terça-feira, 3 de janeiro de 2012

SHAZAM!

Whiz Comics 2-A
Comic Book by Fawcett, Feb 1940

Com essa palavra mágica, surge o Capitão Marvel, o mortal mais poderoso da Terra e grande clássico das HQs

Por Antônio Luiz Ribeiro

Durante muito tempo, o Capitão Marvel foi o único herói capaz de rivalizar com o famoso Superman, em poderes e em vendas. Tudo começou com o aparecimento do Homem de Aço na revista Action Comics (1938), fato que desencadeou muitos gibis do gênero. O Capitão era um deles e tornou-se um dos maiores sucessos editoriais dos anos 1940.

Criado pelo editor-escritor Bill Parker e pelo artista C.C. Beck, ele estreou na Whiz Comics, revista da editora Fawcett. Ela trazia na capa e data de fevereiro de 1940. mas chegou às bancas ainda em 1939 e, não se sabe porquê, trazia o número 2, já que o número 1 nunca existiu - pelo menos não com o nome Whiz Comics.

No final de 1939, a Fawcett anunciou aos distribuidores de revistas de todos os Estados Unidos o lançamento Whiz Comics, cuja estrela seria o Capitão Marvel. Até então, a editora era conhecida por publicações técnicas e de variedades como Motion Picture, Mechanix Illustrated, Real Life Story e Captain Billy's Whiz-Bang, mas agora prometia um gibi que "chegava para ficar" e que traria "lucros permanentes". Até aí, nada novo, visto que muitas editoras anunciavam o mesmo e não cumpriam. Mas aquele novo e curioso gibi da Fawcett era diferente e honraria todas as promessas.

A ideia inicial era de que o novo personagem - que se chamaria Captain Thunder - liderasse um grupo de heróis fantasiados. Mas o conceito acabou descartado e, além de um novo nome, o herói ganhou uma identidade secreta. Na trama, Billy Batson é um adolescente que, ao pronunciar o nome do mago Shazam, se transforma no Capitão Marvel, o mortal mais poderoso do mundo.

A origem do herói é mostrada logo na primeira aventura: o órfão jornaleiro Billy Batson vende jornais à noite quando uma figura misteriosa pede que o garoto o siga para dentro da estação. O homem guia o jovém até um trem-fantasma futurista que os leva a uma galeria abandonada. Lá, o homem desaparece e deixa o garoto frente a frente com o mago egípcio Shazam.

O mago explica que combateu o mal durante séculos e que agora, cansado e à beira da morte, procura um sucessor, alguém de bom coração - alguém como Billy. Ele pede que o garoto pronuncie a palavra "Shazam" e, ao fazê-lo, Billy torna-se um adulto superpoderoso. Seus poderes derivam de cinco deuses e um personagem bíblico, cujas iniciais formam a palavra "Shazam": Salomão (sabedoria), Hércules (força), Atlas (vigor), Zeus (poder), Aquiles (coragem) e Mercúrio (velocidade).

A história tinha todos os ingredientes para agradar ao público: mistério; magia (Shazam era uma espécie de Merlin), o relâmpago quase hipnótico que surgia quando a palavra mágica era pronunciada e que também estava estampado no peito do herói; e a rádio Whizz, onde Batson trabalhava como locutor. Tudo desenhado com simplicidade. "Parto do princípio de nunca colocar no quadrinho o que não for necessário", revelou Beck numa entrevista. E a fórmula realmente funcionava. As páginas do Capitão eram atraentes e ótimas de ler.

Para desenhar o rosto do herói, Beck se baseou na fisionomia do ator Fred MacMurray. O ator parece ter entendido a homenagem, pois num de seus filmes interpreta um personagem parecido com o Capitão.

Whiz Comics 20-A
Comic Book by Fawcett, Aug 1941

Não demorou para que o Capitão Marvel aparecesse em outras revistas: Captain Marvel, Captain Marvel Story Book, America's Greatest Comics e Master Comics... No auge da popularidade, o herói também tentou a sorte nas tiras de jornais, mas não conseguiu emplacar nessa mídia. Seu lugar era realmente nos comic books (os populares gibis americanos), onde tinha como principal inimigo o Dr. Silvana, "o cientista mais louco do mundo". Baixinho, dentuço, careca e inteligentíssimo, Silvana trajava um jaleco branco de farmacêutico e apareceu logo na primeira aventura. Apesar da feiura, tinha orgulho de seu gênio e desdenhava o herói chamando-o pejorativamente de the big red cheese ("paspalhão vermelho", na versão brasileira).

Ao contrário dos tradicionais vilões de gibis, Silvana estava ciente de que o Capitão Marvel e Billy Batson eram a mesma pessoa. Por isso, vivia bolando planos para impedir Batson de pronunciar a palavra mágica.

Com o passar do tempo, Beck e sua equipe introduziram vários inimigos e personagens coadjuvantes. Um dos primeiros foi Beautia, a bondosa e bela filha loura de Silvana, com quem o herói teve um rápido affair. A necessidade de coadjuvantes fez com que os autores retomassem a ideia inicial do Capitão liderando uma equipe de super-heróis. Assim, no número 21 de Whiz Comics, com data de 5 de setembro de 1941 - a essa altura, a revista saía a cada semana e não mensalmente -, surgiram os Tenentes Marvel. Os Tenentes eram três homônimos de Billy Batson, mas sem parentesco algum: um Billy Batson que vivia no Texas, um do sul (provavelmente do Kentucky) e outro de Nova York. Quando os três se reuniam e gritavam ao mesmo tempo a palavra "Shazam", ganhavam os mesmos poderes e uniformes do famoso herói.

