quinta-feira, 1 de março de 2012

LXXXVI


OH CRUZ DO SUL, oh trevo de fósforo fragrante,
com quatro beijos hoje penetrou tua formosura
e atravessou a sombra e meu chapéu:
a lua ia redonda pelo frio.

Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
de escarcha azul, serenidade do céu,
espelho, apareceste e completou-se a noite
com tuas quatro adegas trêmulas de vinho.

Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
cruz verde, perrexil da sombra radiante,
vaga-lume à unidade do céu condenado,

descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.

Pablo Neruda
Cem Sonetos de Amor
Noite

L&PM Pocket
julho de 2011