo e da Reforma que, em seu Paraíso perdido, tratou do tema da queda, refinando ao limite as possibilidades expressivas do verso branco, latinizado no vocabulário e na sintaxe, afastado da fala cotidiana. Os modelos clássicos voltam à cena no século seguinte, o augustano sintetizado no saber enciclopédico de Samuel Johnson (1709-1784), doutor por antonomásia, contemporâneo à profissionalização das letras. Crítico judicioso, autor da Vida dos poetas e do Prefácio a Shakespeare, estava obrigado, para sobreviver, a escrever muito. Atacava em todas as frentes: ensaio, teatro, poesia e romance filosófico, além de importante dicionário. Numa era em que o mecenato de nobres cedia espaço ao dinheiro anônimo do público, Johnson sustentou, praticamente sozinho, dois periódicos. Se os dísticos rimados de Alexander Pope (1688-1744) traduziam para o campo da lírica os imperativos de uma era racional e regrada, foi a narrativa que experimentou as maiores mudanças. Profundamente enraizada na atualidade, valorizando a experiência histórica das novas classes ascendentes, apoiada em convenções que procuravam ressaltar a verossimilhança exemplar dos destinos individuais representados, a prosa inglesa do século XVIII firmou as bases do romance realista moderno, novo gênero que ultrapassaria em muito as fronteiras da língua inglesa.


Samuel Johnson (1709-1784)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A primeira estação, a “criação” literária do inglês moderno no século XIV, vem precedida da história da ocupação romana, sujeitando por séculos os primitivos habitantes da ilha, os bretões (que sobrevivem, com peculiaridades lingüísticas e culturais, nos nativos do País de Gales, como o poeta Dylan Thomas). Com a queda do Império Romano, povos como os anglos e os saxões, premidos por vândalos e godos, invadiram e se fixaram na Britannia. Seus dialetos se confundem com o inglês arcaico, língua áspera e consonantal, e sobrevivem em poemas com o “Beowulf”, uma saga guerreira carregada de divindades nórdicas, datando do século IX. Ao seu legado, pode-se atribuir o gosto pelas aliterações iniciais como mecanismo rítmico e encantatório de associação entre o som e o sentido, tão persistente na poesia inglesa, já em Shakespeare (Full Fathom Five thy Father lies), mas ainda em Gerard Manley Hopkins. A invasão normanda, com Guilherme, o Conquistador, faz com que o inglês arcaico divida seu espaço com o francês dos invasores e com o latim, língua de compromisso, nos séculos XII e XIII, suavizando-se sob o influxo de ambos.

É sobre esta base que Chaucer (1343-1400), contemporâneo da Guerra dos Cem Anos, com a França, do assassinato de Ricardo II e da ascensão de seu assassino, Henrique IV, deu estatuto literário ao dialeto que se falava em Londres. Sua obra-prima, Os contos da Cantuária, é uma coletânea que traz um grupo humano variado, gente de carne e osso, em meio a uma peregrinação religiosa, entretido em um concurso para avaliar, durante um jantar, quem conta a melhor história. Naturalidade bem-humorada da expressão e valores que antecipam o humanismo renascentista (ceticismo e tolerância) fazem dele um escritor moderno, que atravessa os tempos e abre caminho para a grandeza soberana que a literatura nascente alcançaria na forma dramática.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

LITERATURA INGLESA

ensaio panorâmico


Continente literário


POR FÁBIO DE SOUZA ANDRADE

FOSSE POSSÍVEL VISLUMBRAR, EM SOBREVOO, O ASPECTO conjunto da plêiade de autores e da diversidade de estilos que, de Geoffrey Chaucer à contemporaneidade, aparecem associados à idéia de uma tradição literária inglesa, o espetáculo que se ofereceria aos olhos do interessado seria agitado como o canal que separa Dover de Calais. Não por simples resistência vaidosa à abstração da unidade. Nem sempre os limites de uma geografia (a ilha úmida, lavada pelas águas frias do Norte, de campos verdejantes e lagos gelados), os contornos de uma língua (o inglês moderno) ou a construção paulatina de uma identidade nacional (altiva, conservadora, mas também rebelde e excêntrica) são apenas camisas-de-força, mitos ou lugares-comuns. Agitação equivale, aqui, a vitalidade variada com ânsia de expansão, ruptura de fronteiras que, ela mesma híbrida, combina a vocação legítima de toda literatura para a universalidade à lógica imperial que dominou a história desse povo de guerreiros e navegadores.

