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sábado, 30 de novembro de 2013

DICIONÁRIO DO MORCEGO TRAZ TUDO E MAIS UM POUCO SOBRE O BATMAN


Você sabe quem é Byron Keith? Ora, o prefeito de Gotham City no seriado de 1966. E "A Esfinge"? Trata-se de uma das traduções que o Charada teve no Brasil. E quem em Camburi/ES o quiosque Batmar é identificado com o símbolo do Morcego? Estas divertidas curiosidades integram os quase 1,5 mil verbetes do completíssimo Dicionário do Morcego, (formato 16 x 23 cm, 276 páginas, R$ 35,00), lançado pela Flama Editorial e à venda em livrarias e gibiterias.

O autor é o jornalista mineiro Silvio Ribas, grande conhecedor do universo do Cavaleiro das Trevas. Na obra, além de falar sobre todas as várias versões da Dupla Dinâmica, os coadjuvantes das HQs, criadores, obras estreladas pelo Morcego, atores que participaram de filmes do herói, desenhos animados, games e muito mais, são levantadas "pérolas" como a do fã pernambucano Edmar de Oliveira, que se vestiu como o herói para pedir votos nas eleições de 1994.

Ribas ainda lista uma série de números (teses em universidades, empresas que usam sua marca, bilheterias no cinema etc.) sobre o Batman, classificado como o mais lucrativo, reproduzido e adaptado produto da indústria do entretenimento em todos os tempos.

Por ser tão abrangente, o Dicionário do Morcego tem tudo para agradar até quem não é iniciado no Cavaleiro das Trevas, além de servir como excelente fonte de referência para pesquisas e trabalhos jornalísticos.

Por Sidney Gusman

WIZARD BRASIL #22 - Julho de 2005 - Panini Comics.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

TALENTO BRASILEIRO AO QUADRADO

Os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, os autores da série 10 Pãezinhos e que agora estão começando suas carreiras no exterior, contaram à Wizard um pouco de sua trajetória no mercado

Por Sidney Gusman e Levi Trindade

Autobiographix
Dark Horse Comics
2003

Tirando os irmãos Caruso, que trabalham mais com desenho de humor, eles são possivelmente os únicos gêmeos quadrinhistas do planeta. Mas não é isto que faz de Fábio Moon e Gabriel Bá destaques do traço nacional. Fanzineiros, batalhadores e muito talentosos, eles estão entrando no mercado norte-americano por um caminho diferente do habitual: o das histórias autorais.

Recentemente, o álbum Ursula, lançado pela AiT/Planet Lar, recebeu elogios até da revista Variety. Antes disso, estiveram ao lado de Will Eisner e Frank Miller na edição Autobiographix, da Dark Horse.

10 Pãezinhos - Meu Coração, Não Sei Por Que
Editora: Via Lettera
junho de 2001

No Brasil, além de muitos zines, publicaram algumas HQs na Front, da Via Lettera, e dois álbuns da série 10 Pãezinhos - Meu coração, Não sei por que (que nos Estados Unidos foi batizado como Ursula) e O Girassol e a Lua, pela mesma editora. Além disso, lançaram as revistas independentes Feliz aniversário, meu amigo e Rock'N' Roll. E mais: fizeram uma HQ para esta Wizard, na qual "brincam" no mundo dos super-heróis.

Nesta entrevista, Bá e Moon contam que só talento não basta para conseguir o que se almeja. Perseverança é fundamental. Especialmente nos quadrinhos.

Wizard: O que vocês liam na infância, quando decidiram ser quadrinhistas?

Moon: Nós crescemos numa época ótima para os quadrinhos. Eles tinham destaque nas bancas, não ficavam escondidos e se encontrava de super-heróis a Chiclete com Banana.

Nós líamos quase tudo. Muito super-herói e bastante HQ nacional. E a Editora Abril estava começando com as graphic novels que publicavam tanto super-heróis como quadrinhos europeus.

