terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

LXXXIV


UMA VEZ MAIS, amor, a rede do dia extingue
trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e à noite entregamos o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e a terra.

Só a lua no meio de sua página pura
sustém as colunas do estuário do céu,
a habitação adota a lentidão do ouro
e vão e vão tuas mãos preparando a noite.

Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,

até que só sejamos um só espaço escuro,
uma taça em que a cinza celeste tomba,
uma gota no pulso de um lento e longo rio.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011