A persistência de temas e formas locais convive nos ingleses com a assimilação de idéias estrangeiras. É certo que não se pode escrever da sensibilidade moderna sem passar pela história da recepção de William Shakespeare (definido, por Harold Bloom, como o inventor do humano), mas tampouco se pode pensar a imaginação romântica de poetas como Wordsworth e Coleridge sem o diálogo próximo com a filosofia alemã e francesa. Se, por um lado, o inglês alçou-se à língua franca no mercado globalizado das letras, acolhendo e batizando, por exemplo, o polonês Józef Korzeniowski, depois Joseph Conrad, alargando sua repercusão em escala mundial, por outro lado, a literatura inglesa apropriou-se da contribuição inestimável do gênio irlandês, que para não falar em Jonathan Swift, Laurence Sterne, George Bernard Shaw ou William Butler Yeats, compôs o essencial de sua linha de frente modernista, os dublinenses James Joyce e Samuel Beckett ombro a ombro com o americano naturalizado T.S. Eliot. Está claro que a visão panorâmica é um terreno movediço e perigoso, lembrando a delicadeza instável das maquetes militares de um personagem de Sterne. Folclórico parente do protagonista de Tristam Shandy, Tio Toby reproduzia, em pequena escala, batalhas cruciais, certo de que só assim poderia conhecê-las de fato. Sabia que cada gesto desastrado ou mal medido acarretaria uma infinidade de baixas e uma representação distorcida, mas o risco se pagava. Só ele nos permite apreender numa linha histórica as tensões que animam e costuram o que, de outra forma, pareceria um amontoado do enciclopédico de nomes mais ou menos célebres: o mundo numa casca de noz, a história numa sucessão de instantâneos.


domingo, 11 de janeiro de 2009

Panorama da LITERATURA INGLESA

Literatura inglesa

Sobre livros e ilhas

Há certo consenso sobre o papel central que a literatura inglesa ocupa no cânone do Ocidente. Basta mencionar que foi nessa língua que escreveu Shakespeare, que carrega sem esforço o epíteto de fundador de tradições.
Natural, portanto, que esta série sobre grandes literaturas mundiais comece naquela Londres culturalmente vibrante do período elisabetano.
Para apresentar este panorama, reunimos colaboradores que, devido à familiaridade com os autores tratados, poderiam estar conversando sobre eles num pub. E às vezes o fazem. É o caso de José Antonio Arantes, que mora em Cambridge. Tradutor de William Blake e James Joyce, Arantes escreve românticos e modernos – e ainda nos brinda com traduções feitas especialmente para esta publicação.
A Fábio de Souza Andrade coube uma tarefa dupla.
Em um primeiro momento, como se ministrasse uma aula inaugural, ele empreende um sobrevôo por escolas e períodos. Em seguida, fecha o foco sobre autores que conhece de perto, como Samuel Beckett, de quem traduziu Esperando Godot.
Ricardo Lísias, que tem no currículo uma tradução de Dickens a quatro mãos com Machado de Assis, desta vez troca os vitorianos pelos elisabetanos, e nos mostra a atualidade do bardo. Escrevem ainda Cilaine Alves Cunha, Daniel Puglia, Maurício Arruda Mendonça, Marcos Soares e Ricardo Musse, conhecedores da literatura inglesa.
Duas palavras sobre critérios: o polonês Joseph Conrad e o americano T. S. Eliot são mais britânicos que muitos súditos de Sua Majestade; e a literatura inglesa perderia tempero sem a contribuição irlandesa – o que justifica a inclusão de escritores estrangeiros e de Dublin.
No mais, esta publicação inverte a clássica formulação e pergunta: que livros você traria dessas ilhas?

OSCAR PILAGALLO, editor

Fonte: CADERNOS ENTRE LIVROS Nr. 1 – DUETTO EDITORIAL