quinta-feira, 9 de julho de 2009

Biblioteca FOLHA

VIRGINIA WOOLF

Rumo ao Farol

(1927)


2003

A literatura produziu clássicos falando de viagens. O retorno de Ulisses a sua casa, na Odisséia; o périplo de Dante, na Divina Comédia; as andanças do cavaleiro Dom Quixote. E um simples passeio de barco, a uma ilha vizinha, pode render um clássico? Na mão de Virginia Woolf, sim.
O enredo põe em ação um grupo familiar, os Ramsay, e alguns amigos, numa casa de praia da Grã-Bretanha, em dois momentos distintos. O primeiro ocorre quando a Sra. Ramsay, mãe de oito vigorosos filhos, está no esplendor de sua beleza, discreta e luminosa; ela e seu marido, um intelectual de méritos, recebem na casa um aluno dele, um velho poeta, um botânico, uma pintora. Vivem-se os momentos anteriores à I Guerra (1914); todos ali são refinados, delicados, de intensa vida intelectual. E a Sra. Ramsay percebe que aquele é um momento único de felicidade.
Mas as coisas mudam, porque o tempo passa. Numa breve segunda parte, o romance relata nada mais que a ausência: a harmoniosa família que ocupava a casa de veraneio não tem vindo, noas anos da Guerra. Chega-se à última parte, quando os remanescentes da família e dos amigos voltam à casa, já um tanto deteriorada. Desta vez, passada a Guerra, vai-se realizar o passeio de barco até a ilha do farol, passeio prometido desde anos antes, quando todos ainda estavam presentes e o futuro parecia uma certeza.
Rumo ao Farol é um romance de narração delicada e tempo espesso. Tudo acontece mais na interioridade dos personagens do que em suas ações, e tudo chama para os detalhes da sensibilidade individual. Mas nessas pequenas percepções se lê muito mais que a crônica do amadurecimento, da desilusão com a vida, do fim da infância, porque tudo se integra e se dissolve no andamento maior da História, que costuma ser grandiosa na decadência dos impérios.


LUÍS AUGUSTO FISCHER
Colunista da Folha

(223 págs.)