Whiz Comics 21-A
Comic Book by Fawcett, Sep 1941

A demanda por novas HQs do Capitão Marvel levou a Fawcett a contratar mais artistas. Em pouco tempo, havia um panteão de desenhistas trabalhando no Capitão Marvel: Kurt Schaffenberger e Pete Constanza, que também trabalhariam no rival Superman; Joe Simon; Jack Kirby, Chic Stone e George Tuska, que no futuro fundariam o universo de heróis de Stan Lee; Morris Weiss; Dave Berg (o mesmo da Mad); Marc Swayze, o criador de Mary Marvel; e Al McClean.

As tramas seguiam o padrão estabelecido nas primeiras histórias, com os novos artistas procurando reproduzir o estilo "cartunesco" de Beck. Conforme Simon revelou, em 2000, numa entrevista para a revista Alter Ego número 6, o Capitão era diferente de tudo que ele e Kirby haviam feito até então. "Tentávamos desenhar nossos vilões repulsivos, enquanto que o estilo de Beck era mais estilizado. Jack e eu seguíamos uma direção inteiramente diferente. Por isso a gente consultava cópias da Whiz quando desenhava o Capitão Marvel."

Captain Marvel Adventures 82-A
Comic Book by Fawcett, Mar 1948

Otto Binder, experiente roteirista de pulps de ficção científica, ingressou na equipe a partir do segundo ano e contribuiu com centenas de histórias, geralmente envolvendo viagens interplanetárias e temporais. Ele também criou um dos melhores personagens coadjuvantes. Seu Malhado, o tigre falante amigo do Capitão. Em sua primeira aparição, na revista Captain Marvel Adventures 79 (1947), Malhado era, na verdade, um tigre comum que fora submetido a uma experiência que lhe deu inteligência e forma bípede.

O sucesso do Capitão nos gibis abriu as portas para o personagem no cinema. Em 1941 a Republic produziu o seriado The adventures of Captain Marvel (no Brasil chamado de O homem de Aço que, ironicamente, era o apelido do rival Superman), com Tom Tyler no papel principal.

Aproveitando o bom momento, a Fawcett decidiu criar spin-offs (desdobramentos) do herói. Em 1941 foi lançado o Capitão Marvel Jr. (em Whiz 25) que, em sua identidade civil, era o jornaleiro aleijado Fred Freeman. Ao contrário de seu antecessor, Freddy não virava adulto ao dizer "Capitão Marvel" (sim, a palavra mágica do novo herói era essa). Ele se transformava em um super-herói adolescente que trajava uniforme azul.

Captain Marvel Adventures 18-A
Comic Book by Fawcett, Dec 1942

No ano seguinte surgiu Mary Marvel (em Captain Marvel Adventures 18), a bela e angelical irmã de Billy. Detalhe: ela era a cara da atriz Judy Garland. Em um momento de perigo, Mary constatou que podia se transformar numa versão feminina de seu irmão. Logo, os dois novos heróis ganharam sua próprias aventuras, mas em revistas diferentes - as de Júnior foram publicadas em Master Comics (a partir da edição 22, em 1942), enquanto Mary passou para a Wow Comics (a partir do número 9, com data de janeiro de 1943).

Judy Garland

Se os três vendiam bem, então por que não juntá-los numa só revista, onde combateriam uma ameaça comum? Foi o que Fawcett fez ao criar o título Marvel Family (Família Marvel). Lançada em 1945, a nova Família Marvel logo se mostrou um dos títulos preferidos dos leitores, ao contrário do que acontecera com grupo anterior, os Tenentes Marvel.

Marvel Family 1-A
Comic Book by Fawcett, Dec 1945

Enquanto isso, a Whiz Comics vendia perto de meio milhão de cópias por mês. Em 1943, a revista Captain Marvel Adventures vendia cerca de um milhão de cópias por edição e, em 1946, os números atingiam a marca de um milhão e meio. E isso no ano em que a revista era lançada duas vezes por semana. Incomodada com esses números, em 1941, a DC iniciou um processo contra a Fawcett acusando-a de infringir os direitos autorais. Para a DC, o Capitão Marvel era muito parecido com o Superman.

O processo se arrastou por toda a década de 1940 e parte dos anos 1950, quando a Fawcett concluiu que os custos do processo inviabilizaram a publicação do Capitão. Além disso, o gênero super-herói estava fora de moda, sendo substituído pelos cowboys. Assim, em 1953, a Whiz chegou ao último número com a edição de junho e a Captain Marvel Adventures com a de novembro.

O curioso é que países como o Brasil continuaram publicando a revista do Capitão normalmente, já que a DC só implicava com a versão publicada em território americano. Para suprir a falta de material inédito, a Rio Gráfica e Editora (RGE), que publicava o personagem no país, recorreu a artistas brasileiros para produzir novas aventuras. E essa não foi a primeira vez que isso aconteceu. Nos anos 1940 houve uma HQ brasileira na qual o Capitão Marvel se encontrava com o Tocha Humana. Esse Capitão Marvel da RGE durou até a segunda metade dos anos 60.

Mundo dos Super-Heróis - Número 16 - maio/junho de 2009
págs. 10-14