domingo, 19 de julho de 2009

COLEÇÃO FOLHA
GRANDES ESCRITORES BRASILEIROS

16

GRACILIANO RAMOS

Infância
(1945)

2008

Titular dos direitos de edição: NOVA FRONTEIRA S.A.

"Foi o medo que me orientou nos primeiros anos, pavor." Essa descrição fria das páginas iniciais dará o tom do magistral relato autobiográfico que é Infância, publicado em 1945. Nele, Graciliano Ramos (1892-1953) repassa os primeiros anos vividos no interior de Alagoas e Pernambuco. A violência familiar, a seca, a opressão dos coronéis e o nascimento do desejo nos são apresentados numa prosa cortante, isenta de sentimentalismos. Assim, em casa sofria "pancadas, gritos, chicotadas, puxões de orelha"; lá fora, só via a "devastação, calcinação" da paisagem agreste; e, ao deixar a fazenda e mudar-se para o vilarejo de Buíque, consira-se então "fora da realidade e só", "em abandono completo".
Graciliano Ramos condensa aqui o estilo e os temas presentes em obras-primas como Angústia (1936) e, sobretudo, Vidas Secas (1938). Mas vai além, tanto na força das imagens - Buíque "tinha a aparência de um corpo aleijado" - quanto na psicologia do pai, de ecos kafkianos - "Meu pai era terrivelmente poderoso, e essencialmente poderoso. Não me ocorria que o poder estivesse fora dele".
Adotando um ponto de vista mais distante ao narrar seus anos de formação, Graciliano envereda por questionamentos metafísicos que podemos apenas vislumbrar em suas narrativas anteriores. É assim que, ao ser uma vez mais vítima das arbitrariedades dos pais, crava: "O juízo dos homens era esquisito. Bem esquisito". Infância mergulha fundo nas motivações imponderáveis das ações humanas, buscando encontrar um sentido que explique tanta dor e tanto sofrimento.


MARCOS FLAMÍNIO PERES
Editor do Mais!
(221 págs.)