quinta-feira, 28 de abril de 2011

A ESTRELA ARDENTE

Nenhuma outra mulher emitiu brilho mais intenso e genuíno no firmamento artifical que é Hollywood do que Elizabeth Taylor

Memória
É difícil saber pelo que Elisabeth Taylor foi mais famosa. Se pelos olhos amendoados que, em seu violeta intenso, eram o destaque de uma beleza arrebatadora. Se pela doçura que fez dela a maior estrela infantil da década de 40, ou se pela sensualidade explosiva que, adulta, procurou mais e mais em seus papéis. Se pelos excessos da sua era balzaquiana e pelas excentricidades da maturidade, ou se pelos inacreditáveis oito casamentos - em particular os dois com Richard Burton, que entre os anos 60 e 70 garantiram fofoca em fartura aos interessados nessa atividade. Bem mais fácil é enumerar as coisas de que ninguém poderia acusar Elizabeth Taylor: comedimento, insipidez, reserva, fraqueza, frieza, inapetência, insinceridade. Nas palavras de Joseph L. Manckiewicz, que a dirigiu em Cleópatra, Liz vivia a vida como se esta fosse um filme. Morta na quarta-feira 23 de insuficiência cardíaca, aos 79 anos, em Los Angeles, Liz foi a maior estrela de Hollywood. E o foi de um jeito que hoje, na era das celebridades, já não se pode mais ser - a um só tempo onipresente e inatingível, motivo de escândalo e inspiradora de novos comportamentos. Foi pioneira em viver em público uma vida amorosa tórrida, quando às mulheres cabia ocultar as idas e vindas intempestivas do desejo. Foi a primeira mulher a abraçar a condição de ícone gay. Foi uma atriz corajosa, disposta a, em pleno auge, se mostrar gorda e vulgar como uma esposa cujo casamento está ruindo, em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (de 1966, seu segundo Oscar; o primeiro viera seis anos antes, por Disque Butterfield 8). Foi das primeiras a admitir a luta com o álcool e os medicamentos e internar-se em clínicas de reabilitação - e também a se lançar de corpo e alma na benemerência. Depois da morte do amicíssimo Rock Hudson em decorrência de aids, levantou mais de 100 milhões de dólares para a pesquisa da doença; e, entre outras façanhas, vendeu um diamante de extraordinário valor material e afetivo para construir um hospital em Botsuana - país em que, numa cabana em uma aldeia, se casara pela segunda vez com Burton, em 1975. Passional, hiperbólica e entregue, Liz emitiu brilho genuíno no firmamento artificial que é Hollywood.


POR ISABELA BOSCOV

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (1958)


A primeira interpretação verdadeiramente visceral de Liz: seu terceiro marido, Mike Todd, morreu no início das filmagens. Foi seu primeiro filme baseado numa peça de Tennessee Williams, e aquele em que está mais devastadoramente sensual


Fonte da imagem: adoro cinema


Fonte: revista VEJA - edição 2210 - Ano 44 - nr. 13 - 30 de março de 2011
UMA PUBLICAÇÃO DA EDITORA ABRIL