domingo, 5 de fevereiro de 2012

LXI


TROUXE o amor sua cauda de dores,
seu longo raio estático de espinhos,
e fechamos os olhos porque nada,
para que nenhuma ferida nos separe.

Não é culpa de teus olhos este pranto:
tuas mãos não cravaram esta espada:
não buscaram teus pés este caminho:
chegou a teu coração o mel sombrio.

Quando o amor como uma imensa onda
nos estrelou contra a pedra dura.
nos amassou com uma só farinha,

caiu a dor sobre outro doce rosto
e assim na luz da estação aberta
se consagrou a primavera ferida.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Tarde

L&PM Pocket
julho de 2011