Bá: Naquele tempo, não tínhamos muito senso crítico. Por isso, gostávamos de tudo. Ficávamos admirados tanto com as baixarias do Laerte e do Angeli quanto com o Homem-Aranha do Todd McFarlane.

Vocês são da geração que fez curso de quadrinhos. Há alguma vantagem nisso?

Bá: Não é um curso que vai formar um quadrinhista, é a vontade que a pessoa tem de fazer aquilo. Fizemos um de um mês com o Luiz Gê, loucos pra desenhar super-heróis. Aí, nós pegávamos folhas de papel sulfite dobradas ao meio, colávamos umas bolinhas de contact preto e tínhamos que contar a história da bolinha através das páginas.

Fizemos outro curso de três anos no Estúdio Pinheiros com o Tak (Domingos Takeshita). Não tinha programa, nem ensinava ninguém a desenhar. Os alunos ficavam lá duas tardes por semana lendo revistas, desenhando e discutindo ideias, pensando as histórias e como fazê-las de formas diferentes.

Mas em cursos se conhece mais gente que gosta da mesma coisa que você, e é possível fazer contatos que te ajudarão. Caso contrário, é provável que fique em casa sozinho, desenhando em cima da prancheta, no frio e no escuro da noite, enquanto as outras pessoas estão namorando, jogando futebol ou dormindo.

A profissão de quadrinhista é muito solitária, e devemos aproveitar todas as chances de compartilhar nossa paixão com outras pessoas.

Moon: O importante nas aulas de quadrinhos é ensinar o aluno a pensar sobre a página que ele vai desenhar e a história que vai contar.

continua...

WIZARD BRASIL # 12 - Setembro de 2004 - Panini Comics.

sábado, 16 de novembro de 2013

VALE A PENA LER DE NOVO (ou pela primeira vez)

UNIVERSO
HQ

Por Sidney Gusman

O tema desta coluna surgiu em meados de dezembro, quando comecei a fazer o listão de tudo de bacana publicado no ano passado, para escolher os melhores (confira a matéria nesta edição). Durante a seleção, notei que uma tendência iniciada em 2004 ganhou ainda mais força: a republicação de obras consagradas.

Maus 

Primeira revista em quadrinhos a ganhar um prêmio Pulitzer. 
Publicado em: junho de 2005 
Editora: Cia. das Letras 
Licenciador: Art Spiegelman 
Número de páginas: 300 
Formato: (16 x 23 cm)

Na lista dos 20 melhores especiais e minisséries, simplesmente metade já havia saído (ao menos parcialmente) no Brasil: Maus, Sandman, Tintim, Planetary, Tom Strong, as histórias de Carl Barks, Sin City, Elektra Assassina, Batman - Ano Um e Marvels! Isso sem contar que ficaram fora da lista Watchmen, as HQs clássicas dos Novos Titãs e Quarteto Fantástico, Top 10, o primeiro arco de 100 Balas, Authority e outros.

Sandman 01 - Prelúdios e Noturnos

Publicado em: junho de 2005
Editora: Conrad
Licenciador: DC (Vertigo)
Categoria: Álbum de Luxo
Gênero: Fantasia
Status: Edição única
Número de páginas: 252
Formato: (19 x 28,5 cm)
Colorido/Capa dura

Até nos títulos de periodicidade regular isso vem acontecendo. Lobo Solitário (de forma incompleta, é verdade), Dragonball e Ken Parker já estiveram em nossas bancas tempos atrás. E vale lembrar que Cavaleiros do Zodíaco, Vagabond e Evangelion já entraram pelo mesmo caminho. E deve vir mais por aí.

Lobo Solitário n° 1
Publicado em: março de 1988
Editora: Cedibra
Licenciador: First
Número de páginas: 100
Formato: Americano (17 x 26 cm)

O assunto chamou tanto a atenção, que já estamos cogitando na redação criar uma categoria à parte para as republicações entre os melhores de 2006.

