segunda-feira, 2 de maio de 2011

Shadow of the Colossus

Plataforma: PlayStation 2
Produtora: Sony Computer Entertainment
Desenvolvimento: Team Ico
Lançamento: Outubro de 2005 (Japão/EUA)


Se lhe fosse dada a tarefa de convencer alguém de que os videogames são um meio louvável, constituído de potencial para expressão artística equivalente ao cinema e à literatura, então Shadow of the Colossus poderia ser o jogo que você usaria para ilustrar o argumento. O conceito central é simples: o herói deve derrotar uma série de inimigos gigantescos para, em troca, reviver a amada falecida.


Ainda assim, encontrar-nos em uma ficção de riqueza inquestionável, de poder emocional ímpar, de cujas qualidades artísticas, fundamentais estão fundidas à interatividade. A boa reputação que Shadow of the Colossus tem como objeto de análise é inteiramente dependente do fato de ser um jogo, e não um livro ou longa-metragem. A totalidade do mundo e as mecânicas de jogabilidade crescem a uma só vez para nos deixar com imensa sensação de esforço. Apesar do final meio-amargo, batalhamos com tanto afinco para o cumprimento das ambições que sentimos uma mescla profunda de exaustão, resignação e perda.


O conceito de combates contra chefes é repensado e somos brindados com uma corrente de dezesseis adversários descomunais, cada um constituindo mais ou menos uma fase, pela linguagem emprestada de jogos convencionais. O fato de que cada estágio envolver efetivamente a mesma missão cria uma repetição que aglutina a grandiosidade da tarefa. Finda a peleja, o protagonista retorna ao começo, torna-se mais esfarrapado, e sem titubear deve se erguer e proseguir na epopéia, procurando o próximo destino.


A paissagem através da qual viajamos, uma península de beleza estonteante e desolada, separada dos restos da civilização por uma cadeia montanhosa, evoca um sentido de isolamento total. Não há ninguém aqui para nos dar carinho ou ajuda, só lagartos esporádicos e frutos espalhados. Ao errar pelas ruínas, geralmente sem quaisquer incidentes por vários minutos, nota-se que não há música - somente o som das ferraduras do cavalo e o longínquo chamado de uma águia. Somos pequenos e sozinhos, e constrastamos com a vastidão da jornada.


É uma sensação exacerbada pelos oponentes, os colossi, cuja imensidão é sublinhada por sua biologia insólita; não são monstros, mas estruturas extensas regadas com vida. As animações do personagem ao escalar com tremendo esforço físico, ao deslocar-se pela vegetação situada no dorso de um colosso, ou ao dependurar-se de um dos braços, geram uma reação tão visceral às nossas ações que prendemos a respiração até que o perigo passe. Não obstante o empreendimento, a derrota de um colossus quase não se converte em triunfo; somos lembrados de que neste melancólico processo da morte estamos exterminando criaturas únicas e majestosas, e que muitas sequer reagem à presença do herói.


Esta não é a única pitada de emoção. Quando o cavalo Agro despenca sobre o vale, resignadamente salvando seu mestre, a sensação de desespero diante de mais um sacríficio é palpável. Agro é mais que uma montaria animada de forma brilhante e dotada de personalidade, porque, além disso, ele fornece vitalidade por ser objeto imperfeito de controle - o equino não o obedece sempre.


Os laços emocionais à garota que queremos reviver e à missão são definidos por uma lógica circular - lutamos por ela, então ela é digna dos nossos atos. Quando o destino compartilhado é ameaçado no instante derradeiro, a interatividade dá voz aos sentimentos que experimentamos - é permitida uma vingança, e depois somos envolvidos em desespero genuíno ao ter o comando do personagem, porém sem forças para evitar o infortúnio.


Shadow of the Colossus exibe a visão artística por meio do jogador, o envolvimento ativo facilitando os temas centrais - isolamento, luta e perda - capitaneados por beleza profunda. O resultado é altamente convincente, expondo a contribuição dos videogames à cultura, ao mesmo tempo em que jamais sacrifica o prazer da experiência.

Equipe EDGE



Fonte: Os 100 melhores jogos - Biblioteca GAMEMASTER - Editora Europa - 2008
Pág. 150

Fonte das imagens: UOL