terça-feira, 24 de maio de 2011

O Retrato de Dorian Gray


I


O ateliê estava repleto do odor substancioso das rosas, e quando a brisa de verão agitou-se por entre as árvores do jardim, entrou, pela porta aberta, o aroma acentuado do lilás, ou o perfume mais delicado do pilriteiro rosáceo.

No canto do divã de alforjes persas, em que se deitava e fumava, como de hábito, inúmeros cigarros, lorde Henry Wotton captava apenas o reflexo das flores mel-doces e mel-cores do laburno, cujos galhos trêmulos mal pareciam capazes de suportar o peso de belezas tão flamejantes; e, de vez em quando, as sombras fantásticas dos pássaros em revoada atravessaram, adejantes, as cortinas de tussor, compridas, estendidas à frente da imensa janela, e produziam uma espécie de efeito japonês, momentâneo, que o fazia pensar nos rostos de jade, pálidos, daqueles pintores de Tóquio que, por meio de uma arte necessariamente imóvel, procuram transmitir a sensação da fugacidade e do movimento. O murmúrio birrento das abelhas, que ombreavam caminho pela grama por cortar ou que, numa insistência monótona, circundavam as guampas douradas da madressilva das boticas, parecia fazer com que a imobilidade se tornasse mais opressiva. O ronco surdo de Londres era a nota bordão de um órgão distante.

No centro da sala, encaixado num cavalete armado, o retrato de corpo inteiro de um jovem de extraordinária beleza pessoal; à frente do cavalete, a certa distância, sentado, o artista em pessoa, Basil Hallward, cujo desaparecimento repentino, alguns anos atrás, causara, na ocasião, entre o público, tamanho rebuliço e dera origem a tantas conjecturas estranhas.

O pintor contemplava aquela forma bonita e graciosa que, com sua arte, espelhara com tamanha habilidade; um sorriso de prazer tomava-lhe o rosto e parecia querer ficar. De repente, porém, levantando-se, cerrou os olhos, e com os dedos foi cobrir as pálpebras, com a tentar aprisionar, dentro do cérebro, um sonho curioso, de que temia acordar.

Lorde Henry falou, lânguido:

- Seu melhor trabalho, Basil, a melhor coisa que você já fez. Você não deve deixar de mandá-lo a Grosvenor ano que vem. A Academia é grande demais e muito vulgar. Em todas as vezes que fui lá, ou havia muita gente, e eu não conseguia ver os quadros, o que era horrível, ou então havia muitos quadros, e eu não consegui ver as pessoas, o que era pior. O Grosvenor é, de fato, o local ideal.

- Não estou pensando em mandá-lo a lugar algum.

Basil Hallward jogou a cabeça para trás, daquele jeito estranho que fazia rir seus amigos em Oxford.

- É... não vou mandá-lo a lugar nenhum!

Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: O RETRATO DE DORIAN GRAY
Clássicos Abril Coleções - 2010
págs. 13 e 14

Tradução José Eduardo Ribeiro Moretzsohn