Mas o que importa mesmo é discutir as razões para tantas republicações. A primeira e mais óbvia é a qualidade inquestionável dessas obras. Prova disso é que todas as editoras que as lançaram tiveram excelentes resultados de vendas (algumas já tiveram até reimpressões) - mesmo quando as edições saíram mais caras, em função do requinte gráfico.

O mercado brasileiro descobriu o que o norte-americano e o europeu sabem há anos: sempre haverá demanda para materiais de qualidade e existe toda uma geração de novos leitores que não teve a chance de acompanhá-los, que só ouvia falar o quanto eram bons. Agora, estão comprovando.

Grandes Clássicos DC n° 3 - Batman Ano Um - Edição Definitiva

Acompanha poster tamanho 52 x 67 cm.
Arte de David Mazzucchelli
Publicado em: julho de 2005
Editora: Panini
Licenciador: DC Comics
Número de páginas: 148
Formato: Americano (17 x 26 cm)

Não estranhe se, em breve, copiarmos o que acontece em mercados mais poderosos, republicando clássicos como O Cavaleiro Trevas, Watchmen, Corto Maltese, Asterix etc, a cada década (ou em intervalos mais curtos até). Por serem atualíssimos, esses títulos sempre serão garantia de retorno financeiro. Basta verificar que dois dos melhores lançamentos do ano passado já tiveram quatro edições no Brasil, em menos de 20 anos: Sandman e Batman - Ano Um. E continuam fazendo sucesso.

Agora, se por um lado essa demanda tem todo o lado positivo de apresentar essas obras a novos fãs, por outro escancara algo que está evidente há anos: a crise criativa que atinge os quadrinhos no mundo todo - alguns creem que foi esta a razão para o êxito dos mangás. E não porque as HQs japonesas são todas brilhantemente escritas, mas pelo fato de terem começo, meio e fim, serem sempre de um único autor e "enrolarem" menos.

No mercado que é mais próximo do leitor brasileiro, o de super-heróis, isso é ainda mais evidenciado. Atualmente, sempre que se fala de uma história bem engendrada (note que não escrevi "brilhante"), ela é quase sempre é assinada por Brian Michael Bendis, Mark Millar, Garth Ennis, Grant Morrison, Geoff Johns, Mark Waid, Kurt Busiek ou algum autor "importado" de outras mídias, como cinema, TV e literatura.

Claro que as razões para isso renderiam páginas de discussão, pois vão do fast-food que se tornou a indústria dos comics, entupindo o mercado com títulos muitas vezes questionáveis (leia-se ruins) apenas para "ocupar espaço", à pura e simples falta de talento de alguns escritores.

E uma mudança desse quadro passa por uma reestruturação radical da forma como as editoras norte-americanas enxergam o negócio quadrinhos. E todos nós sabemos que isso é uma utopia das grandes.

Por isso, não é à toa que Marvel e DC se engalfinham para garantir contratos de exclusividade com alguns dos autores acima citados. Afinal, hoje, eles são as únicas garantias de que, daqui a 20 anos, o time dos títulos que merecem ser republicados periodicamente ganhe alguns novos integrantes.

WIZARD BRASIL # 28 - Janeiro de 2006 - Panini Comics.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

QUADRINHOS TAMBÉM TÊM HISTÓRIA

Por Sidney Gusman

Super-heróis, fumetti, mangás, underground, alternativos, manhwas, bande dessinée, além da produção caseira. O Brasil talvez seja um dos países mais ecléticos quanto à publicação de quadrinhos. Verdade que hoje as vendas estão longe das de outros tempos, mas a variedade continua grande. No entanto, há um nicho em que nosso mercado praticamente engatinha: o dos livros teóricos.

