segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Gibi é cultura. Eu provo

Capitão América 70
Editora Abril - março de 1985

Em dezembro, o jornalista Gilberto Dimenstein fez um comentário polêmico em sua coluna na Folha de S. Paulo. Com o intuito de criticar um projeto do governo que pretende distribuir quase R$ 7 bilhões para a população gastar em cultura. Dimenstein pegou na veia de muitos fãs de quadrinhos. "O dinheiro do vale-cultura seria mais bem usado se focado nos estudantes das escolas públicas. Desde ontem, meu receio aumentou ainda mais, pela possibilidade de que, com esse benefício, mulher pelada também seja cultura. Ou gibi", diz o jornalista, preocupado que as pessoas gastem a tal verba com revistas como a Playboy ou com gibis.

Rapidinho, diversos blogueiros cairam de pau em cima do Dimenstein. A defesa era óbvia: quem faz um comentário desses não conhece os trabalhos de Will Eisner, Art Spiegelman ou Alan Moore, nem acompanha as recentes obras literárias adaptadas para os quadrinhos. Também nunca refletiu sobre "ler é mais importante que estudar", uma conhecida frase creditada ao Ziraldo.

Gilberto Dimenstein, 52 anos, tem uma carreira voltada para a cidadania. Acompanho seus textos na Folha e, entre um congestionamento e outro, ouço seus comentários na rádio CBN. Geralmente gosto do conteúdo, pois Dimenstein se esforça em divulgar ações e bons exemplos relacionados à educação e cultura. Seguindo ele, cultura é essencial para melhorar a vida dos cidadãos. Nesse aspecto, Dimenstein está certíssimo. Seu comentário sobre os gibis é que foi infeliz, infeliz e errado, pois sou exemplo de como os quadrinhos podem ajudar na educação de uma pessoa. Se não fossem os quadrinhos, minha vida seria outra.

HQs: minha salvação

Venho de família humilde, como boa parte da população brasileira. Meu pai era motorista de ônibus e minha mãe cuidava da casa. Tenho dois irmãos e durante muito tempo vivemos na periferia de São Paulo, numa casa de três cômodos.

Sempre estudei em escolas públicas fraquíssimas. Poucas casas que frequentei na infância, seja de amigos ou parentes, tinham livros. Assinatura de jornal, então, nem sabia que existia. Mesmo assim, passei boa parte da minha adolescência lendo. Foram os quadrinhos que me despertaram esse prazer.

Quando criança, eu já lia Disney e Turma da Mônica, mas sem muito compromisso. Eu preferia os desenhos animados da TV. Mas lembro bem de uma cena que mudou minha vida: estava na 5a. série e alguns amigos apareceram com diversos gibis de super-heróis. Um deles era Capitão América 70, da Ed. Abril. Foi amor à primeira vista e nunca mais parei: li tudo que pude de super-heróis. Como não tinha dinheiro, comprava um gibi por vez e, sempre que juntava dois, trocava-os por um terceiro numa banca de revistas usadas perto de casa. Por conta disso, nunca consegui montar uma coleção durante a adolescência. Para manter meu hobby, muitas vezes vendia latas e garrafas para um ferro-velho. Uma vez encontrei alguns gibis bem interessantes em meio ao lixão. Lembro bem de um Heróis da TV como o Conan na capa...

O prazer de ler esses quadrinhos me levou a buscar coisas mais sofisticadas. Dos super-heróis convencionais pulei para as HQs mais adultas, como Cavaleiro das Trevas, Batman Ano Um... Depois, conheci o humor brasileiro (Henfil, Ziraldo, Jaguar) e aprendi a questionar os problemas do nosso país. Já com Laerte, Angeli e Robert Crumb comecei a questionar o próprio ser humano. Foi um passo para também me interessar por literatura, cinema, música e jornalismo.

Eu curtia tanto os quadrinhos que comecei a fazer meus próprios gibis - não vou detalhar o caso, pois já comentei essa história algumas vezes aqui e vocês devem estar cansados. Inspirado pelos gibis, decidi estudar desenho e trabalhei como design gráfico. Virei repórter e editor. Hoje sou um profissional bem pago, com mais informação que a média das pessoas e ainda tenho o privilégio de editar uma revista sobre minha paixão. Os gibis me acompanharam por todo esse tempo.

É injusto acusar os quadrinhos de futilidade. Seria como condenar o cinema apenas pelo conteúdo discutível de filmes de besteirol ou produções malcuidadas. Seria como rebaixar a literatura por conta de livros oportunistas de auto-ajuda.

Os quadrinhos são uma linguagem complexa e rica. Ao mesmo tempo, são acessíveis e ideais para ajudar no desenvolvimento das crianças. Quando eu tiver filhos, com certeza os estimularei a ler quadrinhos.

Outra coisa, Dimenstein: não tenho nada contra revistas de mulher pelada. Na adolescência, também aprendi muito com elas.

Manoel de Souza é editor da Mundo dos Super-Heróis

Mundo dos Super-Heróis - Número 20 - janeiro/fevereiro de 2010
pág. 98