segunda-feira, 16 de agosto de 2010

FORÇAS SOBRE-HUMANAS

HISTÓRIAS CONTADAS EM TODOS OS CANTOS DO PLANETA

Por Wagner Gutierrez Barreira

Ao redor de uma fogueira, milhares de anos atrás, no tempo livre que separava o fim das tarefas do dia da hora de dormir, os homens primitivos começaram a contar histórias. Com elas, tentavam encontrar respostas para o que não conseguiam comprender. Por que o Sol, a Lua e as estrelas surgem e somem no céu? Quem comandava os raios e as tempestades? O que acontece depois que morremos? Como isso tudo que me rodeia apareceu? Por que estou aqui?

A base da mitologia é o esforço permanente e contínuo de entender o mundo e o próprio homem. Histórias maravilhosas passaram de geração a geração e, à medida que foram contadas e recontadas, tornaram-se mais complexas, ganharam novos personagens e variantes. Explicações para fenômenos físicos adquiriram uma dimensão sublime.
Não há nenhum grupo cultural ou étnico na Terra que não associe a origem do mundo, dos seres humanos, das plantas, dos animais e dos acidentes geográficos a uma força superior, sobre-humana. Deuses e heróis convivem com a humanidade desde a aurora de nossa espécie. E essas histórias, que não têm autores, continuam a nos encantar.
Os mitos afiavam o pensamento abstrato, estavam presentes e alimentavam o cotidiano. Por que fazer um ritual de sepultamento em vez de abandonar um morto pelo caminho? Exemplos pré-históricos: em Altamira, na Espanha, homens primitivos (ou nem tanto) pintavam suas caçadas nas cavernas. Na África, estatuetas representavam mulheres de nádegas e seios fartos. Para muitos arqueólogos e antropólogos, as pinturas evocam o sagrado em busca de melhor sorte e proteção na próxima caçada. A estátua é um símbolo da Mãe Terra, uma deusa da fertilidade e, para muitas culturas, a força motriz que deu origem ao mundo.
Povos de todo o planeta forjam seus heróis e deuses de acordo com o que têm à mão. Os nórdigos do norte da Europa achavam que o mundo começara no embate, em um grande campo de gelo, do calor contra o frio. Para os gregos, os deuses viviam numa montanha, assim como para os indianos.
Os habitantes do oeste da África imaginavam que a origem do mundo era um grande ovo cósmico (assim como os chineses). O homem pré-colombiano nasceu do milho. Em outras culturas ele veio da argila, da madeira, do barro ou do sopro divino. Em muitas delas, foi difícil chegar à humanidade, e os deuses criaram e destruíram vários protótipos. Ao mesmo tempo, os personagens mitológicos lidam com sentimentos muito humanos, como a raiva, o ciúme, a vergonha, a culpa - sejam deuses, sejam heróis ou mortais. Não por acaso, a psicologia e a psicanálise foram buscar em histórias ancestrais exemplos para suas hipóteses. O suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) defendia a existência do "inconsciente coletivo", uma grande herança de imagens e símbolos que cada um de nós carrega, tal como um DNA. O próprio Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, usou o mito de Édipo como motivo em seus textos. A propósito, relações incestuosas são abundantes na mitologia e a destruição do pai pelo filho, um tema recorrente.




FONTE: O LIVRO DAS MITOLOGIAS
EDIÇÃO 280-A - JULHO DE 2010
Págs. 7 e 8