domingo, 29 de maio de 2011

O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha

CAPÍTULO I

QUE TRATA DA CONDIÇÃO E EXERCÍCIO DO FAMOSO
E VALENTE FIDALGO D. QUIXOTE DA MANCHA

Num vilarejo da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito tempo vivia um fidalgo dos de lança em lanceiro, adarga antiga, rocim magro e cão corredor. Uma olha com algo mais de vaca que de carneiro, salpicão na maioria das noites, duelos y quebrantos aos sábados, lentilhas às sextas, algum pombinho como prato especial aos domingos consumiam três quartos de sua renda. O restante dela, acabavam-no saio de velarte, calças de veludo para os dias santos, com seus patunfos do mesmo pano, e nos dias de semana se honrava com sua burelina da mais fina. Tinha em casa uma ama que passava dos quarenta, e uma sobrinha que ainda não chegara aos vinte, e um criado de campo e casa que tanto selava o rocim como empunhava a podadeira. Beirava a idade de nosso fidalgo pelos cinquenta anos. Era de compleição rija, seco de carnes, chupado de rosto, grande madrugador e amigo da caça. Dizem alguns que tinha o sobrenome de "Quijada", ou "Quesada", que quanto a isso há alguma diferença entre os autores que sobre este caso escrevem, ainda que por conjecturas verossímeis se deixe entender que se chamava "Quijana". Mas isto pouco importa para o nosso conto: basta que em sua narração não nos afastemos um ponto da verdade.

É, pois, de saber que o sobredito fidalgo, nos momentos em que estava ocioso - que eram os mais do ano -, se entregava a ler novelas de cavalaria, com tanto afinco e gosto, que se esqueceu quase de todo o exercício da caça e ainda a administração de sua fazenda; e chegou a tanto sua curiosidade e desatino nisso, que vendeu muitas fanegas de terra de plantio para comprar novelas de cavalaria que ler, e, assim levou para casa todas quantas podia haver delas; e, de todas, nenhumas lhe pareciam tão boas como as que compôs o famoso Feliciano de Silva, porque a clareza de sua prosa e aquelas intricadas frases suas lhe pareciam um primor, e mais ainda quando lia aqueles galanteios e cartas de desafio, onde em muitas partes achava escrito: "A razão da sem-razão que à minha razão se faz, de tal maneira minha razão debilita, que com razão me queixo de vossa formosura". E também quando lia: "Os altos céus que de vossa divindade divinamente com as estrelas vos fortificam e vos fazem merecedora do merecimento que merece vossa grandeza...".


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: O ENGENHOSO FIDALGO D. QUIXOTE DA MANCHA - VOLUME I
Clássicos Abril Coleções - 2010
págs. 51 a 53

Tradução Carlos Nougué e José Luis Sánchez