domingo, 8 de fevereiro de 2009

A primeira estação, a “criação” literária do inglês moderno no século XIV, vem precedida da história da ocupação romana, sujeitando por séculos os primitivos habitantes da ilha, os bretões (que sobrevivem, com peculiaridades lingüísticas e culturais, nos nativos do País de Gales, como o poeta Dylan Thomas). Com a queda do Império Romano, povos como os anglos e os saxões, premidos por vândalos e godos, invadiram e se fixaram na Britannia. Seus dialetos se confundem com o inglês arcaico, língua áspera e consonantal, e sobrevivem em poemas com o “Beowulf”, uma saga guerreira carregada de divindades nórdicas, datando do século IX. Ao seu legado, pode-se atribuir o gosto pelas aliterações iniciais como mecanismo rítmico e encantatório de associação entre o som e o sentido, tão persistente na poesia inglesa, já em Shakespeare (Full Fathom Five thy Father lies), mas ainda em Gerard Manley Hopkins. A invasão normanda, com Guilherme, o Conquistador, faz com que o inglês arcaico divida seu espaço com o francês dos invasores e com o latim, língua de compromisso, nos séculos XII e XIII, suavizando-se sob o influxo de ambos.

É sobre esta base que Chaucer (1343-1400), contemporâneo da Guerra dos Cem Anos, com a França, do assassinato de Ricardo II e da ascensão de seu assassino, Henrique IV, deu estatuto literário ao dialeto que se falava em Londres. Sua obra-prima, Os contos da Cantuária, é uma coletânea que traz um grupo humano variado, gente de carne e osso, em meio a uma peregrinação religiosa, entretido em um concurso para avaliar, durante um jantar, quem conta a melhor história. Naturalidade bem-humorada da expressão e valores que antecipam o humanismo renascentista (ceticismo e tolerância) fazem dele um escritor moderno, que atravessa os tempos e abre caminho para a grandeza soberana que a literatura nascente alcançaria na forma dramática.