sábado, 17 de março de 2012

O AUTOR AOS SEUS VERSOS


II

Chorosos versos meus desentoados,
Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza, e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.


Bocage
O delírio amoroso &
outros poemas
Sonetos Eróticos

L&PM Pocket, vol. 382
junho de 2011

imagem: True Art Gallery
Artist: Fabio Perez