Nos Estados Unidos e na Europa, anualmente, são publicadas várias obras sobre editoras, personagens e criadores, sem contar as enciclopédias e as que ensinam a linguagem das HQs. Contudo, é raro chegarem aqui.

Há honrosas exceções, como História em Quadrinhos & Comunicação de Massa (MAM, 1970), de Pierre Couperie, Proto Destefanis, Edouard François, Maurice Horn, Claude Moliterni e Gerald Gassiot Talabot; Quadrinhos e Arte Sequencial (Martins Fontes, 1989), de Will Eisner; Desvendando os Quadrinhos (Makron Books, em 1995 e M. Books, 2004), de Scott McCloud; e Narrativas Gráficas, também de Eisner, que deve sair este ano pela Devir. Mas é pouco.

As editoras brasileiras se defendem dizendo que a especificidade dessas obras, o alto custo de royalties e de produção as tornam comercialmente inviáveis. Não deixa de ser verdade, mas essa carência ocorre também quanto aos autores nacionais, que demandam gastos bem menores.

E antes que alguém esbraveje que no Brasil quase não se faz livros nessa linha, uma informação: a cada ano, cresce assustadoramente nas universidades o número de trabalhos (embasados em pesquisas sérias) de mestrado, pós-graduação e de conclusão de curso sobre quadrinhos. E há muita coisa publicável!

Nossa bibliografia é pequena demais, e se restringe a obras dos batalhadores Álvaro de Moya (Shazam! e História da História em Quadrinhos), Sonia Luyten (O que é História em quadrinhos e Mangá - O Poder dos Quadrinhos Japoneses), Moacy Cirne (Para ler os Quadrinhos, A Explosão Criativa dos Quadrinhos, A Linguagem dos Quadrinhos, Uma Introdução Política aos Quadrinhos e História e Crítica dos Quadrinhos Brasileiros), Ionaldo A. Cavalcanti (O Mundo dos Quadrinhos e Esses Incríveis Heróis de Papel) e outros. O problema é que a maioria está fora de catálogo, sem esperança de republicação.

Mas há luz no fim do túnel. Depois de quase dez anos sem novidades relevantes, a Opera Graphica lançou em 2004 o interessante Quando surgem os super-heróis, de Roberto Guedes. Mas o melhor estava por vir.

E chegou no final do ano passado, quando a Companhia das Letras publicou o indispensável A Guerra dos Gibis, do jornalista Gonçalo Junior. Com um texto ágil, o autor narra algo até então inédito em nossa parca literatura sobre quadrinhos: o nascimento do mercado brasileiro e as dificuldades que as HQs enfrentaram aqui.


Durante mais de dez anos, o autor pesquisou em jornais, acervos de colecionadores e, principalmente, na biblioteca da Ebal. Não à toa, o personagem central é Adolfo Aizen, o responsável pela chegada dos suplementos de quadrinhos ao Brasil e fundador, em 1945, da Editora Brasil-América. O livro revela, inclusive, que ele era russo (e não baiano, como afirmava) e manteve isso em segredo até morrer, porque estrangeiros não podiam ter empresas de comunicação à época.

Gonçalo faz uma excelente reconstituição das tentativas de censura aos quadrinhos (que eram acusados até de "formar criminosos") e de como os gibis tiveram importância nos negócios de vários empresários, especialmente na construção do império televisivo de Roberto Marinho. Além disso, traz um caderno com várias capas de edições raríssimas.

Para os leitores mais jovens, A Guerra dos Gibis pode até chocar, pois parece ficção que as HQs tenha passado por tantas agruras em nosso país. E por sua seriedade e repercussão, este livro tem "bala" para exercer dois papéis fundamentais: abrir espaço para outras obras similares e mostrar que os quadrinhos no Brasil têm muita História.

Sidney Gusman é editor-chefe do www.universohq.com
E-mail: sgusman@universohq.com


Fonte: Wizard Brasil - Número 18 - Março de 2005

pág. 19