sábado, 7 de janeiro de 2012

XXXII


A CASA na manhã com a verdade revolta
de lençóis e plumas, a origem do dia
sem direção, errante como uma pobre barca,
entre os horizontes da ordem e do sonho.

As coisas querem arrastar vestígios,
aderências sem rumo, heranças frias,
os papéis escondem vogais enrugadas
e na garrafa o vinho quer continuar seu ontem.

Ordenadora, passas vibrando como abelha
tocando as regiões perdidas pela sombra,
conquistando a luz com tua branca energia.

E se constrói então de novo a claridade:
obedecem as coisas ao vento da vida
e a ordem estabelece seu pão e sua pomba.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Manhã

L&PM Pocket
julho de 2011