domingo, 12 de abril de 2009

OS IMORTAIS
DA LITERATURA UNIVERSAL

6

Honoré de Balzac

EUGÊNIA GRANDET


1971

Título do original:
Eugénie Grandet
1833



1ª Edição
Agôsto – 1971

Tradução de
Moacyr Werneck de Castro

Com licença da Difusão Européia
do Livro, São Paulo, detentora do “Copyright”
© – 1971

À MARIA*
Seja o teu nome aqui - pois
que o teu retrato é o mais belo
adôrno desta obra - como
um ramo bento de murta, apa-
nhado numa árvore qualquer,
mas certamente santificado pe-
la religião e renovado, sempre
verde, por mãos piedosas**,
para proteger a casa.
O Autor.***



* Trata-se de Maria du Fresnay, que foi, por algum tempo, a amante
de Balzac, e que, segundo se julga, lhe deu uma filha, Marie Caroline du
Fresnay, nascida em Sartrouville em 1834 e falecida em Nice em 1930,
com mais de noventa anos de idade.
** Na edição Charpentier, de 1839, onde apareceu pela primeira vez,
essa dedicatória termina na palavra "piedosas"; o último trecho da frase
só foi acrescentando na edição de 1843.
*** Assinatura da dedicatória da edição de 1839.


FISIONOMIAS BURGUESAS


Há, em certas cidades de província, casas cuja vista inspira uma melancolia igual à que provocam os claustros mais sombrios, as charnecas mais desoladas ou as ruínas mais tristes. Talvez haja a um tempo nessas casas o silêncio do claustro, a aridez da charneca e as ossadas das ruínas; a vida e o movimento, ali, são tão tranqüilos que um forasteiro as julgaria desabitadas, se não topasse de súbito com o olhar mortiço e frio de uma pessoa imóvel, cujo rosto quase monástico surge na janela ao rumor de um passo desconhecido.
Essas características de melancolia existem na fisionomia de uma casa situada em Saumur, no fim da rua em ladeira que conduz ao castelo, na parte alta da cidade. Essa rua*, hoje pouco movimentada, quente no verão, fria no inverno, escura em alguns trechos, é notável pela sonoridade de sua pequena calçada de pedras, sempre limpa e sêca, pela estreiteza de seu leito tortuoso, pela paz de suas casas, que pertencem à cidade velha e são dominadas pelas muralhas.
Ali se vêem habitações três vezes seculares, ainda sólidas, embora construídas de madeira, e cuja diversidade de aspectos contribui para a originalidade que recomenda essa parte de Saumur à atenção dos antiquários e artistas. É difícil passar dessas casas sem admirar as enormes vigas cujas extremidades são talhadas em figuras estranhas e que coroam com um baixo-relêvo negro o rés-do-chão da maioria delas.


* Diz Claude Serval que em 1830 havia duas ruas subindo para o castelo, e "que se chamavam, uma e outra, a Subida do Castelo", mas "hoje em dia há uma só, chamada Rua du Fort". Quis-se reconhecer, na casa número 7 dessa rua, a casa de Grandet, mas é suposição bem arriscada, pois não corresponde à descrição feita por Balzac, a não ser pelo fato de ficar recuada. (Cf. Claude Serval, Autour d'Eugénie Grandet, págs. 29-30.)

Págs. 15-16

(230 págs.)