sábado, 4 de fevereiro de 2012

LX


A TI FERE aquele que quis fazer-me dano
e o golpe do veneno contra mim dirigido
como por uma rede passa entre meus trabalhos
e em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo.

Não quero ver, amor, na lua florescida
de tua fronte cruzar o ódio que me espreita.
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida sua inútil coroa de facas.

Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
onde canto a inveja maldiz, ri e rói.

E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
é um traje vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Tarde

L&PM Pocket
julho de 2011