quinta-feira, 7 de novembro de 2013

SHAKESPEARE |

Obra vasta

POR RICARDO LÍSIAS

As peças de Shakespeare costumam ser divididas em três partes: primeiro, os dramas históricos; depois, as bem-sucedidas comédias; por fim, seus famosos dramas, com os quais alcançou a fama entre o público e o reconhecimento da crítica. De fato, as peças históricas de Shakespeare nunca agradaram muito ao público. Além de serem longas, exigem um bom conhecimento do contexto do período, o que acaba restringindo o alcance da trama. Suas comédias, no entanto, tornaram-se famosas, tendo inspirado boas montagens cinematográficas, caso de A megera domada.


Mas é no drama que o gênio de Shakespeare se revela. Mesmo um texto mais simples e econômico em recursos, caso de Romeu e Julieta, tornou-se um sucesso estrondoso, entrando para o imaginário popular. Quantos não são, ainda, os trechos de Hamlet que viriam a se tornar expressões comuns em diversas línguas? Entre eles, e de passagem, é possível citar "há algo de podre no reino da Dinamarca"; "inconstância, seu nome é mulher" e o "o resto é silêncio". A própria língua inglesa moderna teria sido formatada em suas peças, que também forneceram para o léxico britânico milhares de palavras novas. Para a psicologia, ainda, as tragédias de Shakespeare ofereceram enorme campo de interpretações e análises. Por fim, é impossível deixar de notar o eco de Shakespeare em praticamente tudo que se refira à literatura de primeira qualidade, ainda que em universos profundamente distantes: O som e a fúria, o melhor romance de William Faulkner, por exemplo, ecoa diretamente um trecho de Macbeth, Jan Kott, em volume que analisa tais desdobramentos, Shakespeare nosso contemporâneo, encontra menção até em textos de Joseph Conrad.

Entre as tragédias shakespearianas mais importantes, destacam-se O rei Lear, Macbeth e, sobretudo, Hamlet. Na primeira, um rei, pretendendo evitar um desentendimento entre as filhas herdeiras, divide o reino, mas acaba decepcionado com uma das filhas, que não lhe demonstrara gratidão. O conflito, como sempre em Shakespeare, toma uma proporção crescente, e as outras duas filhas acabam se voltando contra o pai. Depois da conspiração de alguns nobres, o velho rei foge e vai ao encontro da filha com quem, antes, havia brigado. As duas irmãs que tinham conspirado contra o monarca acabam envolvidas em uma disputa e morrem. A peça termina com a morte do monarca e da filha que o acolhera e o reino acaba desestruturado.


Macbeth, por sua vez, se passa no reino da Escócia. Voltando de um combate, dois nobres cruzam com feiticeiras que preveem o futuro: um deles seria coroado rei, justamente Macbeth. Tomado pela previsão, ela mata o monarca e atribui a culpa aos príncipes herdeiros, o que acaba levando-o ao trono. Seu reinado, porém, é dominado por crises e perseguições sanguinárias que terminam com o assassinato de Macbeth, depois de uma campanha militar de seus inimigos, e a condução de uma nova linhagem ao trono.


O enredo de Hamlet é conhecido. Certa noite, o espectro do rei recentemente falecido aparece para denunciar que na verdade fora assassinato pelo irmão que, ato contínuo, casou-se com a rainha, mãe de Hamlet, e tornou-se rei. O fantasma pede vingança e o príncipe, atormentado com a visão, tenta descobrir a verdade enquanto vive um princípio de romance com a filha de um dos súditos da Coroa. A peça se desenvolve entre a astúcia do jovem Hamlet, que se passa por perturbado para se aproximar da verdade, e o desenrolar de um amor impossível. Confirmadas as denúncias, Hamlet vinga o pai, mas causa um mar de sangue que, como as outras peças, acaba desestruturando uma dinastia nobre e conduzindo outra ao poder.

Versão brasileira

No Brasil, como não poderia ser diferente, o teatro de Shakespeare ecoou com força. A peça Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias, um marco do nosso teatro romântico, é visivelmente inspirada em Otelo. O teatro de José de Alencar também aproveitou muito das peças de Shakespeare. O próprio Machado de Assis chegou a citar inúmeras vezes o autor de Romeu e Julieta. No século XX, a febre shakespeariana cresce ainda mais com a publicação de muitas traduções, algumas delas realizadas por especialistas na obra, caso do trabalho de Bárbara Heliodora, que tanto trouxe para o português várias peças como publicou estudos importantes. A propósito, as traduções de Shakespeare tornaram-se, elas mesmas, motivo de discussão: enquanto o trabalho de Heliodora, por exemplo, teria uma dicção elevada, as traduções de Millôr Fernandes, outro que se debruçou com brilho sobre as peças de Shakespeare, estariam mais perto da linguagem popular forjada pelo dramaturgo. Como se pode ver, o vigor de Shakespeare continua enorme quase quatrocentos anos depois da sua morte.

Cadernos Entre Livros - Número 1 - Literatura Inglesa.
págs. 17-20

Imagens: Todos os direitos reservados a Liana Olindina Rosado Ventura (Flickr).