domingo, 15 de fevereiro de 2009

Maturidade elisabetana

Passando pelos “mistérios”, “milagres” e “moralidades”, formas medievais do teatro, o drama inglês encaminhou-se para a maturidade elisabetana, passando por imitadores de modelos latinos (Sêneca e Plauto), introdutores do verso branco que só alcançaria seu esplendor com Cristopher Marlowe (1564-1593) e William Shakespeare (1564-1616). Marlowe, grande nome antes de Shakespeare, é o dramaturgo que expressa o espírito da época, das aspirações de Doutor Fausto aos bastidores maquiavélicos da escalada política de Tamerlão. Foi contemporâneo da construção dos teatros londrinos (A Rosa, O Cisne, O Globo), edifícios à volta de um pátio central que acolhiam público democraticamente heterogêneo, dando margem à criação de companhias estáveis de atores.

A variedade e novidade de seu mundo moral e mental, a mescla estilística que aproxima alto e baixo, trágico e cômico, grotesco e sublime, o gênio nos longos desdobramentos metafóricos, o gosto e habilidade no trocadilho, os personagens que ganham o estatuto de arquétipos atemporais, sem perder o substrato realista, complexo e individual, fazem de Shakespeare ápice e condensação de uma literatura. Jogam na sombra talentos próximos como o de Ben Johnson (1574-1637) e suas comédias de tipos fixos, encarnação arrematada de uma única qualidade (avareza, covardia, ira), como Volpone e O alquimista.

Também amargaram longo ostracismo os poetas conhecidos pejorativamente como “metafísicos”, os barrocos ingleses. Formavam um grupo encabeçado por John Donne (1572-1631), dono de um estilo engenhoso e refinado, correspondente na lírica à riqueza dramática do autor de Hamlet. A sintaxe retorcida pelo exercício do wit (capacidade de verbalizar analogias insuspeitas em fórmulas breves e desconcertantes) e o concentrado encadeamento de metáforas foram redescobertos para a modernidade pelas mãos de T.S. Eliot. De outro teor é a poesia que aspira à grandeza épica de John Milton (1608-1674), engajado defensor do puritanismo e da Reforma que, em seu Paraíso perdido, tratou do tema da queda, refinando ao limite as possibilidades expressivas do verso branco, latinizado no vocabulário e na sintaxe, afastado da fala cotidiana. Os modelos clássicos voltam à cena no século seguinte, o augustano sintetizado no saber enciclopédico de Samuel Johnson (1709-1784), doutor por antonomásia, contemporâneo à profissionalização das letras. Crítico judicioso, autor da Vida dos poetas e do Prefácio a Shakespeare, estava obrigado, para sobreviver, a escrever muito. Atacava em todas as frentes: ensaio, teatro, poesia e romance filosófico, além de importante dicionário. Numa era em que o mecenato de nobres cedia espaço ao dinheiro anônimo do público, Johnson sustentou, praticamente sozinho, dois periódicos. Se os dísticos rimados de Alexander Pope (1688-1744) traduziam para o campo da lírica os imperativos de uma era racional e regrada, foi a narrativa que experimentou as maiores mudanças. Profundamente enraizada na atualidade, valorizando a experiência histórica das novas classes ascendentes, apoiada em convenções que procuravam ressaltar a verossimilhança exemplar dos destinos individuais representados, a prosa inglesa do século XVIII firmou as bases do romance realista moderno, novo gênero que ultrapassaria em muito as fronteiras da língua inglesa.


Samuel Johnson (1709-1784)