quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

LVIII


ENTRE os espadões de ferro literário
passo eu como um marinheiro remoto
que não conhece as esquinas e que canta
porque sim, porque como se não fosse por isso.

Dos atormentados arquipélagos trouxe
meu acordeão com borrascas, aragem de chuva louca,
e um costume lento de coisas naturais:
elas determinaram meu coração silvestre.

Assim como os dentes da literatura
trataram de morder meus honrados talões*,
eu passei, sem saber, cantando com o vento

para os almazéns chuvosos de minha infância,
para os bosques frios do Sul indefinível,
para onde minha vida se completou com teu aroma.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Tarde

L&PM Pocket
julho de 2011