domingo, 29 de janeiro de 2012

LIV


ESPLÊNDIDA razão, demônio claro
do cacho absoluto, do reto meio-dia,
aqui estamos ao fim, sem solidão e sós,
longe do desvario da cidade selvagem.

Quando a linha pura rodeia sua pomba
e o fogo condecora a paz com seu sustento,
tu e eu erigimos este celeste efeito.
Razão e amor despidos vivem nesta casa.

Sonhos furiosos, rios de amarga certeza,
decisões mais duras que o sonho de um martelo
caíram na dúplice taça dos amantes.

Até que na balança se elevaram, gêmeos,
a razão e o amor como duas asas.
Assim se construiu a transparência.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Tarde

L&PM Pocket
julho de 2011