quinta-feira, 23 de junho de 2011

O HOMEM QUE QUERIA SER REI E OUTRAS HISTÓRIAS

Irmão de um Príncipe e amigo de um mendigo, se ele merecesse.

A Lei, no seu texto, determina uma conduta de vida moderada, difícil de ser seguida. Fui amigo de um mendigo em circunstâncias que nos impediam de ver se um merecia o outro. Aconteceu também ser eu irmão de um Príncipe e, assim, estive próximo dos componentes da situação de um verdadeiro Rei - exército, tribunais, fisco e política, tudo incluído. Hoje, porém, receio que meu Rei esteja morto e, se quiser uma coroa, precisarei buscá-la por mim mesmo.

Tudo começou em um trem de Ajmir para Mhow. Houve um Déficit no Orçamento que me obrigou a viajar não na Segunda Classe, que tem apenas metade do conforto da Primeira Classe, mas na Intermediária, que é realmente um horror. Não há estofados na Classe Intermediária, e a população ou é Intermediária, quer dizer, eurasiana ou nativa, o que é irritante para uma longa noite de viagem; ou Vadia, que é divertida mas embriagada. Os Intermediários não frequentam o vagão-restaurante. Trazem sua comida em trouxas e panelas, compram a sobremesa nos doceiros nativos e bebem água à beira da estrada. Quando o calor aumenta, os Intermediários são retirados mortos de dentro dos vagões e, com qualquer temperatura, são tratados com o devido desprezo.

Minha Intermediária estava vazia até chegar a Nasirabad, quando entrou um cavalheiro de grandes sobrancelhas negras, em mangas de camisa, que, seguindo o costume das Intermediárias, ficou vendo o tempo passar. Era um vagabundo errante como eu, mas com gosto educado para o uísque. Contou histórias de coisas que vira e fizera nos quatro cantos do Império por onde andou, e aventuras nas quais arriscara a vida por um prato de comida.

- Se a Índia só tivesse homens como você e eu, que, como os corvos, não sabem o que vão comer no dia seguinte, esta terra não pagaria 70 milhões em impostos: seriam 700 milhões - disse.

Quanto mais eu olhava para sua boca, mais me sentia inclinado a concordar com ele.

Falamos de política, a política da Vagabundagem, que vê as coisas pelo lado avesso, em que o acabamento não é homogêneo, e falamos sobre o correio, pois meu amigo queria enviar um telegrama da próxima estação para Ajmir, o ponto de desvio da linha de Bombaim para Mhow quando se vai na direção oeste. Meu amigo não tinha dinheiro, a não ser oito anás, que queria guardar para o jantar, e eu não tinha dinheiro nenhum, devido ao problema de Orçamento já mencionado. Além disso, eu ia para um deserto onde, embora precisasse manter contato com o Ministério da Fazenda, não havia um posto telegráfico. Era impossível, portanto, ajudá-lo de alguma forma.


Fonte da imagem: Té la mà Maria - Reus

Fonte: O HOMEM QUE QUERIA SER REI E OUTRAS HISTÓRIAS
RUDYARD KIPLING
1902

Clássicos Abril Coleções
Vol. 18 - 2010
págs. 9 e 10

Tradução Cristina Carvalho Boselli