segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

LXXVI


DIEGO RIVERA com a pacência do osso
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.

Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentavam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.

Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda

te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Tarde

L&PM Pocket
julho de 2011