sábado, 18 de abril de 2009

Biblioteca FOLHA

MARGUERITE DURAS

O Amante

Título original:
L'amant
(1984)


2003

Tradução de Aulyde Soares Rodrigues

O Amante conta a descoberta do amor e do sexo por uma adolescente, filha de uma família de colonos falidos na Indochina francesa, nos anos 30. O amor proibido da menina branca, sua entrega a um jovem chinês rico, dez anos mais velho do que ela, é também uma forma de escapar à claustrofobia e à derrocada da família, o seu "envelhecimento" precoce, a descoberta da sua solidão.
É também a história da própria escritora.
Duras ergueu uma ponte impensável entre fotonovela e literatura de vanguarda. Seu amante, nesse sentido, é um príncipe encantado que faz da menina adolescente uma prostituta aos olhos dos outros e que a faz descobrir ao mesmo tempo a solidão do seu próprio desejo, e por consequência a vocação para a literatura. Em troca, e à imagem da prostituta, a menina faz o amante apaixonado sofrer de amor.
É a coragem ou a loucura de avançar sobre um fio tênue entre a originalidade e o grotesco que fez de Duras uma verdadeira escritora - sabendo que corria o risco de escorregar, de resvalar no ridículo, e ainda assim preferindo o risco à repetição. Razão de sua obra muitas vezes ser tão vulnerável e dependente dos bons olhos do leitor.
A obra de Duras é essa vulnerabilidade, essa exposição ao leitor, sem a cumplicidade do qual pode não restar nada além do escárnio. Há quem a odeie por isso. Mas foi também essa entrega e essa exposição que lhe garantiram uma legião de fãs, que reconheceram a coragem (ou a loucura) de uma escritora determinada a criar uma língua e um estilo próprios. Duras passou a viver a obra, incorporou o estilo à própria vida. E é o que faz do relato autobiográfico de O Amante também um texto ficcional, um romance por denegação: "A história da minha vida não existe".

BERNARDO CARVALHO
Colunista da Folha

(95 págs.)