quarta-feira, 26 de agosto de 2009

COLEÇÃO FOLHA
GRANDES ESCRITORES BRASILEIROS

4

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Sentimento
do Mundo

(1940)

2008

Titular dos direitos de edição: NOVA FRONTEIRA S.A.

"Tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do mundo". Os dois versos, abrindo o poema que dá título a este livro, são também uma introdução ao universo de Carlos Drummond de Andrade - um território literário sulcado pela ironia e pela perplexidade metafísica, dividido entre o tom prosaico (que aproxima a poesia dos problemas do homem comum, da "vida presente") e a impossibilidade da expressão (demarcando o abismo interior de cada um). Sentimento do Mundo é uma obra-chave na trajetória do poeta: publicada em 1940, confirma a sensibilidade modernista de Alguma poesia e Brejo das almas, com seu lirismo atento ao anedótico e ao coloquial, mas também desenvolve aquela complexidade que já estava presente em "No meio do caminho", o célebre poema de seu livro de estreia no qual se anunciam os pedregosos obstáculos da linguagem. A esses elementos, que Sentimento do Mundo amplia, se agregam preocupações de cunho político que passariam a ser permanentes na obra drummondiana.
O leitor tem diante de si, portanto, a síntese de uma poética que funde o registro memorialístico - como em "Confidência do itabirano", com seu desfecho entre gaiato e melancólico ("Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!") - ao protesto inflamado de "Mãos dadas" e "Elegia 1938" - ambos em litígio contra um "mundo caduco". Seria preciso acrescentar que a caducidade à qual se refere Drummond não diz respeito apenas à degradação da "carne da vida" (como no áspero "Dentaduras duplas") ou das relações sociais, mas da própria linguagem poética - que, como constatamos a cada leitura de Sentimento do Mundo, o poeta não cessou de renovar.


MANUEL DA COSTA PINTO
Colunista da Folha
(77 págs.)