quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

LXV


MATILDE, onde estás? Notei, para baixo,
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.

Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.

De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:

e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Tarde

L&PM Pocket
julho de 2011