quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

PARA OS NAMORADOS


O amor tem sido o tormento dos homens e o martírio das mulheres. Dêste tormento e dêste martírio é que se tece - fios de ouro ou de prata - a glória da vida.

Ninguém houve no mundo - palhaço de picadeiro ou monge do deserto - que não se visse, um dia, enredado na trama celeste e infernal do amor.

O amor é a respiração da humanidade, a lei suprema que rege a gravitação universal dos corações na terra, como essas outras que regem no espaço, a gravitação das estrelas.

O amor é a última explicação de todos os mistérios humanos, retine e ecoa no riso de quem se alegra e geme ou sussurra na voz angustiada de quem sofre. Ele é a luz dos olhos formosos das mulheres, a côr dos lábios fortes dos homens, a sedução irresistível dos colos femininos, a dominadora energia das espáduas largas dos atletas.

Brilha no ouro claro dos cabelos louros para tentação dos morenos e forma o fundo negro das cabeças de azeviche para endoidecer as mulheres de pele diáfana e macia. Oculta-se, como um perfume, que depois se vai desprendendo, aos poucos, na palma pequenina de uma mulher, encerrada na conha forte e quente de uma destra masculina.

Flui, à semelhança de um sôpro imponderável, dos gestos elegantes e orgulhosos com que as moças se miram nos espelhos ou prendem, sob o chapéu, a mecha irrequieta do cabelo sempre a escapar. Sentem-no as mulheres na maneira larga e despreocupada com que os homens acendem ou jogam fora o cigarro já fumado, no braço viril de quem ama, na voz imperativa dos que nasceram para mandar, no exterior rude e vincado que denuncia a alma forte e destemida.

Entrevemo-lo nas menores coisas de que se entrama a existência deliciosamente fútil dos que se querem bem: aquela malva murcha e muda que nos veio dentro da carta... Não tinha uma única palavra escrita, nem sequer uma inicial... E quanta coisa adorável não nos disse! Quanta palavra boa, oculta em suas nervuras e, sobretudo, quanta esperança no verde da sua fôlha! Aquela rosada pétala de flor deixada, por esquecimento proposital, no livro, que nos mandou, no romance lido em dois dias, na ânsia de novas emoções... Pétala rosada de flor, como te pareces com o rosto amado de quem aqui te deixou! Reproduzes, na tua delicadeza, a meiguice colorida e quente dêsse rosto... Quero chegar-te a mim: sinto o calor do rosto dela! Sinto o pulsar do seu sangue em ti! Tens a mesma maciez de penugem que convida a adormecer, a sonhar! Permita-me que te beije?

Que significam essas páginas do romance, assinaladas com o dobrar das pontas, no alto? Quantas revelações neste gesto feminino! Tudo o que nos queria dizer e não disse, aí está, no assunto descrito, nas frases sublinhadas e, por vêzes, numa única palavra, num nome apenas. Quem nos dá essa fôrça desvendadora de mistérios? o amor.

O amor circula em nossas veias, lateja-nos na fronte, pulsa-nos dentro do ser e traduz, nas côres da epiderme, as impressões do coração em luta. Vive no reflexo do sol, quando estamos contentes, na voz dos pássaros, quando não nos contemos de alegria, no bimbalhar festivo dos sinos em manhã dominical, no esplendor da luz nos nossos meios-dias tropicais.

Vive na pálpebra que se abaixa de timidez, no primeiro encontro, no tremor frio das mãos que se apertam pela primeira vez, na perturbação da voz de quem se vai estrear na vida, ao dizer alto o que baixinho o coração tinha dito em tantas ocasiões de sinceridade: - Eu te amo!

O amor! A projeção de Deus nas criaturas para que a feiúra da terra tenha os encantos do céu!

Cartas Esquecidas - 1951
Frei Francisco da Simplicidade
Coleção Saraiva
207