quinta-feira, 10 de novembro de 2011

QUADRINHOS TAMBÉM TÊM HISTÓRIA

Por Sidney Gusman

Super-heróis, fumetti, mangás, underground, alternativos, manhwas, bande dessinée, além da produção caseira. O Brasil talvez seja um dos países mais ecléticos quanto à publicação de quadrinhos. Verdade que hoje as vendas estão longe das de outros tempos, mas a variedade continua grande. No entanto, há um nicho em que nosso mercado praticamente engatinha: o dos livros teóricos.

Nos Estados Unidos e na Europa, anualmente, são publicadas várias obras sobre editoras, personagens e criadores, sem contar as enciclopédias e as que ensinam a linguagem das HQs. Contudo, é raro chegarem aqui.

Há honrosas exceções, como História em Quadrinhos & Comunicação de Massa (MAM, 1970), de Pierre Couperie, Proto Destefanis, Edouard François, Maurice Horn, Claude Moliterni e Gerald Gassiot Talabot; Quadrinhos e Arte Sequencial (Martins Fontes, 1989), de Will Eisner; Desvendando os Quadrinhos (Makron Books, em 1995 e M. Books, 2004), de Scott McCloud; e Narrativas Gráficas, também de Eisner, que deve sair este ano pela Devir. Mas é pouco.

As editoras brasileiras se defendem dizendo que a especificidade dessas obras, o alto custo de royalties e de produção as tornam comercialmente inviáveis. Não deixa de ser verdade, mas essa carência ocorre também quanto aos autores nacionais, que demandam gastos bem menores.

E antes que alguém esbraveje que no Brasil quase não se faz livros nessa linha, uma informação: a cada ano, cresce assustadoramente nas universidades o número de trabalhos (embasados em pesquisas sérias) de mestrado, pós-graduação e de conclusão de curso sobre quadrinhos. E há muita coisa publicável!

Nossa bibliografia é pequena demais, e se restringe a obras dos batalhadores Álvaro de Moya (Shazam! e História da História em Quadrinhos), Sonia Luyten (O que é História em quadrinhos e Mangá - O Poder dos Quadrinhos Japoneses), Moacy Cirne (Para ler os Quadrinhos, A Explosão Criativa dos Quadrinhos, A Linguagem dos Quadrinhos, Uma Introdução Política aos Quadrinhos e História e Crítica dos Quadrinhos Brasileiros), Ionaldo A. Cavalcanti (O Mundo dos Quadrinhos e Esses Incríveis Heróis de Papel) e outros. O problema é que a maioria está fora de catálogo, sem esperança de republicação.

Mas há luz no fim do túnel. Depois de quase dez anos sem novidades relevantes, a Opera Graphica lançou em 2004 o interessante Quando surgem os super-heróis, de Roberto Guedes. Mas o melhor estava por vir.

E chegou no final do ano passado, quando a Companhia das Letras publicou o indispensável A Guerra dos Gibis, do jornalista Gonçalo Junior. Com um texto ágil, o autor narra algo até então inédito em nossa parca literatura sobre quadrinhos: o nascimento do mercado brasileiro e as dificuldades que as HQs enfrentaram aqui.


Durante mais de dez anos, o autor pesquisou em jornais, acervos de colecionadores e, principalmente, na biblioteca da Ebal. Não à toa, o personagem central é Adolfo Aizen, o responsável pela chegada dos suplementos de quadrinhos ao Brasil e fundador, em 1945, da Editora Brasil-América. O livro revela, inclusive, que ele era russo (e não baiano, como afirmava) e manteve isso em segredo até morrer, porque estrangeiros não podiam ter empresas de comunicação à época.

Gonçalo faz uma excelente reconstituição das tentativas de censura aos quadrinhos (que eram acusados até de "formar criminosos") e de como os gibis tiveram importância nos negócios de vários empresários, especialmente na construção do império televisivo de Roberto Marinho. Além disso, traz um caderno com várias capas de edições raríssimas.

Para os leitores mais jovens, A Guerra dos Gibis pode até chocar, pois parece ficção que as HQs tenha passado por tantas agruras em nosso país. E por sua seriedade e repercussão, este livro tem "bala" para exercer dois papéis fundamentais: abrir espaço para outras obras similares e mostrar que os quadrinhos no Brasil têm muita História.

Sidney Gusman é editor-chefe do www.universohq.com
E-mail: sgusman@universohq.com


Fonte: Wizard Brasil - Número 18 - Março de 2005

pág. 19