segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Vinicius de Moraes

Vinicius e Tom

SAI A VAMP, ENTRA A GAROTA

O sucesso, de estima e de público, veio rapidamente para a dupla Tom e Vinicius. Quando João Gilberto gravou o single de "Chega de Saudade", a 10 de julho de 1958, no estúdio da Odeon na Cinelândia, estava escrito que, cedo ou tarde, alguma coisa aconteceria a partir dali. Como eles não demorariam a descobrir, havia uma geração inteira esperando por aquilo que, rapidamente, passou a chamar de "bossa nova". Turmas de rapazes e moças nos mais diversos pontos do Rio - Copacabana, Ipanema, Gávea, Tijuca, Vila Isabel - e em outras cidades começaram a se organizar em torno daquele estilo musical. Os shows nas universidades cariocas revelaram novos talentos, alguns dos quais, no show anterior, ainda estavam na platéia, batendo palmas.
A bossa nova era inspiradora em termos poéticos, literários, pictóricos, dramatúrgicos, comportamentais e, lógico. musicais. Por sua causa, as mais improváveis vocações - no Rio, em São Paulo, Salvador, Belo Horizonte - sentiram que podiam se realziar. Muito disso se deveu à presença daquele homem mais velho, quase grisalho, quase calvo, com uma incipiente barriguinha, que parecia mais moderno do que todo mundo e dava o aval à fantasia dos mais jovens. Vinicius provava também que era possível ser "multimídia", numa época em que ninguém sonhava com esta palavra - ele fazia poesia, letra de música, teatro, cinema, crônica de jornal, lutava pelo tombamento de Ouro Preto e, em pouco tempo, se assumiria também como cantor e showman. Com Tom e João Gilberto, eles formaram a Santíssima Trindade - o clichê fora logo inventado e se espalhara - da bossa nova.
O único problema em chamar João Gilberto, Tom e Vinicius de o Pai, o Filho e o Espírito Santo do movimento era definir quem era quem na famosa tríade. Mas, fosse qual fosse, até hoje as mulheres deveriam acender velas diariamente a Vinicius. Foi ele quem as libertou do papel de vamps, vilãs e traidoras da música popular brasileira - que os letristas do passado, mesmo os maiores, se esmeravam em atribuir-lhes. Nas suas letras, elas perderam o ar de mulher fatal, com o batom borrado e as olheiras de rolha queimada, típicas das antigas noites de Copacabana, e rejuvenesceram lindamente: tornaram-se a garota de Ipanema, a menina que vem e que passa, a namorada, a estrela derradeira das manhãs do Arpoador. E foi Vinicius também que deu um novo caráter afirmativo aos sentimentos cantados nas músicas. Até então, o amor parecia impossível: "Ninguém me ama, ninguém me quer", dizia seu amigo Antonio Maria, ou "Não, eu não posso lembrar que te amei", queixava-se o grande Herivelto Martins. Vinicius mudou isso para "Eu sei que vou te amar", "Bom mesmo é amar em paz/ Brigas nunca mais", "É melhor ser alegre que ser triste/ A alegria é a melhor coisa que existe" e inúmeras mais.
Sua importância para o reconhecimento da obra de Tom, Carlos Lyra, Baden Powell e Edu Lobo, para nos limitarmos à sua primeira fase, ainda não foi estabelecida como merece. Mas é de tal ordem que, quando suas primeiras parcerias com Tom começaram a ser exportadas para os Estados Unidos, o grande problema era encontrar letristas americanos que produzissem versões à altura das letras originais - e eles não existiam. Os melhores letristas da época, como Johnny Mercer, Dorothy Fields, Sammy Cahn e a dupla Alan & Marilyn Bergman não podiam fazer o trabalho, por pertencerem a sociedades diferentes. Foi preciso contentar-se com os disponíveis, dos quais o melhor era Gene Lees. Nenhum dos outros - Norman Gimbel, o lamentável Ray Gilbert e o pior de todos (como letrista), Jon Hendricks - podia sequer escovar os sapatos de Vinicius.
A bossa nova foi ainda fundamental para outra importante mudança de pele que Vinicius iria protagonizar nos anos seguintes. Em 1962, ao estrelar com Tom, João Gilberto e Os Cariocas e o célebre show O Encontro, na boate Bon Gourmet, em Copacabana, teve de enfrentar a oposição do Itamaraty, que não gostava da ideia de ver alguém dos seus quadros - afinal, Vinicius era da carrière - sentado sobre um praticável, cantando sambas e bebendo, mesmo que uísque, e dizendo gracinhas ao microfone. Vinicius só foi liberado para fazer o show se se apresentasse de terno e gravata, não bebesse em cena e não fizesse comentários que "deslustrassem a instituição". Aceitou - mas, num show seguinte, com Dorival Caymmi e o Quarteto em Cy na boate Zum-Zum, o terno já deu lugar à camisa preta, de malha, existencialista, com mangas arregaçadas, e ao copo na mão. O Itamaraty estremeceu.
Este era apenas um dos impasses entre Vinicius e o emprego no qual, pelos 20 anos anteriores, ele se esforçara para não ser promovido - para não chamar muita atenção sobre si mesmo -, o que conseguira com garbo e brilho. Não esquecer também que, com o país sob um regime de exceção desde 1964, um homem como Vinicius, com trânsito em todas as esquerdas, era uma excrescência no corpo diplomático. Bastaria um arrocho do regime para que ele fosse expelido, o que aconteceu em fins de 1968, na sequência do Ato Institucional nr. 5.
Era apenas mais um casamento de que Vinicius saía, assim como saíra de outros, mais prazerosos, com Lucinha Proença (segundo todos, sua maior paixão) e Nelita Abreu Rocha, e ainda sairia de outros três até o fim da vida, ou como trocaria de parceiros sem nunca se afastar deles.

Lucinha Proença e Vinicius

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