quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

XV


DE HÁ muito tempo a terra te conhece:
és compacta como o pão ou madeira,
és corpo, cacho de segura substância,
tens peso de acácia, de legume dourado.

Sei que existes não só porque teus olhos voam
e dão luz às coisas como janela aberta,
mas porque de barro te fizeram e cozeram
no Chile, num forno de adobe estupefato.

Os seres se derramam como ar ou água ou frio e
vagos são, se apagam ao contato do tempo,
como se antes de mortos fossem fragmentados.

Tu cairás comigo como pedra na tumba
e assim por nosso amor que não foi consumado
continuará vivendo conosco a terra.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Manhã

L&PM Pocket
julho de 2011